Opiniões

Polarização esquerda/direita por um dos maiores escritores brasileiros

 

Luiz Ruffato é conhecido por ser um dos maiores prosistas brasileiros da atualidade. Mineiro de Cataguases, filho de um pipoqueiro e uma lavadeira, se formou pelo Senai como torneiro mecânico, ofício que exerceu antes de se graduar em Comunicação. Trabalhou na imprensa de Minas e São Paulo até abandonar o jornalismo em 2003. Em caso raro no Brasil, passou a se dedicar integralmente à literatura.

Atualmente, Ruffato só mantém sua atuação na imprensa como articulista. Em texto publicado hoje (01), no jornal El País, o escritor analisou a corrida pela eleição presidencial de 2018. Após as pesquisas Datafolha e Ibope sobre a disputa, ele identificou uma polarização entre a corrupção à esquerda e a ameaça do autoritarismo, à direita.

Muitas da conclusões a que o escritor chegou em seu artigo de hoje, caminham juntas com análises publicadas neste “Opiniões”, e na Folha da Manhã. Mesmo na curta envergadura de um blog e um jornal de interior, é gratificante constatar que a análise política nacional se assemelha à visão de quem abandonou o jornalismo para se consolidar como um dos maiores escritores brasileiros.

Para ler ou reler as advertências publicadas neste blog, basta conferir aqui, aqui, aqui e aqui. Já para se ter acesso à visão muito parecida de Ruffato, basta conferir aqui ou na reprodução abaixo:

 

 

Palácio do Planalto (Foto de Valter Campanato – Agência Brasil)

 

 

Escritor Luiz Ruffato

O Brasil, entre a corrupção e o autoritarismo

Por Luiz Ruffato

 

A pesquisa do Ibope, divulgada no domingo, 29, confirma a tendência, já apontada pelo Datafolha, de fortalecimento da candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro, de extrema-direita. Segundo dados daquele instituto, Bolsonaro, com 13% das intenções de voto, disputaria o segundo turno com o petista Luiz Inácio Lula da Silva, que continua estacionado em 35%. A candidatura de Bolsonaro vem se alimentando das incertezas provocadas pela derrocada dos partidos tradicionais, envolvidos em escândalos de corrupção.

Condenado a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o PT sequer sabe se Lula poderá ou não ser candidato – e, pior, o partido não tem alternativa ao personalismo de seu líder. Sem Lula, seu possível substituto, Fernando Haddad, contaria, segundo o Ibope, com 1% das intenções de voto – é bom lembrar que Haddad, candidato à reeleição na Prefeitura de São Paulo em 2016, perdeu, ainda no primeiro turno, para o tucano João Dória, que teve três vezes mais votos que o petista.

Dória, aliás, que ensaiou ser uma opção para as eleições presidenciais de 2018, pelo PSDB ou qualquer outra sigla, já é carta fora do baralho. A avaliação de seu desempenho à frente da Prefeitura despencou, segundo pesquisa Datafolha, de 41% de ótimo/bom para 32%, em apenas quatro meses. Mas, o mais importante: 58% dos eleitores paulistanos disseram que preferem sua permanência à frente da Prefeitura e 55% revelaram que não apoiariam de jeito nenhum sua possível candidatura ao Palácio do Planalto.

O problema, para o PSDB, que mantém uma relação incestuosa com a corrupção deslavada do governo do presidente não eleito, Michel Temer, é que a candidatura do insípido governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que tem em seu currículo uma derrota para Lula dez anos atrás, não consegue decolar. O tucano aparece, na pesquisa Ibope, com 5% das intenções de voto num cenário com Lula candidato, percentual que praticamente não muda num cenário sem Lula, 7%.

Sem Lula, quem cresce é a candidatura da omissa Marina Silva (Rede). Se no cenário com o petista candidato, Marina obtém apenas 8% das intenções de voto, no cenário sem Lula ela dobra o percentual para 15%, empatando, nesse caso, com Jair Bolsonaro, indo os dois para a disputa do segundo turno. Duas vezes candidata à Presidência da República, em 2010, pelo PV, e em 2014, pelo PSB, em ambas terminou em terceiro lugar, com uma média de 20% do total dos votos válidos.

A menos de um ano das eleições presidenciais, essa indefinição acaba colaborando para o surgimento de candidaturas messiânicas. O primeiro balão de ensaio, o prefeito João Dória, resultou murchar muito rápido, pressionado internamente pelos tucanos alinhados com Alckmin, e externamente pela opinião pública paulistana, insatisfeita com seu prefeito viajante. Agora, a aposta é na força do nome do apresentador da Rede Globo, Luciano Huck.

Huck, que oficialmente nem pré-candidato é, mas que não esconde sua pretensão de “participar deste processo de renovação política no Brasil”, como escreveu em artigo na Folha de S. Paulo do dia 18 de outubro, aparece, na pesquisa Ibope, com 5% das intenções de voto, mesmo percentual de Geraldo Alckmin, e mais que os 3% dados a Ciro Gomes (PDT). Já num cenário sem Lula, Huck surge em terceiro lugar com 8%, logo após Bolsonaro e Marina, com 15%, e acima de Alckmin e Ciro, com 7%.

Assim, pouco a pouco, o pensamento reacionário vai ocupando mais e mais espaço no ambiente político. Na votação que livrou Temer da segunda denúncia da Procuradoria Geral da República, por obstrução da justiça e organização criminosa, ocorrida no dia 25, o deputado Cabo Daciolo, filiado a um partido chamado Avante, pediu literalmente intervenção militar no país! Cabo Daciolo, bombeiro e evangélico, pré-candidato ao governo do estado do Rio, foi eleito com quase 50 mil votos … pelo PSOL! Num ambiente confuso e polarizado como o atual, a candidatura de Bolsonaro deveria preocupar mais as forças pensantes deste país.

 

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