Campos dos Goytacazes,  14/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Fabio Bottrel — Andarilhos Literários

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Alessandro Marcello – J.S. Bach – Piano: Anne Queffélec

 

 

 

 

 

 

 

— Ô tempim bom pra esticar os pé debaixo da chaminé… parece inté que a gente tá dentro do texto de Fernando Leite. – Disse Seu Zé, enquanto discutia Mallarmé, assobiando a brisa leve que acariciava o rosto e as palavras ditas a seu amigo, Mané.

— Pois é, Seu Zé… cidade boa é isso ou essa, tanto faz se dessa ou disso, o bom mesmo é que inté nós que somos personagens em um texto, em tão pouco tempo de existência, já temos tanta história pra contar que já começamos citando que é pra dar tempo de terminar.

Enquanto os dois compadres conversavam à beira de um Ipê tão amarelo feito o sol belo na Terra, observando sobre os dedões de seus pés a paisagem que aflora afora o dia, um vento forte incide em suas faces como um sopro trazendo uma voz longínqua: “As cidades são vivas, se movimentam, pulsam, experimentam o frescor de tempos felizes, adoecem, amargam enormes tristezas e morrem também!!”

— Ô Mané, d’onde tá vindo essa voz?

— Acho que daquele homi que tá lá na ponta da rua.

Mané aponta para um homem de barba por fazer, tropeçando pelas calçadas e gritando para o céu: “As cidades são grandes casas comuns. Se bem cuidadas, generosas e confortáveis, se não, insuportáaaaaaaaaaaaaaveis!!!!”

— Mas esse homitá muito brabo, Seu Zé.

— Eu conheço esse texto, Mané, esse homitá falando o texto do Fernando Leite.

— Uai, sô! Mas será que nós que fomos parar no texto de lá ou ele que veio parar aqui?

Outro vento forte sopra na face dos dois e o Ipê amarelo feito o sol belo desaba como cartolina, levando tudo ao seu redor até o céu, desmorona como um edifício implodindo ao chão. Atrás do cenário caído, o céu está cinza como um filme de terror, Mané e Seu Zé percebem que estão no alto de uma montanha e lá embaixo veem uma cidade em forma de avião com edifícios de curvas tão harmônicas, jamais vista. Em um dos imponentes edifícios reconhecem o Congresso Nacional, em frente a ele, milhares de pessoas manifestam com placas contra a corrupção, outras gritam e choram enquanto a polícia bate feroz nos que ali estão.

Enquanto os dois observam abismados, sentem um ligeiro cheiro de álcool envelhecido em corpo humano, quando Seu Zé olha para o lado vê o bêbado, que gritava rua afora, olhando a baderna que se fazia lá embaixo e diz calmo como se a ressaca se transformasse em torpor: “Os aglomerados humanos, se estruturaram, desde sempre, seguindo a lógica do Poder.” –  Aponta para o Congresso Nacional e depois para a população, vítima da corrupção, que se manifesta impotente ao redor – “Do centro para a periferia.”

— Quem é o sinhô? – Pergunta Mané.

Seu Zé analisando bem de perto o homem reconhece na barba rala uma semelhança com Oscar Niemyer.

— Aqui jaz as minhas lágrimas, meus amigos. – Disse o homem antes de um vento forte romper com a conversa, tão forte que fez os olhos de Seu Zé e Mané se fecharem e no acalmar da violência divina os sussurros de ventania nos ouvidos aos poucos foram trocados por vozes suaves de garotos que gritavam em uma partida de futebol. Quando abriram os olhos estavam no alto da torre de uma antena, lá embaixo havia um campo de várzea com crianças brincando e ao longo da rua mulheres carregavam sacolas de compras seguidas pelos cachorros.

— Mané! Eu reconheço esse campo! Mané! É assim que começa o texto do Guilherme Carvalhal!

— Mas nós pulamos para outro texto intão, Seu Zé?

— To achando que sim…

— To me sentindo um personagem sem moradia assim, Seu Zé…

— Não seja bobo, Mané. Que outro personagem tem a chance de fazer uma viagem literária assim?

Enquanto os dois conversavam viram uma sombra se aproximar rente à quina direita da torre, prenunciava a aparição de um rapaz sorridente, que como se já os conhecesse disse acenando para que os dois o seguissem: “Vamos, amigos! Aqui não nos escondemos atrás de prédios e grades de condomínio!”

Dito isso o rapaz se pôs a descer a torre da antena pela escada em caracol, tão rápido que se os dois não tivessem captado logo a sua mensagem e se pusessem a descer também, tê-lo-iam perdido de vista.

Seguindo o jovem passaram pelo meio do campo de várzea, onde as crianças jogavam bola, atravessaram a rua que as donas de casa seguiam com suas sacolas e cachorros, viram o rapaz dar esmola para um mendigo e desejar-lhe uma vida com mais benesses.Tudo parecia correr normal por aquela cidade, jardineiros cuidavam do jardim da praça rente ao chafariz onde passavam, pais cuidavam de seus filhos, mas logo entraram numa rua com enorme engarrafamento de carros e motos, que buzinavam incessantemente. Andaram, andaram, andaram e lá no final havia uma ponte, começaram a atravessá-la, o rapaz havia sumido, mas logo notaram bem à frente um personagem cativante, enquanto outros tantos passavam ao seu lado. O senhor de cabelos grisalhos e corpo esbelto olhava fixamente para baixo da ponte, para os rios e as pedras. Quando Seu Zé e Mané se aproximaram ele se espantou.

