Opiniões

Artigo do domingo — Solo de guitarra pelo coletivo de uma geração

 

Magalha nos anos 1980, jovem e de cabelos compridos, no auge do BRock (Foto: Alcino – Facebook de Fred Landim)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

A semana que passou, como creio ter sido para vários amigos do advogado, professor e músico Rodrigo Magalhães, foi de reflexão. Sua morte precoce aos 47 anos, durante uma cirurgia de emergência entre o fim de noite de segunda (22) e o início da madrugada de terça (23), por conta de um aneurisma na artéria aorta, trouxe a público o que muita gente talvez sentisse cotidianamente, mas talvez nunca tenha se tocado de forma tão nítida: pela cultura associada à humildade, ao bom humor e jeito sempre afável com todos, Magalha era um dos sujeitos mais queridos da sua geração.

Depois que ele passou mal na manhã de segunda, enquanto dava aula na Universidade Cândido Mendes, soube ainda de tarde, por meio de familiares e amigos médicos, da gravidade da situação. Como escrevi no blog, pelo qual comecei a acompanhar a evolução do seu quadro, conhecia Magalha desde a adolescência, nos anos 1980. Vivíamos o auge do BRock, quando ele, ainda garoto e de cabelos compridos, já brilhava como músico nas bandas locais de rock.

Nosso maior convívio se deu a partir de uma excursão que saiu de Campos para o primeiro show de Paul McCartney no Brasil, no Maracanã, em 1990. Tinha passado os dois últimos anos ouvindo muito os Beatles e, conversando com Magalha durante a viagem, me surpreendi com seu conhecimento de rock inglês, de conjuntos que eu ainda sequer conhecia, mas viraria fã, como Yarbirds (depois Led Zeppelin), John Mayall & the Bluesbreakers e Cream — hoje, minha banda favorita.

Quem também estava naquela viagem era Gilberto Cruz Filho, outro que teria a vida precocemente abreviada, num acidente de carro, em 1993. Lembro após sugerir que, caso alguém se perdesse do grupo, que esperasse os demais na estátua do Bellini, em frente à entrada do estádio, Gilbertinho exclamou:

— Bellini, grande capitão de 50!

Ao que aleguei que Bellini só teria sido capitão da Seleção de futebol em 1950 no juvenil, já que o ex-zagueiro foi de fato capitão da Seleção em 1958, na conquista primeira Copa do Mundo pelo Brasil. Grande amigo de Gilbertinho, Magalha não deixou passar a oportunidade para cair em sua pele, indagando a todo momento, inclusive nos intervalos das músicas do ex-Beatle:

— E o Bellini?

Algum tempo depois, já na primeira década do novo milênio, sobretudo a partir de outro amigo comum, o também advogado Andral Tavares Filho, tive minha fase de maior convivência com Magalha. Não raro nos cruzávamos para dividir mesa, bebidas e papos nas noites campistas. Lembro do encontro com outro amigo comum, médico, gente boa, mas que já tinha bebido um pouco além da conta, no antigo Club, casa noturna que fez sucesso na Pelinca dos anos 2000.

Se não me falha a memória, o cardápio da casa oferecia um prato com palmito de pupunha. E como esse amigo comum começou a querer encher o saco de Magalha com lembranças do passado, “pupunha” virou uma espécie de código particular, montado naturalmente entre nós, para fazer referência velada a quem já bebeu demais e começou a ficar inconveniente. E sem que ninguém mais na mesa entendesse, inclusive o alvo eventual da ironia, ríamos a balde enquanto um indagava ao outro:

— Será que vai rolar pupunha?

Com a idade e mudanças de hábitos, nesses rumos diferentes que a vida segue sem que nem percebamos, nossa convivência foi se espaçando. Mas sempre que nos encontrávamos, demonstrávamos o mesmo carinho recíproco. Depois que se casou com Beatriz, Magalha se tornou um cara caseiro, sobretudo após o nascimento da sua Alice, hoje com 2 anos. Recolhimento que eu levei mais tempo — e casamentos — para finalmente adquirir.

Não pude ir ao seu velório na terça, pois tinha um compromisso prévio e inadiável agendado no Rio, coincidentemente em companhia de outro amigo comum de Magalha. Mas minha namorada, também advogada e sua ex-colega de turma no Auxiliadora, esteve no Caju e me contou do grande comparecimento de amigos, colegas do Direito, alunos e ex-alunos. E testemunhou como dava para se cortar com faca a densidade da consternação geral.

Na tarde de quarta (24), me ligou uma ex-namorada. Presente num dos últimos shows de Magalha, com sua banda Cross Time, há menos de um mês, no pub Republic, ela se reuniu com ele ao final e conversaram um pouco. E fiquei emocionado ao saber que, uma vez que me tornei o assunto, as palavras dele sobre mim foram paridas em três das suas grandes virtudes para com todos: gentileza, carinho e generosidade.

Na noite daquela mesma quarta, outro amigo comum, o biólogo e também professor Marcelo Cordeiro completou 45 anos — exatamente um mês antes de mim, como observamos desde que nos tornamos amigos, ainda aos 3 anos de idade. De volta recentemente a Campos, depois de mais de 10 anos morando na Bahia, ele chamou vários amigos de adolescência e juventude para comemorar a data no Mexicano.

Inevitavelmente, além dos brindes pelo reencontro e a felicidade do aniversariante, o fizemos também em homenagem ao companheiro de um mesmo lugar e tempo, que todos conheciam, gostaram durante boa parte da vida, mas já não estava mais entre nós.

Num solo de guitarra pelo coletivo da nossa geração, vá em paz, Magalha!

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

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  1. Tenho recordações de infância. Foram três Rodrigos no Ensino Fundamental, na extinta Escola Santo Antônio da Professora Vilma Tâmega. Eram Os Três Mosqueteiros: Rodrigo Tavares, Rodrigo Guimarães e Rodrigo Magalhães. Desde a alfabetização até a antiga 4ª série.São tempos que não retornam, mas são lembranças que não se apagarão jamais.Ele já se foi…Que esteja em paz esse é o desejo do meu coração.

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