Campos dos Goytacazes,  13/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Igor Franco — Rock in Rio: Lacre Edition

 

 

 

Terminou ontem a sétima edição do Rock in Rio. Conto apenas as brasileiras, obviamente, até porque pensar em “Rock in Rio Madrid” soa tão antagônico quanto “inferno” e “céu”. Nessa Era Trans, seria ótimo podermos acordar e decidir que, a partir de então, o Rio não seria mais Rio, mas Madri. E todos os que não permitem que o Rio seja Madri deveriam, imediatamente, parar de impedir a Cidade Maravilhosa de transformar-se numa cidade maravilhosa: políticos, bandidos, malandros…

Artistas revezavam-se nos palcos do festival em favor da salvação da Amazônia, passando por pedidos de fim à corrupção e deposição do presidente. A etapa da “defesa da diversidade” teve como destaque a apresentação de Pabllo Vittar. Enquanto as editorias de todos os portais de notícias festejavam o cantor, muitos comemoravam o “choro da família tradicional brasileira” — a mesma que viu o festival nascer com Freddie Mercury, Cazuza, Elton John, George Michael e outros de maior talento.

O auge da lacração, entretanto, só seria atingido com o deprimente “abraçaço” comandado pelo Jota Quest em favor da paz no Rio. Enquanto o público do RiR se abraçava nos gramados, algum pai abraçava sua família na favela da Rocinha, como se a protegesse dos tiros. Naquele mesmo dia, quase mil homens do exército terminavam o desembarque da megaoperação hiper-improvisada para pôr fim à guerra de traficantes que sequestrava o pouco da liberdade dos moradores e adicionava mais tensão ao caldeirão de violência que transborda há décadas no Rio.

Até este momento, o balanço da operação conta com 10 presos, três mortos e quase 20 fuzis apreendidos. Pelo visto, a estratégia da gambiarra militar seguirá a filosofia cabralina das UPPs: poucas prisões e mortes ostentadas como sinônimos de sucesso. Aliás, a política de combate ao crime sem bandidos mortos ou presos é aprovada por 11 em cada 10 “especialistas em segurança pública”, incapazes de entender como a população refém dos mesmos bandidos vivos e soltos não pensa o mesmo.

O descolamento da vida real sempre foi uma marca de artistas em todo o mundo e todo o tempo. Noves fora o inebriante efeito da fama, talvez determinante para esse fenômeno seja o que na psicologia e nas finanças comportamentais chama-se viés da confirmação. Como artistas tendem a conviver com seus pares, a homogeneidade de visões de mundo prevalece sobre as dissidências. Ao verificar que suas posições são compartilhadas por seus pares e, principalmente, endossadas pelo seu público cativo, passam a tratar aquilo como uma verdade absoluta contra a qual não pode haver contestação. Esse efeito é potencializado pelas redes sociais, em que curtidas e compartilhamentos instantâneos parecem adicionar ainda mais verdade a opiniões e gestos com a profundidade de um pires.

No campo das finanças comportamentais, o risco dos vieses é a tomada em série de decisões erradas que levam para um acúmulo de risco que, mais cedo ou mais tarde, pode ter resultados devastadores. Para nossa sorte, os artistas (ainda) não estão em posição de tornar o abraçaço uma política pública­­­ — embora os intelectuais, esses sim, mais perigosos, proponham coisas tão ineficazes quanto.

Com o festival encerrado, muitos artistas espantaram-se ao perceber que a manifestação não surtira efeito nos traficantes, que ainda não haviam se rendido.

Talvez um “beijaço” pudesse ter funcionado.

 

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