Opiniões

Carol Poesia — Quem tem medo da arte?

 

“É a primeira vez que sou impedido de cantar no período democrático”

(Caetano Veloso, 30/10/17)

 

“Aqui está o povo sem medo, sem medo de lutar”

(MTST, 30/10/17)

 

 

(Foto: Google Imagens)

 

 

Caetano Veloso foi impedido de cantar em evento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), ontem, segunda-feira, em São Bernardo do Campo. Além dos manifestantes e jornalistas, estiveram presentes, no local, outros artistas, entre eles Criolo, Sônia Braga, Letícia Sabatella e Aline Moraes.

O show, que aconteceria em apoio ao movimento, foi vetado pela juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo do Campo, que alegou falta de segurança e de infraestrutura. A prefeitura da cidade solicitou apoio da Polícia Militar e tomou medidas para o cumprimento da ordem judicial.

Em meio a todos os retrocessos conservadores que temos vivido, estão as investidas contra a arte: veto à exposição de artes plásticas Queer Museu, performance artística em museu é taxada de criminosa por conter nudez, show de MPB vetado pelo Ministério Público.

Apesar de ser razoável o argumento de que o evento do MTST não oferecia condições para um show do Caetano, a recorrência de vetos e censuras à arte neste momento pós-golpe é no mínino, um sintoma.

Ano passado, não por acaso, Artes, Filosofia e Sociologia estiveram na mira do poder público, e por pouco não tiveram sua obrigatoriedade banida pelo MEC. Trata-se de disciplinas que alimentam o senso crítico, fomentam questionamentos, tiram da zona de conforto, fazem pensar.

A arte, especificamente, além de fazer pensar, incita movimentação. Imagina se os grandes artistas, como Caetano, se juntassem e se manifestassem publicamente a favor de causas que são “uma pedra no sapato” de elites? Imagina a força que movimentos como o MTST ganhariam. A adesão dos artistas incita a adesão do público. E a classe artística, por seu carisma e identificação das massas, é a única capaz de competir com o carisma dos coléricos discursos dos radicais de direita, que ganham cada vez mais adeptos, inclusive de jovens, “Bolsominions”.

Impossível não lembrar dos microfones desligados em “Cálice”… Das canções e shows e poesias e tantas obras de arte censuradas pela ditadura… Eu nasci no ano em que a ditadura acabou no país, mas meço palavras com receio das represálias, que são, em sua maior parte, sutis. Às vezes seria mais digno uma porrada, do que ficar medindo palavras, acuada pelo desemprego no país. Que tempos são esses que estamos vivendo? O que é isso? Nos está sendo tirado, sorrateiramente, por puro medo, o direito de termos alguma posição, nas artes, na cultura, nas escolas e universidades. Nos espaços no pensamento. Até que nos tornemos robôs esvaziados de motivação. Apertando parafusos nos palcos que deveriam ser da Educação.

(Que fique aqui registrado, em caixa alta, antes que não me permitam mais dizer: FORA TEMER! FORA TEMER! FORA TEMER! FORA TEMER! FORA TEMER!)

 

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