Opiniões

Ocinei Trindade — O justiceiro de Temer

 

 

 

No álbum dos Mutantes de 1971, Jardim Elétrico, há a canção chamada “El Justiciero”. Eu a ouvi pela primeira vez, lembro bem, em 1999. Estava em São Francisco, Califórnia, em um dos meus passeios quase diários: visitar a mega loja de discos Virgin. Em uma coluna de promoção de vendas, estava o cd da lendária banda brasileira. Eu voltei algumas vezes só para escutar esta música. Eu achava-a fascinante, violenta, inteligente e divertida. Ria com fones ao ouvido. Parecia cena de filme de Quentin Tarantino a letra. Só que os Mutantes já eram vanguardistas. Michel Temer precisa ouvir. Além do presidente da República,  todos os políticos e juízes brasileiros também necessitam escutar.

Como se sabe, a figura do justiceiro refere-se a alguém que faz justiça com as próprias mãos, passando por cima das leis e convenções sociais. Geralmente, mata-se um devedor ou um inimigo. O justiceiro pode ser contratado ou ser própria “vítima” que se sente incomodada com alguma pessoa que vem atrapalhando planos, devendo dinheiro ou favores. O justiceiro pode ter remorso ou não ao matar. De qualquer forma, algum prazer ele possui ao eliminar da face da terra alguém que não cumpriu regras e acordos, que mentiu ou enganou, gerando algum tipo de prejuízo.

Há justiceiros que são rápidos e práticos. Já outros, preferem ver a vítima sofrer lentamente por horas ou dias antes de empacotar para o andar de baixo. Do pó viemos, ao pó retornaremos. No caso de Joesley Batista, talvez, tenha sido ele um justiceiro com truques mais sofisticados de serpente. Picou o presidente e se retirou para Nova York em avião particular protegido por leis, juízes, procuradores e ministros do STF. Não seria um justiceiro gourmet, nem de um justiceiro somelier, que certamente Marilena Chauí condenaria. Não se trata de um justiceiro carniceiro, mas de um justiceiro filet mignon. Não é todo dia que um bilionário carnívoro ou canibal tenta matar um presidente da República. Porém, alguns conseguem.

Acompanhar o noticiário político no Brasil exige esforço. É fácil se perder no meio de tantas delações na Lava Jato, as negativas todas dos políticos envolvidos ou acusados, as notas oficiais ou entrevistas dos advogados, das declarações de inocência. As narrativas diárias superam as criadas por autores de telenovelas ou de roteiristas de séries de televisão americana.  Assistimos impávidos, resmungamos nas redes sociais, nos queixamos com o vizinho, comentamos no trabalho (quem ainda possui um), pedimos “justiça”, pronunciamos “diretas já”, acusamos uns aos outros por defender este ou aquele político citado nos escândalos que recheiam as páginas dos jornais e telejornais. O Brasil, ao que parece, está distante de ser um país justo. Entretanto, há quase sempre algum justiceiro à espreita.

Não fomos educados para valorizar a Constituição, nem lei alguma. Para mim, as leis no Brasil funcionam assim: para serem ignoradas, para serem descumpridas, para serem burladas ou para serem debatidas em tribunais por advogados caros que defendem criminosos que têm poder e dinheiro. Neste caso, políticos e empresários que representam uma minoria da sociedade brasileira. A desigualdade social, sabemos, é bastante extrema e desleal nestas terras.

Não é justo assistirmos pela televisão ou pelo Facebook as pessoas “se matando” por um país desgovernado. Os desgovernos ocorrem nos estados e nos municípios da Federação. A guerra civil ainda não estourou, alguém insinua, por ser o brasileiro um povo pacífico. Tenho dúvidas. A violência e a barbárie que acontecem no Brasil, para mim, são tamanhas, que não cabe nem um por cento em páginas de diários, sites de notícias, e muito menos no Jornal Nacional. A imprensa não consegue dar conta de tantos fatos ruins.

Assim como o Estado não consegue inibir a violência no campo, nas cidades, nem tampouco combater a miséria, a corrupção e a roubalheira, pois quem está em cargos privilegiados e legitimados pelo voto popular não tem o interesse de ser justo e correto com o dinheiro público que deveria ser usado para saúde, educação, infra-estrutura e segurança. Perpetuar-se no poder e fazer barganhas exige um certo esforço. Para alguns, há o benefício da delação premiada. Para outros, nem cadeias há. O sistema prisional brasileiro em ruínas serve para quê? Justiça para quem?

