Opiniões

Igor Franco — Visões do Homem e da Tragédia

 

 

 

Charlottesville, 12 de Agosto de 2017. Manifestantes neonazistas e outros supremacistas raciais tomam as ruas da cidade americana em defesa de ideais aparentemente enterrados. Um atropelamento em massa vitima uma manifestante “Antifa”, o grupo contrário. Nos dias seguintes, os autoproclamados “antifascistas” espancam supremacistas, destroem monumentos históricos e entram em confronto com a polícia. Começa-se um debate desviado a respeito da liberdade de pensamento e de expressão – marcos históricos no desenvolvimento ocidental.

Barcelona, 17 de Agosto de 2017. Em mais um ataque do terror islâmico, um jihadista atropela mais de uma centena de pessoas durante longos 600 metros. Até hoje, há 16 vítimas fatais. O plano inicial de explodir bombas na cidade falhou e o atentado foi uma solução imediata para causar o máximo de dano possível.

É difícil imaginar como pessoas normais seriam capazes de executar tal atrocidade sem qualquer arrependimento ou remorso. Coisa de psicopata, sociopata ou qualquer denominação clínica para malucos dessa natureza.

Ainda em 2017, somos surpreendidos por fenômenos sociais e políticos que nos fazem questionar se há, de fato, algum tipo de evolução no homem que seja capaz de despertar a esperança em um futuro promissor. A angustiante questão acompanha o desenvolvimento do pensamento político há alguns séculos. Neste campo, dois campos opostos de pensamento disputam uma ferrenha batalha pela definição do caráter do homem de seu destino. Suas expressões estão mais em evidência que nunca.

De um lado, os que se filiam majoritariamente ao que hoje se chama de campo progressista entendem que a natureza do ser humano é naturalmente boa e tendente ao bem comum. Dessa forma, como exemplifica o filósofo Thomas Sowell, tais pessoas buscam explicações para o crime, a violência, a guerra, a pobreza e todos os outros males que afligem o homem e a sociedade. Partem da concepção de que o homem é corrompido por algum mal imposto por outros homens e pelos arranjos sociais existentes. O terrorismo, nesse campo, é comumente identificado como uma reação extrema a agressões cometidas pelas potências ocidentais imperialistas. Expressões de ódio como o nazismo refletiriam uma defesa do status quo erguido através de dominação racial e a sua oposição também seria uma reação dos outrora dominados. Partidários dessa visão confiam num futuro livre de vícios humanos conforme a sociedade promova o expurgo de ideias e instituições nefastas que impeçam a sobreposição do status quo ou que contribuam para a sua manutenção. No extremo desse espectro político encontram-se os revolucionários, aqueles que, acreditando em tudo que os progressistas também acreditam, preferem meios violentos e súbitos para erigir a sociedade livre de males.

Numa clara oposição, há do outro lado do campo indivíduo que discordam da natureza naturalmente boa do homem. Para os conservadores, ainda com Sowell, há a concepção de que os vícios morais são inerentes ao homem e nossa história parte de um mundo em que guerras, fome, pobreza e violência eram comuns para um novo-normal que permite paz, abundância e desenvolvimento para algumas nações através de poucos arranjos sociais oriundos mais de experiências empíricas que da construção de algum tipo de sociedade imaginado por um ou poucos indivíduos. O terrorismo e os movimentos autoritários são expressões dos nossos defeitos, um alerta sobre o que nos precedeu e definiu por tanto tempo. O máximo que podemos fazer é aplicar um corretivo específico, na certeza que ameaças novas surgirão. Através desta visão, não é possível esperar um futuro redentor e livre de tragédias: a qualquer momento, a depender do contexto social, a sociedade poderá degenerar rapidamente e retroceder à barbárie. A melhor ferramenta que dispomos para a continuidade do recente ciclo virtuoso de é a prudência: a preferência por soluções testadas com sucesso em outras épocas. Assim como o progressismo, o conservadorismo possui seu extremo, identificado pelo reacionarismo, que é a fobia a qualquer tipo de transformação e a utilização da violência para garantir a inamovibilidade.

Campos, 19 de Agosto de 2017. Ainda demorará certo tempo para a planície esquecer da tragédia. Confirmando-se a principal linha de investigação da polícia, que afirma não ter dúvidas sobre a autoria, estaremos diante de uma trama digna de um roteiro rodrigueano. A frieza e a crueldade necessárias para pôr em prática um crime dessa natureza parecem negar qualquer traço de humanidade a este indivíduo. Parece não haver dúvida sobre a visão que corretamente define os seres que hoje dominam estas terras.

 

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