Opiniões

Ocinei Trindade — A inveja, o crime imperfeito, o beijo gay e o naufrágio

 

 

 

Certa vez, ouvi do maestro Tom Jobim em um programa de televisão a seguinte opinião: “brasileiro perdoa tudo, menos a felicidade do outro”. Sentir inveja, obviamente, não é privilégio de quem, feliz ou infelizmente, nasceu no Brasil. A literatura universal registra diversas narrativas acerca do ciúme e da inveja, além dos danos e tragédias causados por esse tipo de sentimento que parece se destacar entre os seres humanos. E quando a inveja leva alguém a matar? Trata-se de algo desumano?

Alguns consideram a realidade infinitamente superior e mais chocante do que qualquer ficção. A vida, com todos os seus dramas e violências, não cabe completamente em livros, filmes ou telenovelas, mas a gente tenta reproduzir nesses veículos um pouco do que acontece na “vida real”. Na última semana, na cidade de Campos, repercutiu a morte da jovem Ana Paula, em consequência de um crime encomendado pela cunhada Luana, acusada de contratar pistoleiros para acabar com a vida da jovem, segundo investigações da polícia civil. E conseguiram. No mínimo, pessoas doentes emocionalmente, psicopatas sem diagnóstico. Chamou-me a atenção o suposto motivo do crime, que vai além da traição ou do adultério: a inveja.

Alguns diferem o ciúme da inveja. O ciúme se sente daquilo que alguém “possui”; a inveja, daquilo que não se “possui”, mas cobiça-se. A “posse” de alguma coisa ou de alguém, mesmo que seja para descartá-los depois, é palavra de ordem neste material world. Ter é poder (?). E para exercer poder, é preciso ter. Em uma sociedade que consome cada vez mais (e é preciso estar bem nas fotos para postar nas redes sociais), com ou sem crise econômica, o supérfluo ocupa bastante espaço, embora o vazio, para boa parte das pessoas, esteja muito longe de ser preenchido. A insatisfação patológica nos tem afetado como se fosse uma epidemia, um vírus sem controle. Algo tão nocivo que faz matar de modo mais banal ou mais cruel, dependendo do gosto do freguês capaz de pagar por algum crime, ou ainda, cometê-lo.

O Código Penal Brasileiro pode não ser o mais justo e o mais moderno do mundo, mas punições não faltam para todos aqueles que cometem qualquer tipo de delito, infração ou crime. Todavia, muitos legalistas, moralistas e puritanos, ao exigirem justiça, podem não conseguir disfarçar a hipocrisia e as “falsas verdades” não convincentes. Sentir ciúme ou inveja até pode ser considerado um “pecado”, uma falha moral ou de caráter, mas não seria exatamente um crime. Entretanto, quando se adoece por ciúme ou por inveja, por incrível que pareça, há alguém disposto a matar um adversário, oponente, concorrente, e, até mesmo, a amiga de infância ou a cunhada invejável, invejada ou invejosa. Simples assim. Se incomoda, mata.

Incomodar-se com a beleza ou a felicidade de alguém não é só coisa de brasileiro, mas pessoas medíocres, imbecis, adoecidas e perigosas nunca faltaram no convívio social. Tem sido comum, há tempos, alimentar a indústria da fofoca (é jornalismo isso?) que se ocupa da vida de artistas e celebridades. Nestes dias, alguém postou fotos do ator Reynaldo Gianecchini em que ele estaria beijando um outro homem, evidenciando assim, um relacionamento homossexual. E daí? A notícia repercutiu na imprensa e os tribunais das mídias sociais entraram em ação novamente para condenar gays, ou desmerecer o ator por não se assumir gay publicamente. E daí se ele se assume ou não se assume gay? Alguns ativistas e os maledicentes de plantão não colaboram muito para a evolução humana. Ao contrário. Ao consumirmos notícias desse tipo, ao fim do dia, o que ganhamos com isso? Ser Gianecchini impunemente não deve ser fácil.

Não entendo o que faz alguém se preocupar com a orientação sexual de uma pessoa, se ela é virgem, se pratica sexo desse ou daquele jeito, ou se não pratica sexo. A inveja também passa e passeia pelo corpo alheio. Reivindicamos liberdade, mas o corpo e a vida dos outros nos ofendem quando outras pessoas são mais livres, mais libertárias ou mais felizes que nós. Morrer de inveja pode ser muito perigoso. E se somos oprimidos por dogmas, normas, falsos moralismos ou convenções, a inveja pode aflorar de modo ainda mais incontrolável, me arrisco  dizer. Se o homicídio torpe arquitetado por uma jovem bonita, ou se o beijo na boca entre pessoas do mesmo sexo chocam mais do que 100 policiais mortos no Rio de Janeiro em menos de um ano? Talvez, sim. Cada um de nós tem a capacidade (ou não) de escalonar o que é escândalo e o que é irrelevante. É a tal inversão de valores. E olha que nem falei da extinção de uma reserva amazônica feita pelo presidente Michel Temer sem nenhum critério ou escrúpulo para favorecer mineradoras estrangeiras.

Fazer a travessia na vida está bem mais arriscado do que atravessar mares e rios por meios de transportes aquáticos na Bahia, Pará ou Roraima. Nos últimos dias, embarcações (ou seus condutores?) apresentaram algum tipo de irregularidade, e provocaram a morte de várias pessoas nessas regiões. Não é só a inveja que é capaz de matar, mas a irresponsabilidade desumana também. Para alguns, a vida de uma pessoa pouco ou nenhum valor possui. É como se todos nós estivéssemos rumo a um naufrágio coletivo, tragados para a mais sombria e perversa escuridão de um oceano de tristeza e desilusão. Se a inveja é capaz de matar, se a cobiça e a ganância podem destruir vidas, o que fazer para que isto não aconteça? Alguns responderiam “amar”. Porém, o que é o amor, afinal, se não houver “posse”?

Estamos todos naufragando sem valores ou respeito humano? Aos invejosos, aos farsantes, aos mentirosos, aos assassinos e aos criminosos em geral, vida longa ou morte lenta?  Se a Idade das Trevas está de volta em pleno século XXI, ainda não sei quanto tempo é necessário para um Neo Renascimento. Talvez, estejamos todos necessitando nascer de novo e recomeçar a vida outra vez, pois muita coisa não tem funcionado.  O Paraíso terrestre ou celestial deveria ser admirado e compartilhado pura e simplesmente, mas a inveja…

 

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