Opiniões

Gustavo Alejandro Oviedo — Argentina na encruzilhada

 

Livro de leitura distribuído aos alunos do primeiro governo peronista. O dano provocado permanece até hoje

 

 

No próximo domingo a Argentina terá eleições parlamentares, onde se renovará um terço dos senadores e metade dos deputados nacionais. Apesar de parecer pouco interessante, o que está em jogo é o apoio da população à proposta renovadora do presidente Macri. Caso a sua coligação (Cambiemos) saia vencedora, há grandes chances de que aconteça um fato raro na democracia argentina: o de que um presidente não peronista, eleito democraticamente, possa terminar o seu mandato. Isto não acontece desde 1928.

Sim, você leu corretamente. Os únicos presidentes que desde 1928 conseguiram transmitir o cargo para o sucessor, cumprindo integralmente o próprio período, foram peronistas. Os outros sofreram golpes de estado ou renunciaram.  Alfonsin, em 1989, teve que antecipar a sucessão em 6 meses diante a crise hiperinflacionária.

Desde o fim da última ditadura, há 33 anos, os peronistas governaram o país 24 anos e meio. Em algumas províncias ou municípios — os mais atrasados — nunca perderam uma eleição. O peronismo é uma força politica cuja principal característica é a astúcia. Às vezes adota a roupagem do neoliberalismo (Menem), outras do esquerdismo (Kirchner), mas sempre mantendo o discurso demagógico da ‘justiça social’, além de apelar à memoria de Peron e Evita, que ainda são figurinhas que mexem com o imaginário saudosista-necrológico do argentino.  Os peronistas conseguem ficar no poder o tempo suficiente para poder usufruir as benesses de suas politicas de curtíssimo prazo, e antes de chegar o momento de pagar as consequências, saem de cena para que a conta caia nas mãos do sucessor.

Soa parecido com certo político campista? Pois a semelhança não é coincidência. O peronismo é o garotismo com esteroides.

A ultima versão do peronismo, o kirchnerista, que governou de 2003 até 2015, se aproveitou dos altos preços das commodities agrícolas, além da suspensão dos pagos da dívida externa derivada do calote (dado por outro peronista), para usufruir da mesma popularidade que o Lula e o PT tiveram no Brasil. No entanto, a fragilidade institucional da Argentina, cujo sistema de contrapesos ao poder executivo praticamente não existe, permitiu uma serie de abusos e desvarios  que mais o assemelham ao chavismo bolivariano. O melhor (ou pior) exemplo é o ‘suicidio’ do procurador Alberto Nisman, um dia antes de denunciar à presidente Cristina Kirchner por tentar promover um pacto secreto com o Irã. Mas também é necessário recordar que a melhor estratégia do kirchnerismo para combater a inflação foi intervir o Indec (o IBGE argentino) para simplesmente mentir os índices mensais. Por muito pouco — três pontos percentuais na eleição de 2015 — o país salvou-se de terminar como a Venezuela.

Apesar do que a esquerda daqui e de lá vocifera, a política implementada por Mauricio Macri desde que assumiu em dezembro de 2015 dista muito de ser ‘neoliberal’. Ocupou-se em desarmar as armadilhas populistas dos subsídios às tarifas publicas da eletricidade, do gás e dos transportes, que não apenas consumiam grandes recursos financeiros do estado beneficiando somente a área metropolitana de Buenos Aires, mas também produziam desabastecimento, cortes de energia e graves acidentes — em 2012, 52 pessoas morreram num desastre ferroviário. Macri também aumentou as aposentadorias, está incentivando a obra pública mediante licitações sem ‘comissões’ e tenta combater as máfias enquistadas nas polícias e nos sindicatos. A empresa aérea Aerolineas Argentinas não apenas não foi privatizada, mas aumentou seu faturamento e o número de passageiros que a utilizam. O Indec voltou a ser autárquico e independente.

Em junho de 2015, o então ministro kirchnerista Anibal Fernandez chegou a dizer que a Argentina tinha menos pobres do que a Alemanha. Há uns dias atrás, a ex-presidente Cristina Kirchner, que é candidata a senadora, disse que hoje 2,8 de cada 3 argentinos são pobres (93% da população). Custa acreditar que gente com tanto desprezo pela verdade e pela inteligência alheia tenha governado a Argentina — a menos que você esteja familiarizado com o peronismo. O domingo a noite saberemos se os argentinos querem voltar a se enganar, ou se finalmente  amadureceram politicamente.

 

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