Opiniões

Alexandre Bastos — Cegueira nossa de cada dia

 

 

 

Em uma de suas músicas Nando Reis reflete: “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Hoje, com as redes sociais, convivemos com especialistas sobre todos os assuntos e, em alguns casos, chega a ser assustador descobrir o que algumas pessoas pensam sobre temas polêmicos. Racistas, homofóbicos e extremistas avançam e encontram seus pares. Na política, a busca insana pelo poder revela criaturas capazes de tudo. Recentemente, em Campos, um político megalomaníaco usou o assassinato de uma mulher, baleada pelas costas diante da filha menor de idade, para atacar um adversário.

Esse surto coletivo me fez revisitar “Ensaio sobre a cegueira”, livro de José Saramago. A obra começa com um homem que fica cego enquanto estava parado no semáforo. A partir de então, a cegueira contagiosa se alastra rapidamente até que as autoridades decidem isolar as pessoas “contaminadas” em um manicômio abandonado. Neste ambiente, eles devem se organizar para viver pacificamente. Mas o número vai crescendo até que começam a ocorrer disparidades e conflitos por comida. Quando conseguem sair do local, encaram uma cidade em estado de colapso, onde os instintos estão aflorados.

O livro possui diversos trechos que revelam a intenção metafórica da obra, como “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” ou quando uma moça sugere que eles sempre estiveram cegos, mas nunca perceberam. Saramago demonstra que a maldade não vem de fora, mas se trata de algo bem particular. Faz parte da nossa natureza e aflora de acordo com a forma que a alimentamos. Há um personagem que se transforma em um brutal explorador, usando seu poder de distribuir comida para fazer com que os outros cumpram sua vontade.

Trata-se de uma investigação corajosa da natureza e de sentimentos humanos como egoísmo, oportunismo e indiferença. O livro nos convida a refletir sobre o ser humano e seus instintos mais primitivos. Saramago lança perguntas do tipo: Como falar de olhos a um mundo cego? E quais são os caminhos para curar essa “cegueira” da humanidade?

Na história, muitos seres humanos já demonstraram cinismo e passividade diante de crueldades. Um exemplo foi a forma como alguns internautas comentaram, recentemente, a morte de crianças em uma creche incendiada por um vigia em Minas Gerais e agora com o menino que matou dois colegas em uma escola de Goiânia. Algo tão insuportável quanto os abutres que se aproveitaram dos episódios para ganhar acessos. Mas afinal, existe cura para a cegueira moral? O primeiro passo é “sair da ilha”, como ensinava Saramago: “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”.

 

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