Campos dos Goytacazes,  20/11/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Ocinei Trindade — A ejaculação e o gozo, a gozação e o nojo

 

 

 

Impotente. Diante da ameaça e da perplexidade, algumas pessoas não conseguem reagir à mesma altura de um carrasco, bandido, criminoso, abusador ou do opressor. Estes, destemidos, não medem ações ou consequências quando querem atingir um objetivo, humilhar ou abater a vítima. O ataque cometido por “tarados exibicionistas” ou “pervertidos velados” dentro de ônibus, dentro do Congresso Nacional ou do Planalto (dentro da política em geral) ou do STF (a sigla pode ser reconfigurada), além de empresas que mantêm ligações perigosas como a J&F, por exemplo, me levam a imaginar nossa sociedade se afogando em ejaculações escandalosas ou sob excreções fétidas por um longo e tenebroso inverno. Brasil estuprado e na pior. Horror.

Muitos se chocaram com os flagrantes de homens acusados de se masturbarem dentro de transportes coletivos, e de constrangerem mulheres (e homens. alguns indefesos, também) que ainda sofrem discriminação e desconfiança de conduta quando resolvem denunciar seus abusadores, como os casos recentes que vimos na cidade de São Paulo. Já outras pessoas, talvez, possam nem ter se dado conta dos fatos graves, mas estes são mais frequentes do que se imagina. No fim dos anos 1980, uma colega de faculdade em Campos, chegou aos prantos à instituição de ensino, pois ao descer do ônibus lotado, percebeu que sua roupa estava molhada de sêmen que algum homem ejaculou nela. Pensei comigo, há pessoas capazes de coisas detestáveis e inimagináveis. Tara, distúrbio, bestialidade incontrolável? Horror.

Acredito que os homens acusados de cometerem esses atos libidinosos, no mínimo, sofram de algum transtorno, pois não conseguem controlar seus instintos ou impulsos sexuais. Talvez, semelhantemente aos dependentes químicos que não conseguem se livrar dos vícios de álcool, drogas, cigarro, tranquilizantes, os descontrolados sexuais causem, em princípio, um espanto a mais. Boa parte da sociedade (ainda) enfrenta o desconforto de falar ou de viver a sexualidade dita “normal” ou “saudável”, que dirá das “abusivas”.

Compreender maníacos em geral não é tarefa fácil, cá entre nós. Maníacos por sexo e por corrupção, também. Não sei se as pessoas se indignaram tanto ou até mais com outro fato asqueroso dos últimos dias: a enorme quantidade de dinheiro encontrada em caixas e malas em um apartamento vazio na cidade de Salvador, Bahia. Segundo a Polícia Federal, a fortuna de 51 milhões de reais pertenceria ao ex-ministro do PMDB, Geddel Vieira Lima. Suspeita-se que o dinheiro seja proveniente de propinas ou de desvios de dinheiro público. Geddel coleciona escândalos e acusações ao lado de outros políticos poderosos como o presidente Michel Temer, e os ex-presidentes Lula e Dilma. Ele já foi ministro de confiança de todos e elogiado por todos. Horror.

Houve quem desejasse estar no lugar de Geddel com tanto dinheiro vivo assim dentro de casa, sonhos de consumo, de ter dinheiro fácil. Parece cena de ficção como a da personagem Bibi interpretada pela atriz Juliana Paes na novela da TV Globo, A força do querer. Mulher de traficante, deslumbrada, ao encontrar milhões em notas de dinheiro em espécie referente ao comércio ilegal de drogas e armas, ela não resiste, e pede para ser fotografada mergulhada no dinheiro. A demonstração de status e poder da personagem foi parar nas redes sociais na ficção e fora dela.

A fortuna encontrada no apartamento da capital baiana atribuída a Geddel Vieira Lima também soa como algo ficcional, mas, infelizmente, é a pura realidade. Políticos e empresários corruptos roubam dinheiro de escolas, hospitais, universidades ou da segurança pública, como se fosse algo natural. Quem sabe, como muitos compulsivos sexuais, eles acham aceitável ejacular em público, no pescoço, no rosto ou na roupa de qualquer mulher dentro dos ônibus. A perversão por roubo de alguns homens públicos supera a da ficção televisiva. Horror.

A falta de punições justas (ou seriam leis justas?), ou a sensação de impunidade, algo comum entre os brasileiros, possivelmente, contribuem para que a corrupção e os crimes sejam praticados sem maiores dificuldades. Não são só políticos, empresários ou traficantes que representam o que há de pior na sociedade quando o assunto é corrupção ou ilegalidade. Culturalmente, o país do “jeitinho” ou do “deixa isso pra lá” acostumou-se há pelo menos 517 anos com coisas ilícitas e inconvenientes. Seja pela violência ameaçadora, seja pela indiferença ameaçadora, pessoas vivem ou sobrevivem pelo poder, pela posse de algo, custe o que custar. E roubando. Não se pode generalizar a desonestidade entre políticos e empresários, é verdade. Porém, o senso comum tem nos desanimado bastante.

Apesar de tantas denúncias, delações ou colaborações premiadas, das prisões de políticos e de empresários poderosos, como temos visto nos últimos anos com a operação Lava Jato, às vezes, tenho a sensação de que tudo não passa de encenação, de obra fictícia, uma série de televisão ou um filme como o que acabou de estrear nos cinemas, A lei é para todos, de Marcelo Antunez. Não me animei em assisti-lo, pois já bastam as notícias desestimulantes e diárias sobre os escândalos, o jogo político perverso e pervertido que somos obrigados a lidar. Protestos fazemos? Quem sabe, em uma postagem no Facebook (ou seriam nas urnas?). Horror.

Temos convivido com políticos e empresários enganadores e mentirosos que demonstram um apetite insaciável para gozar sadicamente às custas do dinheiro da população. De Eduardo Cunha a Marcelo Odebrecht, de Antônio Palocci a Joesley Batista, de Aécio Neves a Eike Batista, só para citar alguns dos mais famosos. Eles gozam da nossa cara ou na nossa cara sem a menor vergonha ou embaraço. Há um prazer sórdido para enriquecerem se apropriando do dinheiro arrecadado por meio de altos impostos e contribuições. Nessa relação, sociedade e homens de poder alimentam uma espécie de transa sadomasoquista violentíssima. A gente sofre todas as agressões e despautérios, mas pouco ou nada faz para se livrar desses maníacos bem-vestidos e endinheirados. Resquícios dos hábitos da casa grande e da senzala? Talvez. Ou ainda, pode ser reflexo da opressão dos anos de chumbo durante a ditadura militar. Estamos sendo devorados por outras ditaduras e ditadores, ultimamente, em todas as esferas de poder. Manda quem pode, obedece quem tem “juízo”. Horror.

Tentar ser otimista e esperançoso diante dos últimos acontecimentos no Brasil, exige uma dose extra de vigor e desejo. No fim dos anos 1980, o psicanalista, escritor e cineasta Roberto Freire publicou o livro Sem tesão não há solução, contendo ensaios em que analisa questões psicológicas associadas à política. Se o Brasil não é para amadores, não sei que leitura Sigmund Freud faria a nosso respeito. Gozar o prazer e a felicidade de uma vida digna não é nenhum sonho ou fantasia impossíveis. Porém, neste país, isto é privilégio de muito poucos. A gozação ou a piada que nos fazem têm sido de muito mau gosto e bastante agressivas. Estuprar e ejacular na cara da Nação me dá vergonha e nojo. Há quem não se sinta assim, infelizmente, e a prova está aí, quase todos os dias nos nossos noticiários. Impotente.

 

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