Campos dos Goytacazes,  20/07/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Manuela Cordeiro — Pedindo baixa

 

(Foto: Manuela Cordeiro)

Imagine você, leitor, caminhando em direção a um platô em uma serra, na hora do por do sol. Crianças brincam de bicicleta no horizonte. E tem um banco, daqueles de praça, para que possa se sentar. Ninguém além das crianças, parece mais um quadro só feito para que aprecie em silêncio. Faz calor, mas nada absurdo. Absurdas são as cores do céu, a paz, os meninos que se chamam ao fundo. E assim alguém te aborda, mesmo tão absorta nas imagens da natureza. Pergunta se pode conversar com você. Claro. Mas se oferece para sentar na pedra abaixo da linha do banco. Mas de jeito nenhum. A justificativa é ter um cálice no banco com água do outro lado do banco. A percepção foi desse senhor cuidadoso que chegou. Portanto, sente ao meu lado. Por favor.

 — Qual é sua graça?

— Manuela.

— A senhora vai me desculpar a pergunta inconveniente. Mas a senhora é pesquisadora?

— [sorrindo, imaginei ser a pergunta inconveniente meu status marital, por assim dizer]. Sim, sou sim.

— É porque eu não concordo. Essa coisa de vir aqui e colocar bicho em formol. Ainda fazem isso?

— Não saberia dizer… Não pesquiso animal. [erro crasso meu, mas passou] E qual é o nome do senhor?

— Fânio. Epifânio.

— Pois não, prazer, Epifânio. [oferecendo a minha mão]

— A senhora falou sua graça agorinha. Me esqueci.

— Manuela.

— Sim, senhora Manuela, eu queria te perguntar, a senhora não é daqui né?

— Não, sou não.

— Eu sou daqui. Mas chegou uma hora que tive que pedir baixa do exército. Servi na época da guerrilha, na serra das Andorinhas. Depois voltei pra mais perto. Tinha pouso de avião em Ponta Negra… Mas eu estou cansado disso tudo. [passa a mão nos olhos] E eu gostava da vida lá. Não era ruim.

— É mesmo?

— É… Mas eu vou te falar. A gente tem que saber quando dizer para parar. Porque aqui, acaba que estou mais na sobrevivência mesmo, mas estou tranquilo.

— Sei que não é tudo na vida o que a gente quer, mas só esse por do sol…

— Já foi mais bonito. Se tirarmos uma foto por detrás do platô, outra coisa.

— Imagino [realmente tentando imaginar em minha mente, como seria]

*Silêncio dos dois por alguns minutos

— Mas a senhora está só de passagem, né?

— [Olhos nas crianças, platô, céu] E quem nessa vida não está?

— Ah sim. Mas pelo menos tire uma foto.

 Caros leitores,

Uma pequena incursão de um dia feliz da minha vida que passei na serra do Tepequem em Amajari Roraima.

Seu Epifânio me confirmou a inevitável necessidade de, por vezes, pedirmos baixa na vida. Isso por razões maiores do que a nossa vã filosofia ou mesmo emoção. E assim, entre a vida universitária de prazos e compromissos para ontem, uma saudade tremenda da minha terra natal e um coração descompassado, eu me despeço desse espaço.

 Não sem antes expressar minha gratidão. E sigam o conselho do seu Epifânio. Segue a foto.

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