Campos dos Goytacazes,  22/09/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Luciane Silva — Eu estudei em escola pública! E você?

 

 

 

Escrevo este texto enquanto preparamos os equipamentos para mais uma ação de nosso projeto de extensão. Amanhã estaremos no Colégio Estadual Dr. Thiers Cardoso para a oficina Arte e Memória na escola: O Brasil através de sua música. Durante duas horas apresentamos um século de música, saindo de Adoniran e chegando a Emicida.

Bem, como alguns de vocês já sabem, minha tese expressa meu interesse sobre música e sociedade, sobre periferia e produção cultural.  Meu texto anterior sobre insurgência e greve recuperava memórias sobre atuação dos estudantes na década de 90. Na contribuição de hoje olho para o futuro que encontramos nas escolas de Campos. E neste texto quero nomear alguns dos amigos que até aqui já responderam a minha pergunta: Marcos, Márcio, Gizele, Valéria, Fernanda, Jorge, Paulo, Rodrigo, Ana, Ausberto, Daniel, Michely, Marcely, James, Ivilla, Elaine e Marcelo.

Sabe o que temos em comum? Durante toda a nossa formação ou em parte dela, passamos pela escola pública e seguimos neste processo. Temos aqui professores da UFF, da Uenf, do IFF, amigos de Porto Alegre, de São João da Barra, de São Paulo, da Maré, de Cabo Frio… ou seja, com toda as suas limitações, com todas as deficiências que por ventura muitos trazem da escola pública, ela permanece como uma referência.

Como uma experiência de vida. Quando apresentamos a bossa nova para alunos expostos às rádios, não queremos levar o bom gosto cultural. Não queremos educá-los a gostarem destas produções com um discurso de autoridade.  Nada disso.

Nossa aventura tem início nas marchas de carnaval com refrões como “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar” para apresentar aos alunos a Era Vargas. Apresentamos Zé Carioca ao som de “Aquarela do Brasil” e seguimos com o barquinho de Nara Leão e Menescal até desembarcar no baião de Gonzagão. Essa oficina já passou pelo IFF na Semana de Geogradia, por Itaperuna, sendo apresentada também na Feira de Ciências da Uenf, no início deste ano.

Ao mesmo tempo em que tenho o prazer em reviver para alguns os festivais com Chico e Milton apresentando “Cálice”, percebo a demora com que os alunos engajam-se em nossa proposta. Mas não seria simples desinteresse. Talvez o desafio em repensar a escola resida nas formas de produção de engajamento. E no momento em que as primeiras batidas pesadas de Fim de Semana no Parque ganham o espaço, uma mudança qualitativa ocorre. Finalmente eles demonstram adesão ao discurso. Este é nosso ponto de reflexão e por isto os projetos de extensão são essenciais para pesquisa.

No dia 26 de agosto, no Jockey, mais de 30 alunos ecoaram “Rap da Felicidade”, ao som de Cidinho e Doca. Não faço distinção entre “Faroeste Caboclo”, “Construção” e “Rap da Felicidade”. São letras longas, contundentes, bem construídas internamente. O que mudou no cenário musical e na escola? As rádios e seu monopólio vendem sons e as imagens são parte fundamental da socialização juvenil. Não seria mais exatamente música para ouvir, mas para ver. Pode parecer estranha a idéia, mas reféns de uma sociedade do espetáculo, termo cunhado por Guy Debord, estes alunos de escola pública nem sempre realizam as conexões entre raça, classe e produção musical.

Certamente a forma como o corpo feminino é apresentado, não possibilita que essas meninas se libertem. No início da oficina, em uma linguagem bem direta, apresentei a seguinte letra “eu te amava nos tempos da escola, mas você não de deu atenção, pedi uma chance, pedi duas, mas você me disse não, vou marcar de te ver e não ir, vou te comer e abandonar, esta é a lei do retorno e não adianta chorar”.

Visivelmente com risos nervosos, confessaram conhecer a música. Então brinquei com os garotos “muito fora de moda esse comportamento, tratem as meninas com respeito, as mulheres hoje são espertas e inteligentes, não estão mais nessa onda”. Claro que as meninas aderiram. Mas é preciso enfrentá-los, em sua agressividade natural, em seu pedido truncado por afeto e orientação. Sim, a escola pública, assim como nossas universidades, são essas usinas de criatividade, desejos e incertezas. Não devemos moer seus espíritos para jogá-los em seus bairros. Sim, eles têm interação com o tráfico. Vamos colocar isto em debate. Sim, eles já têm uma vida sexual. E a religião não colaborou para mudar os quadros de aumento das doenças sexualmente transmissíveis.

Acabo por acaso de assistir a “Capitão Fantástico”. E o ponto interessante deste filme foi a capacidade de explicar os fenômenos do mundo tal como se apresentam. Vejam que Mc Don Juan, o cantor da letra citada acima, deve ter 16 anos.  Em que momento de sua trajetória artística chegou a conceber que uma menina deve ser “comida e abandonada”?

Pois bem, vou contar a vocês que gravadoras como a Furacão 2000 testam nos bailes certas tendências que agora chegam à São Paulo. Ou seja, mesmo que Deise Tigrona quisesse cantar o amor, sua família era sustentada com o Rap da Injeção, “tá ardendo doutor”. Meus interlocutores na favela não queriam aquelas letras, apresentavam outras, até mesmo o chefe do tráfico em determinada favela proibia certas letras. Mas, vidrados na imagem, mantidos sobre excitação constante dos sentidos, nossos alunos de escola pública perdem a possibilidade de criar.

Somos tão jovens, éramos logo ali, nos anos 80, apaixonados e perplexos. Mas fosse o punk dos Titãs, ou o ska dos Paralamas, estávamos interessados em um país que não conhecíamos. Da mesma forma como ainda eram as letras de Renato Russo que embalavam nosso platonismo. Me parece que nossas experiências geracionais nos anos 80 ainda eram românticas. Pois bem, se a televisão nos deixou burros demais, a web explodiu as possibilidades, ampliou uma certa indiferença.

Simmel, um judeu alemão adorável nos fala dessa vida na cidade. De um espírito indiferente, estimulado pelo neon, acossado pelo excesso de luz, de som, de movimentos. Essa é a disputa vivida na escola pública. Sem violões e num tempo de alta velocidade, disputamos corações e mentes destroçados pelos conflitos urbanos, pela precariedade estrutural do bairro, pelo estigma policial, por uma subindústria cultural para a qual quanto mais exposição dos quadris, dos seios e dos dorsos masculinos, mais vendas.

E não se enganem, transexuais fazendo sucesso só serão permitidas por algum tempo. Pois a base que comanda o monopólio das rádios, televisões e jornais não foi alterada. Pablos ou Fernandas duram o tempo dos “likes” de estação. A luta real é contra este projeto de desmonte da escola pública e das universidades, ocupando, produzindo outros sentidos. Fazendo vídeos e músicas ao invés de consumir os hits de São Paulo com Mcs que sequer escolhem o que cantam.

Ah, e no meio disto tudo, estamos tentando fazer uma Mostra de Música em Campos, em novembro. Com total liberdade de criação.

 

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • StumbleUpon
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Yahoo! Buzz
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Add to favorites
  • PDF
  • Technorati

1 comment to Luciane Silva — Eu estudei em escola pública! E você?

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>