Apesar de tantos simulacros, golpes, troca de farpas entre golpistas e não golpistas (mas quase todos golpeados), interesses partidários e financeiros, pelo menos há algo que pode parecer soar diferente neste Brasil injusto. Não lembro de ter visto ricos e políticos influentes presos após um longo julgamento no país, como é o caso do Mensalão ou a prisão do ex-governador Sérgio Cabral; ou um ex-presidente da República acusado de cometer crimes (?) depondo (mesmo que contrariado) perante um juiz de primeira instância, promotores de justiça ou policiais federais. Isto parece injusto?

Quando os juízes brasileiros ou os ministros do STF não dão conta da demanda, apela-se ao SDJ (Supremo Divino Juiz), mas este também encontra dificuldades em defender pessoas e políticos indefensáveis, dispensados até pelo advogado do Diabo, de tão difícil que é convencer a opinião pública que há inocentes nesta terra com muitas leis. São tantas em excesso que se tornam aparentemente nulas em esculhambação ou retórica apenas.  A presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, disse que a solução para o Brasil só virá quando os brasileiros decidirem solucionar. Se nossos representantes eleitos não resolvem, a população pode, quem sabe, exercer atos de justiça ou de justiceiro para impor uma certa ordem?

Ao contrário do dito popular, “a justiça tarda e falha”, penso. O que se pensa ser legal, moral ou ético nem sempre parece justo (e vice-versa). Os conflitos são iminentes diante de qualquer disputa ou interesse. Como ceder ao algoz e como acatar a ordem judicial?  Por algum motivo, alguém decidiu julgar e condenar à morte por conta própria líderes como Abraham Lincoln, John Kennedy, Martin Luther King, Malcom X, Mahatma Gandhi, Chico Mendes, Dorothy Stang e muitos anônimos. A população brasileira tem sido alvo de mortes desnecessárias por parte daqueles que nos governam e nos julgam. Há no país gente interessada em promover justiça, mas há os que preferem justiceiros rápidos e certeiros. A todos estes, qual punição poria fim ao genocídio de um país inteiro? Um comentarista político de televisão considera que o Brasil passou a viver a era dos juízes. Tenho dúvidas se se trata do poder judiciário ou dos cidadãos comuns que julgam e sentenciam por conta própria aquilo que geralmente incomoda ou traz prejuízo.

Há exatos 100 anos, o poeta português Fernando Pessoa escreveu um poema valendo-se do heterônimo Álvaro de Campos, que a mim soou profético, e serve para refletirmos sobre tantas injustiças provocadas por homens de poder, sobretudo no Brasil. Há um vídeo disponível na Internet em que a cantora Maria Bethânia interpreta o texto abaixo com beleza e contundência. A justiça pode e deve vir por meio da palavra, assim como a poesia, penso. No entanto, não bastam só palavras, mas ação. E agir exige esforço, combates, riscos de vida ou morte. Cabe, na justa palavra do poeta, ao meu ver,  decidirmos se queremos ser um país justo ou ficarmos reféns de justiceiros inescrupulosos. Ultimatum.

 

Mandato de despejo aos mandarins do mundo


Fora tu,

reles

esnobe

plebeu

E fora tu, imperialista das sucatas

Charlatão da sinceridade

e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro

Ultimatum a todos eles

E a todos que sejam como eles

Todos!

 

Monte de tijolos com pretensões a casa

Inútil luxo, megalomania triunfante

E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral

Que nem te queria descobrir

 

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular

Que confundis tudo

Vós, anarquistas deveras sinceros

Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores

Para quererem deixar de trabalhar

Sim, todos vós que representais o mundo

Homens altos

Passai por baixo do meu desprezo

Passai aristocratas de tanga de ouro

Passai Frouxos

Passai radicais do pouco

Quem acredita neles?

Mandem tudo isso para casa

Descascar batatas simbólicas

 

Fechem-me tudo isso a chave

E deitem a chave fora

Sufoco de ter só isso a minha volta

Deixem-me respirar

Abram todas as janelas

Abram mais janelas

Do que todas as janelas que há no mundo

 

Nenhuma idéia grande

Nenhuma corrente política

Que soe a uma idéia grão

E o mundo quer a inteligência nova

A sensibilidade nova

O mundo tem sede de que se crie

Porque aí está apodrecer a vida

Quando muito é estrume para o futuro

O que aí está não pode durar

Porque não é nada

 

Eu da raça dos navegadores

Afirmo que não pode durar

Eu da raça dos descobridores

Desprezo o que seja menos

Que descobrir um novo mundo

Proclamo isso bem alto

Braços erguidos

Fitando o Atlântico

 

E saudando abstractamente o infinito.

 

(Álvaro de Campos, 1917)

 

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