Campos dos Goytacazes,  13/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Igor Franco — Mas, e a criança?

 

 

A mais recente polêmica ocorreu no Museu de Arte Moderna de SP, em que um sujeito nu era tocado por pessoas da plateia. Tudo caminhava dentro do script: uma performance sem sentido para espectadores que afetavam profundidade, devidamente bancada com dinheiro público. Eis que entrou em cena uma criança que, estimulada pela mãe, passou a tocar no corpo nu do homem. Os brasileiros não pareceram dispostos a tolerar essa nova imoralidade.

O assunto já esfriava quando surgiu Dona Regina, do alto de sua singela bravura e humilde altivez. Claramente fora do script, entrincheirada nos confins do Projaquistão — nome alternativo para a Terra do Nunca, realidade paralela onde vivem encastelados artistas e outras celebridades — uma típica avó da família tradicional brasileira discordou publicamente da narrativa uníssona que vigorava na imprensa. Após ser fuzilada por olhares arrogantes dos presentes e ter de ouvir tergiversações a respeito da liberdade, tabus e sobre o papel da arte, nossa brava heroína devolveu uma pergunta que inverteu o protagonismo e matou de raiva aqueles que foram chamados para concordar entre si: mas, e a criança?

Deslocar a discussão para um debate sobre liberdade artística é uma estratégia intencional para criar confusão. A não ser por justiceiros sociais ávidos por demonstrar apoio inabalável a qualquer erro, há pouca gente disposta a defender o que se passou — pouco importa se num museu e sob supervisão. Dias mais tarde, um menino de 13 anos, ainda analfabeto, seria encontrado na cela de um estuprador levado pelos próprios pais. Pela lógica progressista, como houve consentimento dos responsáveis, não poderíamos falar de pedofilia ou negligência.

Qualquer sociedade convive com a chaga do abuso infantil. Em muitos casos, a intenção do abuso é dissimulada através de atos progressivos, com o objetivo de não despertar a surpresa da vítima e envolve-la numa relação. Indefesa e incapaz de perceber a malícia dos atos, muitos menores caem na armadilha de relacionamento abusivos que duram por muitos anos e causam danos perenes ao desenvolvimento da personalidade. Sob qualquer perspectiva — psicológica, sociológica, pedagógica, legal — a tentativa de normalizar o contato entre uma criança e um estranho nu é, no mínimo, irresponsável e reprovável.

Calados durante mais de uma década enquanto o país era destruído em várias frentes, a classe artística tem se mostrado especialmente ativa de um ano e meio para cá. Agora capitaneados por uma ex-paladina da censura de biografias até anteontem, embarcam mais uma vez numa já fracassada expedição, supostamente em defesa da liberdade de expressão, que navega contra os anseios da maior parte da população brasileira, que jamais chancelou sua pauta. Há uma clara divisão entre os anseios de uns poucos e os do restante do país.

Empurrado contra a parede pela atuação em bloco das vozes tradicionais que o trata como um tipo de ser inferior, incapaz de alcançar as virtudes de certas medidas contrárias à sua visão de mundo, o brasileiro médio acumula um sentimento de frustração muito comum ao observado em outras regiões como EUA e Europa. Apesar de panos de fundos diferentes, a discrepância entre a percepção do homem de carne e osso e a opinião predominante nos meios tradicionais tende a transbordar das redes para encarnar em agentes públicos que compartilhem de sua visão. A emergência de Jair Bolsonaro, após os fenômenos do Brexit, Marine Le Pen, Trump e o recente resultado eleitoral alemão não são fenômenos desconectados.

Há quase dois meses, num programa televisivo, ouvi com certa desconfiança um cientista político descartar a hipótese de radicalização ideológica nas eleições de 2018. Embora nosso histórico eleitoral rejeite apostas em candidatos mais estridentes, me parece claro que a temperatura nas redes sociais, que teve súbito aquecimento em 2014 e, desde então, arde em chamas cada vez mais altas, refletirá de alguma maneira no “mundo real”.

Não tenho dúvidas que, em algum desses debates dirigidos e previsíveis, de algum modo alguém haverá de lembrar da pergunta que dividiu o campo: mas, e a criança?

 

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