Opiniões

Guilherme Carvalhal — Através dos olhos do super-homem

 

(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Por cima da torre da antena assisti crianças jogando futebol em um campo de várzea. Corriam descalças mal se importando com as pedras e os choques contra a terra abriam tampos nas pontas dos dedos. Ao longo daquela rua paralela, donas de casa carregavam suas sacolas de compras seguidas pelos cachorros de rua em busca de sobras de miolos e pelancas das carnes do açougue.

A cidade seguia seu curso normal naquela tarde. Os jardineiros cuidavam das flores em torno do chafariz, uma meia dúzia de advogados debatiam uma decisão polêmica na entrada do restaurante, as funcionárias do call center se reuniam na varanda abobadada para a pausa pro café e cigarro. Nada corria fora do seu eixo.

À distância eu me comprazia com o ritmo cotidiano. Algo me infundia felicidade de forma inexplicável, arrebatando-me de inopino de qualquer instinto melancólico me perseguindo. Bastava esse meu passeio, esse lance de olhos sobre pessoas normais levando suas vidas normais e de imediato um sorriso me contagiava.

A cidade, mesmo com seus marginais, mesmo com seus engarrafamentos, com cracolândia, ruas escuras, depósitos de lixo, esgoto a céu aberto, me comovia. O outro lado de um universo complexo se mostrava escondido: a esmola depositada na lata do mendigo, o casal levando o filho para andar de bicicleta no parque, e tantos pequenos atos irrisórios, menosprezados pela imprensa, mostravam o lado obscuro além dos becos e bocas de fumo.

Nem é preciso de visão de raio-x para perceber o quanto se esconde entre os enormes prédios e as grades dos condomínios. Falamos de grandes aventuras, não dessas em que prendemos o bandido ou salvamos o planeta. É uma aventura sem feitos grandiosos, destituídos de nobreza ou abnegação, mas capazes de mexer com o equilíbrio do mundo.

E mesmo entre esses tantos milhões de pessoas indo e vindo, cruzando-se no semáforos, dando bom dia umas às outras nas esquinas, a solidão me incomodava. Por sermos tantos e tão aglomerados, não passávamos de mais um. Mais um no censo, mais um no departamento de trânsito, mas um no obituário dos jornais.

Quem se lembraria de você entre tantas e tantas pessoas? Sua identidade mal existe; sua cara pode ser exposta em um outdoor e dois dias após o arrancarem ninguém mais o reconheceria. Sua identidade o faria um verdadeiro ninguém na multidão.

Por isso um senhor ameaçou se jogar da ponte semana passada. Os bombeiros cercaram querendo retirá-lo, uma aglomeração se juntou incentivando-o a dar cabo. E ele gritava que sua vida não fazia sentido, que era solitário, que ninguém se importava com ele. Desistiu da ideia, mas sua foto saiu em diversos sites e tornou-se motivo de riso. Aproveitou seus breves minutos de fama, e quando o esqueceram novamente, se matou.

Mesmo assim, a cidade seguiu seu curso normal.

 

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