Opiniões

Fernando Leite — A nova religião

 

 

 

Definitivamente, o homem guarda, intrinsicamente, compulsão pelo caos. Só isso explica tanto avanço tecnológico e, na mesma dimensão, tanta loucura coletiva. É a ciência ao serviço do gradual armagedon.

O mundo se desenvolveu e se mediocrizou velozmente no alvorecer do século 21. O reflexo está na arte, na filosofia, no comportamento humano, na política. E não é de graça.

“Não há nada de novo sob o sol”. A não ser a constatação: o humanismo morreu!

A partir da revolução industrial, nos séculos 18 e 19, foi criado o proletariado, avançaram os aparatos tecnológicos, o homem, de uma forma geral, conquistou maior qualidade de vida, embora não tenha vencido o signo de se repetir, interminavelmente.

Nas ciências, os grandes feitos de Copérnico e Galileu são maiores mesmo do que a exploração a Marte e a diuturna missão de perscrutar o Universo curvo de Einstein.

Os grandes filósofos, que antecederam a Cristo, sobretudo, Sócrates, Platão, Aristóteles, criaram a base do pensamento universal. Depois vieram os argonautas que avançaram nas descobertas do Mundo Novo, cientistas e pensadores, mormente os dos séculos 18 e 19: Kant, Nitzsche, Voltaire iluminaram o inconsciente coletivo. Suas teses formularam conceitos e determinaram mudanças sociais; as descobertas científicas de Darwin e Einstein são seculares e continuam intocadas, basilares para as pesquisas contemporâneas; as análises críticas de Marx, Lenin e Hegel edificaram territórios, ensejaram leis e regimes, experimentaram o triunfo e a ruína, edificaram e demoliram muros. E, hoje, são referências para debates estéreis.

As grandes revoluções, o Iluminismo, as utopias de sociedades solidárias cumpriram seu papel, na madrugada do século 20. Como a alavanca de Arquimedes, moveram o mundo, mas não seguiram seu curso, nem determinaram um ritmo crescente.

Hoje, depois de tantos avanços e recuos experimentais, o mundo exaurido, saqueado em suas reservas naturais pela ganância, se divide entre ricos e pobres. Do comunismo, socialismo, liberalismo, capitalismo selvagem ou democrático\humanista(?) restaram os surrados bordões, as mortalhas, os escombros, a memória histórica e nada mais.

Vivemos, passivamente, entre extremos que se completam, um é resultado do outro. No mesmo tempo, em que as distâncias morreram, a comunicação foi pulverizada, há a desumanidade consentida nas disformes periferias, como em Porto Príncipe, capital do Haiti, a maior concentração de miséria, dor e sofrimento e no outro gume da faca afiada, Dubai, centro do mais próspero Emirado Árabe. O fausto e a tragédia, o luxo e a miséria, convivendo passivamente, diante de Deus e dos homens.

O sonho do homem novo, solidário, educado, pensante, evoluído cedeu lugar à inteligência artificial. Classes trabalhadoras foram dispensadas de tarefas que já não existem mais. Em seus lugares, operam a robótica, a informática, enquanto o que lhes resta é a periferia dos pobres, os guetos do século 21. Irrompe dos conglomerados do capitalismo pragmático a nova “mão de obra”, no cenário da falência absoluta da sociedade impotente e medrosa. E xenófoba! E excludente! E egoísta! E decrépita! Decadence avec elegance!

Nas artes, a produção média é fubá. E não seria diferente neste cenário, já que é pela arte que o homem fala.

“E ela bate ca bunda no chão”.

Vicejam, em grande maioria, nas principais vitrines do mercado, obras toscas, escatológicas, produtos da indústria cultural consumidos em escala exponencial. A música descartável, mercadológica, subiu dos infernos. As artes plásticas perderam Frida Khalo e Picasso, luminares contemporâneos, herdeiros dos grandes gênios. Os pincéis repousam sobre a mesa, inutilmente.

O primeiro romance moderno, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, já beira meio milênio e nada há que lhe chegue perto.

A frase poderia ser do alemão Artur Schopenhauer, diante do acervo planetário: o homem anda para trás. E corrobora o pessimismo do cientista, o best seller que faz uma resenha impecável do tempo presente, do autor Yuval Noah Harari,  israelense, que acaba de lançar o livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”. Segundo ele, “hoje, no Mundo morre mais gente por suicídio do que por homicídio; por doenças decorrentes da obesidade do que de fome. O açúcar se transformou em arma mais letal do que a pólvora”. É a interminável repetição dos desígnios do deus vingador e da voracidade humana.

As vítimas de hoje são descendentes das do passado e sucumbem de causas avessas.

Está decretado o fim do humanismo e instaurada a nova religião, fundamentada sobre a tese do desenvolvimento econômico, que tudo explica. As catedrais serão os portais de entrada do Paraiso. Fiscal.

 

Este post tem 3 comentários

  1. Texto obrigatório para refletirmos a inércia. Irrepreensível e intocável essa argumentação. Parabéns !

  2. Ocinei, vc tem a generosidade própria dos formuladores, dos intelectuais que, ao invés de dourar o próprio umbigo, contribuem com sua inteligência para o bem coletivo. Abraço fraterno!

  3. Texto lindo e profundo, mas um tanto pessimista demais para um mundo que está começando a sair das sombras.
    O capitalismo desenfreado, que é a causa de quase todos os males que disse, está dando lugar ao pós-capitalismo, e isso nós vemos nas próprias telas dos celulares: grupos de carona, de compartilhamento de livros e jornais, acesso gratuito à informação, etc.
    Quanto a robótica e mecatrônica, elas não vieram para levar os pobres para a periferia (onde eles já vivem, e viviam mais antes do desenvolvimento), pelo contrário, nunca antes conseguimos trazer tanta informação e conhecimento aos pobres para que eles pudessem sair dessa situação, numa futura igualdade de oportunidades. O trabalho obsoleto, que nem eu nem você queremos fazer, e que antes era feito pelos mais pobres, agora deixamos com as máquinas, e eles podem ter um vislumbre de mudança social.
    Quanto às descobertas científicas, creio que nunca fizemos tanto, estamos a porta de descobrir os maiores mistérios do Universo, acredita-se que a singularity aconteça até 2015, e um contato ou descoberta de vida fora da Terra nesse século. A medicina prolonga a vida, e por aí vai. Fizemos muito mais do que nossos antecessores (graças aos seus altos ombros, como disse Newton).
    Por fim, acho que a grande questão do texto é a humanidade dos homens. Sempre foi assim, mas antes muito pior. Somos tristes e vazios por natureza (em resposta aos suicídios) e sempre queremos mais do que precisamos (sobre a obesidade).
    Mas acho que ainda estamos no amanhecer de um novo tempo.

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