Campos dos Goytacazes,  14/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Ocinei Trindade — Um dia qualquer, mas único

 

 

 

Apesar da aparência e das repetições rotineiras, os dias não são mesmo iguais. Nunca. O tédio, de repente, pode ser. Fechado no apartamento cedido, o desânimo tomando conta, eis que vem  a ideia de caminhar para espantar a falta de espantos. Vejamos se há algo inusitado na rua. A praça e o parque do Jardim São Benedito, valei-me, quem sabe, trarão alguma inspiração para ludibriar o tédio e, quem sabe, fazer rir. Sim, dia sem risada é desperdício completo.

Caminho. Nas primeiras passadas, flores do ipê rosa se espalham sobre a calçada. A árvore vai se despindo totalmente. À esquerda, do outro lado da rua, a fila dos sem-comida começa a se formar em frente ao mosteiro das freiras enclausuradas. Como elas conseguem dar conta de cozinhar para tanta gente? E será mesmo que as pessoas ali não têm condições de se sustentar? E se um dia eu entrar na fila de famintos, desempregados e excluídos brasileiros? Sou mais um.

As calçadas estão com poucas pessoas que se exercitam ou cumprem tarefas pela rua. Atravesso sobre a faixa de pedestre, insisto para que motoristas freiem. Eles fazem cara feia. Se eu for atropelado, farei cara pior. Na primeira volta, vigilantes e lavadores de carros estão parados esperando vítimas ou fregueses. Dentro do parque, alguns praticam exercícios e jogam vôlei nas quadras de areia. Em plena manhã, e tantos homens desocupados, penso. Sou igual.

Se bem que, cuidar do corpo e da mente é também uma ocupação, exige esforço e dá trabalho. Nossa, como penso demais sem necessidade. Hoje, só ouvi minha voz quando cumprimentei o porteiro. Bom dia, guarda a chave para mim? Já estou na quinta volta pelas praças. Reencontro uma conhecida da época da faculdade, amiga de amigas minha. Como muitos campistas,  percebo, logo, que ela fingirá não me conhecer para não me cumprimentar. Passou de cara dura.

Na volta seguinte, eu a encaro indo bem em sua direção e sorrio para ela. Ela ri também, mecânica, salva pelos fones de ouvido. O que estaria escutando? Sertanejo feminino? Implico com músicas de grande sucesso. Parece uma epidemia. Mas tem coisas boas que grudam no ouvido. Ruins também, como funks proibidões. São sujos, mas o pior lado de nós se diverte com orgia de batida pobre eletrônica. Que mal há em ser pobre? Não ser rico. Será que a Gretchen é rica? Como posso indagar isso? Perto de mim qualquer um é rico ou bem pobre.

A cada nova volta em torno do parque, fico me questionando: onde estão as pessoas bonitas? Sempre me intriga quando alguém vai a um evento, festa ou cidade e comenta que só tem gente feia por ali. E toda vez que eu penso o mesmo, imagino que os feios também me consideram feio e fazem a mesma pergunta: onde estão os bonitos de Campos? E os de Lisboa? Nenhuma mulher bonita cruzou comigo pela rua. O único homem bonito que passou perdeu pontos na estética: exibia muitas tatuagens feito mulher rendeira cearense ou mafioso da Yakusa.

Dizem que vicia tatuar a pele. Para quê rabiscar tanto o corpo, meu senhor? Nem nasci na Polinésia. Pele lisa é uma coisa tão bonita. Comerciais de sabonetes estão entre os meus prediletos, como os das estrelas de Lux. Faz tempo que não vejo Lux na mídia. Acabou o Lux? Nossa, Ali MacGraw e Bia Seidl eram as mais lindas espumadas. Estou bem suado e merecia um banho de Lux ou qualquer outro sabonete perfumado. Vontade de sumir…na banheira.

Na volta para a casa, revejo um homem que sempre revira o lixo em frente ao edifício. Parece um desses catadores que reciclam tudo. Ele encontrou alguns quadrinhos com figuras de santos católicos. Só deu tempo de ver uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Hum, até Nossa Senhora foi parar no lixo. Ele parecia comovido com a imagem. Será que guardará? O homem não aparentava ser muito religioso, mas, talvez, fosse um ateu exemplar para muitos cristãos movidos a culpa e fanatismo. No lixo, a gente pode encontrar paz de espírito, quem sabe?

De volta ao mundo particular do apartamento, pensamentos explodem, fome e dor de cabeça se misturam. Redes sociais me mostram um pouco mais da ficção diária das pessoas. Banho, almoço, mais dor pelo corpo, sono, cama, desejos. Tudo se mistura e não sei por onde começo. Anoitece. Vou para a rua. Chove fino. Encontro uma amiga por acaso. Sou obrigado a ouvir minha voz. Sauna? Reencontro um querido casal de amigos no supermercado. Sou obrigado a ouvir minha voz novamente. Rimos um pouco. Antes, vi uma pichação em um muro da rua 13 de Maio, onde escreveram abaixo do clássico Fora Temer: bixa também pixa.  Achei super.

Fui para casa comer, ver a Geórgia (o país) pela televisão. Antes de dormir, fiquei pensando na dupla transgressão do pichador. Feriu a língua portuguesa e maculou o muro branco. Bicha também picha como qualquer pessoa? Sim, e com X. Aliás, qualquer pessoa pode ser bicha, ser bicho, ser bicheiro, ser bichado, ser bichona, ser bichérrima, ser bichíssima. Ser pessoa apenas. Deu vontade de pichar também dia desses em um muro lindo. O quê?  Sei lá. Vou pensar…

Seja homem, Fernando, ninguém é Pessoa à toa, mas bixa também pixa.

 

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