Opiniões

Carol Poesia — Meu Deus, envelheci!

 

 

 

Amenidades arenosas e talvez desconsideráveis sobre o tempo:

 

Foi sem querer, em uma viagem ao Chile… Envelheci.

Férias, intenção de diversão, esfriar a cabeça e… Não consegui. Só pensava no meu cachorro, na minha casa, no meu trabalho, nos meus. Quando antes fui assim? Nunca. Seriam as companhias? Não, amigos de sempre. Sim, viajara com meu amigo de sempre, juntos desde o primeiro período da faculdade, há treze anos. Treze anos já…

— Wendel, quando foi que envelhecemos? Eu não percebi.

Não fomos a nenhuma balada. Não viramos a noite. Não enchemos a cara.

— Wendel?

Wendel estava ocupado, brigando com seu marido, divertidíssimo (o marido), diga-se de passagem. Vitor. Vitor não envelheceu, eu acho, embora tenha dois filhos.

— Wendel?

Wendel estava ocupado fazendo contas. É complicado converter real em peso toda hora.

— Quando foi que envelheci?

Na faculdade, viajávamos a congressos. Escrevíamos projetos, que eram aceitos, então éramos mandados pra tudo quanto é lugar. Não fazíamos conta. Era tudo “por conta”. Menos o chope. Mas dane-se, fazíamos de conta que dava e no final tinha que dar. Pegamos um taxi, ao sair do El Mago, uma boite a duas quadras da hospedagem, porque não conseguíamos andar. Sete dias em Curitiba. Encontro Nacional dos Estudantes. Muitos sotaques por lá! Uma maravilha. Um deleite. O tempo não era suficiente, se pudéssemos não dormíamos. Na verdade, não dormíamos. Ríamos de uma menina que ficava “fazendo carão” no espelho do banheiro, inundado. Os banheiros dos colégios onde ficávamos nunca tinham ralos suficientes. Era muito cabelo. Não ligávamos. Se alguém oferecesse um hotel cinco estrelas grátis, não iríamos! Não queríamos!

Num desses encontros de universidades, fiz aniversário. Eles juntaram um monte de revistas pornô e embalaram. Achei que era um livro, abri e vi a sacanagem. Literalmente! Foi muita risada. As revistas se espalharam por todas as alas — norte, sul, leste, oeste, cada canto do país contemplou o meu presente, no alojamento do congresso.

Quando acabava o encontro, voltávamos chorando (literalmente) pra casa. E muitos (!) mudavam de ônibus (caravana da faculdade) e aproveitavam pra conhecer outro canto brasileiro, de graça.

Ninguém tinha dinheiro.

Wendel era considerado riquinho porque tinha um notebook.

Não tínhamos internet em casa, ficávamos na fila do LCC (laboratório de informática) para olharmos o Orkut. Estava começando, no Brasil, a rede social.

Visitei Wendel quando ele morou em Portugal, fizemos um tour em todos os bares do Porto e pegamos o avião de volta pro Brasil às pressas, sem banho, a mala mal feita, difícil de fechar. Vamos lá! Não tínhamos tempo. Tínhamos tempo e ele não era suficiente. Nunca era.

— Wendel, eu te amo tanto.

Visitei Wendel quando ele morou em Vitória. Trabalhava em um hotel lá. Mas por que estou contando isso? Deixa essa história pra lá. Fomos jovens dessa vez também, como era de se esperar.

Na Universidade, eu fazia os saraus. Wendel, empreendedor, vendia copos de vinho. Depois inventou de vender beijos, era mais lucrativo. Eu falava poesia na madrugada fria de Ouro Preto. E bebia vinho de graça, é claro. Foram muitas sinusites! Azitromicina, amoxicilina, propionato de fluticasona… Sobrevivi.

Até a alergia passou com o tempo. É um dos poucos benefícios da idade. Sabe aquela história que tudo muda depois dos trinta? É a mais pura verdade.

— Wendel, quando foi que envelheci?

 

 

Idade 

 

Mente o tempo:

a idade que tenho

só se mede por infinitos.

 

Pois eu não vivo por extenso.

 

Apenas fui a Vida

em relampejo do incenso.

 

Quando me acendi

foi nas abreviaturas do imenso.

 

(Mia Couto)

 

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