Opiniões

Estudante da Uenf assassinado: ângulos da mesma tragédia

 

Ninguém discute a estupidez do assassinato do estudante da Uenf Fernando Soares de Araújo, morto aos 21 anos com um tiro pelas costas, por um adolescente de 15 anos, na noite da última terça (29). Mas o mesmo fato, por mais chocante e trágico, pode ser visto por vários ângulos.

Na edição de ontem, a Folha trouxe (aqui) a crônica da jornalista e escritora Paula Vigneron sobre o episódio. Nele, foi externado o ponto de vista de quem acompanhou os bastidores da ocorrência policial, com a reação da mãe da vítima e do assassino.

Ciente do seu papel de tribuna, a Folha hoje trouxe mais uma análise do caso, pela socióloga, professora da Uenf e presidente da Aduenf, Luciane Silva. Nela, foi revelada a ótica de quem acompanha o problema da segurança pública de Campos não só na teoria, mas também no trabalho de campo acadêmico.

Abaixo, conheça as duas visões, extraídas do testemunho pontual e conjuntural. Porque sem conhecer uma ou outra, qualquer outra análise pode ser míope:

 

 

Fernando Soares Araújo, morto aos 21 anos, com um tiro pelas costas enquanto ia de bicicleta à casa da namorada, por conta de um telefone celular

 

 

Das lágrimas ao sorriso: os lados de um latrocínio

Por Paula Vigneron

 

Fernando Soares de Araújo. Vinte e um anos. Morador do Jóquei, em Campos. Na noite da última terça-feira, saiu de casa, de bicicleta, por volta das 22h, para visitar a namorada. No meio do caminho, quando seguia para a ciclovia da Avenida Arthur Bernardes, foi abordado por assaltantes. Queriam o celular. Na ação, antes de sair, um deles, de 15 anos, disparou um tiro. A bala atingiu o tórax do rapaz. Fernando morreu no Hospital Ferreira Machado (HFM).

Um policial à paisana acompanhou o crime. Tentou deter o suspeito, que atirou, também, em direção ao militar. Este disparou contra o adolescente e o atingiu. Depois, correu para capturar outro participante, de 17 anos, que conseguiu escapar e compareceu à delegacia, junto ao terceiro envolvido, na tarde de quarta-feira, após o fato ser noticiado. O executor foi socorrido e levado para o HFM.

Na manhã seguinte, horas após a morte de Fernando, com o braço esquerdo engessado e curativos nas costas, o executor chegou à delegacia para prestar depoimento. Sorria enquanto caminhava junto aos policiais. Simultaneamente, familiares e amigos de Fernando aguardavam, na porta do Instituto Médico Legal (IML), a liberação do corpo. Entre lágrimas, comentários sobre o rapaz: “um bom menino”, “menino de ouro”, “nosso menino se foi”, ditos em meio a abraços de consolo.

Na porta da unidade, rodeada por homens e mulheres, a mãe de Fernando, Ana Maria da Silva Soares, recebia afeto dos que chegavam. Seu menino era estudante e trabalhava como vendedor em uma loja de peças de motos. Prestativo com todos. Não havia nada de ruim que pudessem falar sobre ele. “Aquele ali é um anjo, que já está lá, nos braços de Nossa Senhora”, afirmou. Ela acredita que a morte tenha sido fruto de uma busca dos assaltantes por dinheiro. Ana Maria costumava alertá-lo para não reagir a assaltos. Por isso, crê que o filho tenha seguido seu conselho.

Na delegacia do Centro, após ouvirem o depoimento do adolescente suspeito, policiais civis e militares se organizaram em uma busca pela cidade, com o objetivo de encontrar os outros envolvidos. Os agentes levam o menor, que percorre o pátio, na parte de trás da unidade, enrolado em um lençol do Hospital Ferreira Machado. Tenta esconder o rosto dos flashes do fotógrafo. Ao perceber a impossibilidade, encara-o, franzindo o rosto que, outrora, estampara o sorriso despreocupado com o fato de que, naquele mesmo momento, parentes e amigos se preparavam para a despedida de um rapaz morto por suas mãos.

 

 

Em meio à consternação de familares e amigos, o universitário foi sepultado na quarta (30), no Cemitério do Caju (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Por um debate sério sobre segurança pública em Campos dos Goytacazes

Por Luciane Silva

Ao iniciar este texto, dirijo meus sentimentos aos familiares de nosso aluno, Fernando Soares Araújo, especialmente à sua mãe, Ana Maria da Silva Soares. Não é possível medir a dor de uma perda como esta. Acompanhei durante todo o dia as manifestações públicas em relação ao latrocínio cometido na Avenida 28 de Março, na noite de 29 de agosto. Lamentável o aumento das estatísticas de criminalidade ligadas ao roubo de celulares na cidade. Pesquiso segurança pública desde 1994 e creio que algumas questões muito objetivas devem ser trazidas para o debate, evitando os discursos de ódio e ao mesmo tempo evitando a imobilidade na qual nos encontramos quando o assunto é política pública de segurança. No ano passado concluímos uma pesquisa sobre ação policial em cidades do Norte Fluminense e creio que este é o momento oportuno para dividir algumas reflexões com os leitores.