— O que o sinhô tá olhando tanto aí pra baixo? – Pergunta Mané.

— Vocês não eram para estar aqui… ninguém conversa comigo nesse lugar.

— Não, na verdade nós somos andarilhos literários…

— Estão vendo todas essas pessoas seguindo suas vidas normalmente enquanto uma, ao lado, está prestes a ser ceifada? – Perguntou o senhor ao dois, enquanto demonstrava a apatia dos transeuntes, como se deixassem de ser humanos, estavam todos robotizados seguindo para suas obrigações.

— Sim, mas o sinhô não está pensando em… – Antes que Seu Zé pudesse terminar a fala o homem se joga da ponte em direção ao rio e às pedras. Mané se assusta e ao tentar pegar o pé do senhor que decidiu terminar com a própria vida se desequilibra e despenca da ponte, Seu Zé consegue segurar seu pé, mas logo suas forças se esvaem e os dois caem no fundo do rio.

Quando emergiram do mergulho e constataram que ainda estavam vivos, Seu Zé e Mané não conseguiam identificar onde foram parar. Tudo era branco e da textura de pano, aparentava lá no céu, onde o pano se fechava e formava um saco, estar escrito UTOPIA, ao lado as pessoas cumprimentavam umas às outras, abraçavam, as camisas eram coloridas, os sorrisos sinceros, não havia gente mau-caráter, não havia corruptos. Seus ouvidos foram preenchidos da mais bela música que todos escutavam, todos pareciam estar satisfeitos, Seu Zé logo reconheceu que estavam no texto da Carol Poesia e gritaram na esperança de quem os criou escutasse:

— Não queremos sair daqui!!! Deixa a gente aqui!!

— Seu Zé, quando a esmola é tão boa assim… sei não, hein, será que isso é sonho?          – Mané ouviu a mulher que passava ao lado dizer “Pode ser, quem sabe?”

De repente, como um terremoto, o saco começou a balançar, como se estivesse na mão de um gigante que abriu e virou de cabeça para baixo. Todos os educados, a música bela, os bons de caráter, as cores, tudo começou a cair em câmera lenta, uns esbarrando nos outros, preenchendo de cores pelos esbarrões o que logo se tornaria breu ao caírem todos no mesmo buraco.

Seu Zé e Mané enquanto caíam em queda livre avistaram lá embaixo o continente Sul Americano, tentaram designar o vento com os seus corpos para caírem no Brasil, mas acabaram caindo na Colômbia, em sua capital, Bogotá. Seu Zé logo reconheceu o bairro histórico onde a cidade fora fundada, os principais museus e prédios históricos do governo. Percebeu de imediato: — Mané, estamos no texto da Manuela Cordeiro!

— Nós tamos na Colômbia, Seu Zé?

— Tamos, precisamente em Bogotá.

— Né por nada, não… mas cê num tá com saudade de casa já, não?

— Mané… agora que cê falou… eu to é com uma saudade daquela cabruncada…

— E esse texto da Manuela tem um monte de Cidade pra nós desbravar ainda, mas eu tôcuma saudade…

— Vamo fazer greve então, Mané?

— Vamo. Vamo sentar na escada desse museu aqui e deixar claro que daqui nós num sai enquanto num voltar pra casa.

Os dois sentam na escada do museu de Bogotá com os braços sobre os joelhos dobrados.

— Ouviu, Seu Narrador?! Pode parar de ficar descrevendo a gente que nem movimento nós vamo fazer mais.

Os dois param de fazer movimentos e se põem estáticos tal como uma estátua.

— Que narrador chato, nem com a gente parado ele fica quieto… – Diz Seu Zé falando com o canto da boca.

Passam-se horas e horas e os dois continuam estático na escada do museu, então o autor resolve intervir, pois a história precisa ter fim.

— Estou tentando atender ao desejo dos dois, mas se ficarem parados nada vai acontecer.

— Mas nós não queremos ficar aqui, queremos voltar pra casa, escreve aí que estamos indo pra Campos.

— Querem ir andando?

— Claro que não! – Diz  Mané assustado.

— Então vocês têm que se mexer até eu ter uma ideia para levar vocês de volta.

— Mas que que nós faz? – Pergunta Seu Zé.

— Vão andar pela cidade. – Diz o Autor.

Os dois se levantam e começam a caminhar pelo bairro histórico de Bogotá, passam em frente ao local onde Manuela se hospedou, e sem perceber um bueiro enorme aberto logo à frente caem no buraco tão escuro e tão vazio que pareciam cair por horas!

— Seu Zé, eu acho que a gente já parou de cair.

— Mas está tudo escuro ainda, Mané.

— Mas eu consigo pisar, será que não tem um lugar para acender a luz? – Mané vai apalpando ao lado e percebe que tem paredes, logo acha um interruptor e quando acendem percebem que estão numa sala, abrem a janela e reconhecem a rua Formosa, enquanto os carros passam num dia belo, eles veem o Colégio Eucarístico bem à frente. Sobre a mesa uma folha com o Mapa de Mário Quintana:

 

“Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

 

(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

 

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

 

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

 

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

 

E talvez de meu repouso…”

 

Os dois sorriram e entenderam: a cidade ideal é onde está nossa casa.

 

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