Opiniões

Paula Vigneron — Ser

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Há tanto tempo, não sou feliz. Nem me lembro o gosto, o gozo, o jeito da felicidade. Sinto que, em determinadas ocasiões, passa ao meu lado. Corta árvores. Transpõe paredes. Invade casas, quartos, camas, casais. Deita-se ao lado destes. Entrelaça os amantes em seus leitos. Transita por mãos, braços, pés, rostos, sexos. Corações. Por vezes, esbarra na minha porta. “Desculpe. Era engano”, grita quando avista meus olhos.

Engano. Sempre engano.

Ainda me lembro de quando era possível senti-la plenamente. Acredito que esteve comigo na casa em que cresci. Enquanto eu corria pelo quintal. Até nas vezes em que machuquei os dedos dos pés ao chutar o chão, em tentativas de jogar futebol com meus irmãos. O sangue era a felicidade, mesmo acompanhada por lágrimas e dor. Mas era. Ah, como lamento não ter compreendido na época. Perdi tempo com sisudez. Ficava facilmente emburrada. E era feliz. Eu era.

Posso me recordar de outros bons e breves momentos em que ela, a felicidade, passeou de mãos dadas comigo por parques e praças. A cada olhar lançado àquele menino bonito que paquerei na escola. Nunca soube seu nome. Nunca contei às minhas amigas. Nunca confiei nas pessoas para me abrir desta forma tão íntima. Só de observá-lo, eu me considerava feliz. E era.

As manhãs de sol de domingo — em minha memória, todas eram ensolaradas; às vezes, deliciosas; outras, incômodas — vividas dentro e fora de casa, com comidas, doces e refrigerantes. O gosto da minha infância. À tarde, as corridas pelo quintal para saber quem seria a mulher do padre. Meus irmãos, mais velhos e fortes, sempre me ganhavam. Saíam em disparada antes do apito de mamãe. Riam enquanto me observavam chegar com esforço ao ponto final. Eu, novamente emburrada, gritava com eles. Dizia que eram os preferidos de nossa mãe.

— É injusto! — e cruzava os braços em um gesto de indignação sem fim.

— Mãe não tem filho preferido. Todos são iguais — dizia ela, rindo, com meus irmãos, de minha fúria. — Isso é amor, filha. É ser feliz.

— Não é! — eu respondia de forma malcriada. Mas era.

Com o tempo, o quintal ficou para trás. Preferíamos assistir a filmes e conversar sobre eles depois. Íamos aos bailes de carnaval organizados pela vizinhança. Brincávamos. Eu, talentosa para a dança, rodava entre meninos e meninas, sorrindo com os aplausos. No olhar de meus pais, via certo orgulho. E era feliz. Imensamente feliz com a saia branca, uniforme em festas, envolvendo meu corpo no meio do salão. Com o tempo, eles, todos eles, ficaram para trás.

Sentada em frente à porta, consigo, ainda, avistar o quintal de cimento em que costumávamos correr, brincar, rir e chorar. Deu lugar a um jardim que floresceu por tempos e era regado por mim. Sob o teto de meus pais e meus irmãos, vivo. Uma mulher estranha à criança criada entre aquelas paredes. Ela era feliz.

Hoje, sou como a grama. O que restou do jardim.

Vazio-queimado-seco-frio.

Sou.

 

09/10/17

 

Este post tem um comentário

  1. Deslumbrante, considerável, ótimo, mágico texto.

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