O primeiro apontamento importante refere-se ao número de viaturas existentes em Campos para cobrir a extensão territorial da cidade, considerando escolas, comércio, avenidas pouco iluminadas, horários de circulação, regiões de confronto aberto. Cada um destes cenários implica em um tipo de ação com avaliação contínua dos índices de roubo, furto, emprego de violência e tipo de arma utilizada. Ou seja, o policiamento só pode obter êxito se um conhecimento topográfico do território for levado em conta no momento de decidir como dispor das formas distintas de patrulhamento. Se policiais caminhando, se viaturas, por quanto tempo, cobrindo qual perímetro, em quais horários. Para os policiais isto é óbvio, mas nem sempre quem conhece a realidade do local é quem decide sobre o que fazer. Um dos problemas da hierarquia militar pois tudo isso exige planejamento. E troca de experiências entre quem está na ponta, ou seja, na rua. Aos meus entrevistados, minha gratidão e reconhecimento. Realizei ótimas entrevistas com o ex-comandante do 8º Batalhão, Marcelo Freiman, e sua equipe. Esta avaliação das necessidades de uma cidade de mais de 400 mil habitantes é diária, exige uma atenção constante aos focos, ao aumento ou diminuição de roubos e mesmo de tentativas. Ou seja, estamos aqui, no coração do trabalho policial.

O segundo ponto de minha reflexão questiona a circulação de armas. Em pesquisas que realizei no Rio de Janeiro, observei que homens com menos de 18 anos, adolescentes, portanto, não têm acesso fácil a armas de fogo. Como toda arma tem um histórico, é fundamental saber como estão circulando, se existe um aumento na entrada destas armas na cidade, quem está vendendo e como estes indivíduos as conseguiram. Esta é uma pergunta a ser feita. Um estudo sobre armas de fogo em Campos é urgente. Além de um debate mais amplo com a população, é claro.

O terceiro ponto (e este envolve a sociedade de forma mais ampla) é o comércio de compra de celulares roubados. Em abril deste ano a Policia Militar desarticulou um esquema de venda de celulares. Foram apreendidos mais de 50 aparelhos em uma área de comércio da cidade. Ou seja, existe um mercado e existem consumidores que têm pago por objetos roubados. E aí temos uma questão bem mais complicada que condenar os assaltantes à pena de prisão. Estes roubos não são realizados para obtenção de mercadoria, mas para venda. É como em Copacabana: o assalto às senhoras com jóias e ao lado as placas de “compro ouro, Ed. Copa, número 123”. Ou seja, no mesmo bairro o circuito se completa entre roubo e recepção.

Por último, em minha avaliação, mesmo sabendo dos poucos recursos da PM dentro desta crise seletiva pela qual passa o Rio de Janeiro, seria necessária uma cabine da polícia na Avenida Artur Bernardes. Como esta via tem ganhado importância nos últimos anos, aqueles que a utilizam todos os dias percebem que, além de muito extensa e com muitas ruas transversais, ela articula áreas de comércio com terrenos ainda vazios e prédios de classe média. É uma via que deve ser iluminada e merece atenção contínua. Mas sempre é complicado tomar essas decisões, pois, diante da insuficiência de recursos, estamos falando de escolhas de zonas de policiamento. A decisão mais sensata só pode ser tomada com uso da inteligência policial quanto às áreas com maior “mancha criminal”.

Considero que independente das posições políticas de cada leitor (entre os que jogam peso na punição e os que acreditam que o problema é social), meus argumentos são válidos para irmos além dos discursos rasos. Objetivamente o aumento da população carcerária em Campos não produzirá nem de longe o aumento da segurança. O mesmo vale para qualquer outro tipo de ação punitiva. Li muitos comentários pedindo a morte dos assaltantes, bradando contra os direitos humanos, separando a sociedade em cidadão de bem e escória. Este é o discurso da impotência (que já caracteriza bem nossa experiência urbana). Compreendo que momentaneamente funcione como uma forma de gritar ao mundo o quão é absurdo que jovens matem uns aos outros por mercadorias: tênis, motos, celulares ou óculos escuros. Sim, é preciso gritar, chorar, sentir. Pois é mesmo parte de nossa ruína como civilização testemunharmos em 2017 a morte de um estudante de 21 anos por motivo tão fútil. É igualmente parte de nossa ruína (pois estamos todos implicados nisto) desejar a morte como forma de vingança ou resolução de conflitos.

Esta semana realizamos nossa oficina de extensão sobre música popular brasileira no colégio Thiers Cardoso. E vimos como os professores disputam a cada dia os alunos. Para que não abandonem a escola. Para que compreendam as possibilidades a partir do estudo.  Enquanto o Estado fecha escolas e não  investe em educação transformadora, milhares de adolescentes serão vitimados pela violência. Dos dois lados.

 

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