Opiniões

Guilherme Carvalhal — Alegria de viúva

 

 

 

Reuniram-se em dezembro conforme faziam todo ano sem falta desde o final do ensino médio. Unidas as onze amigas, fortaleceram seus laços e os fizeram perdurar até agora, quando já caminhavam para os quarenta. Nesse ano, entretanto, se reuniriam abaladas pelo peso da viuvez de Cibele.

Tomás faleceu em fevereiro. Viajava de carro para uma reunião quando sofreu um AVC dirigindo. O impacto do carro contra o para-choque de um caminhão se somou ao dano cerebral; sobreviveu dois dias no hospital, mas não resistiu.

Ninguém soube do paradeiro de Cibele ao longo desses meses. Desapareceu, sem responder mensagens, sem atender ao celular, sem comparecer nas redes sociais. Um chá de sumiço. Foi até com susto que Roberta, sempre encarregada de contactar todas para a data do encontro, teve sua ligação atendida e confirmada a presença da viúva.

Sua presença tornou-se um estorvo na cabeça de Jaqueline, a que as recepcionaria em sua casa esse ano. A animação que sempre marcava as reuniões perderia espaço para as lamentações, com todas em torno de Cibele ouvindo queixas de solidão e dando conselhos de melhoria. Chegou a desejar que não comparecesse pelo bem de sua tradição.

Seus receios se perderam com sua chegada: entrou sorridente, radiante, emanando uma aura de felicidade contagiante. Todas se espantaram com sua postura, mais jovial que qualquer uma e assim ninguém se dirigiu a ela como se pisasse em ovos.

Nas conversas pouco a pouco se satisfizeram com seu jeito alegre e simpatia. Diriam até que havia mudado para melhor. Conversaram frivolidades até uma delas citar a morte do marido, comentário visto pelas demais como pouco propício para as circunstâncias. Mas, contrariando expectativas, ela não pareceu comovida, e sim muito bem resolvida com seus sentimentos. E então começou a contar sobre seus últimos meses.

Após o sepultamento de seu marido, a sogra lhe disse “retome sua vida, não importa o que aconteça”.  Ela se sentiu ofendida, já que essa expressão parecia menosprezar seu sofrimento.

Após três semanas, um tanto quando desnorteada com a solidão, saiu a esmo pelas ruas e entrou em um bar avulso. Bebia sozinha quando um cara um pouco mais novo sentou-se ao seu lado. Ele foi simpático e terminaram a noite juntos na cama. Sim, relutou diante das investidas do rapaz devido ao curtíssimo tempo da perda do marido, mas as palavras da sogra ressoaram e a livraram dos grilhões do recato.

Daí por diante ela retornou a antigos hábitos de antes do casamento. Sua vida pessoal de certa forma encaminhou por uma sequência de parceiros aleatórios, e ela se preencheu do vazio, sem desejar um novo vínculo. Contou às colegas de tantos anos que sua vida se tornou uma grande curtição e não se lembrava de ser vivido tão bem em outro momento.

E assim deixou-as todas boquiabertas. À medida que o álcool subia a sinceridade se alastrava e todas, devidamente casadas, começaram a comentar o quanto a invejavam. Foram embora apenas lá pelas tantas da madrugada, cada um de volta para o seu lar, e nunca tantas mulheres pensaram ao mesmo tempo e pela mesma razão em envenenar seus maridos e tirá-los de seu caminho para afinal encontrar a felicidade.

 

Este post tem um comentário

  1. Espetacular, parabéns!
    Melhor assim do que muitas que fingem ser tão amadas! Parabéns.

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