Opiniões

Vanessa Henriques — “Não posso ser perseguido como criminoso”

 

 

 

Nos últimos tempos, o campo das artes esteve no centro de intensos debates na esfera pública brasileira. Infelizmente, não foi uma onda de discussões sobre história da arte, artistas historicamente consagrados ou sobre a implementação de políticas públicas para estimular o 1desenvolvimento de habilidades artísticas nas crianças e nos jovens; indo na direção oposta e, portanto, retrocedendo, começamos a discutir sobre o cancelamento de exposições, sobre o suposto caráter inútil e oneroso das obras de arte e sobre a afronta artística à moral e aos bons costumes.

A discussão sobre o que é a boa ou a má produção artística é costumeiramente tomada de controvérsias. Nesse debate, já tornou-se lugar comum criticar expressões artísticas das classes populares, tal como o funk, o hip hop e o grafite ou produtos da industrial cultural de massa, como a telenovela brasileira. Mas a novidade é que agora o alvo central das críticas conservadoras sejam os museus, bastiões da chamada “alta cultura”.

O curador da famigerada exposição “Queermuseu”, Gaudêncio Fidélis, e o coreógrafo Wagner Shwartz, que protagonizou a performance que ocorreu no MAM, acusada de promover a pedofilia, foram intimados a depor na CPI dos Maus Tratos a Crianças e Adolescentes do Senado Federal, através de condução coercitiva, mesmo que não tenham se negado a comparecer à comissão. Tal fato gerou inúmeros protestos e abaixo assinados de pessoas que se opõem aos arbítrios da CPI e à decisão do Ministro do Supremo Alexandre de Moraes de não atender à solicitação da defesa de Fidélis de suspender a despropositada condução coercitiva.

“Não posso ser perseguido como criminoso”, afirmou o curador da Queermuseu ao depor na última quinta-feira na CPI, depois de, finalmente, conseguir reverter o pedido de condução coercitiva. Fidélis demonstrou ainda indignação com sua intimação, alegando que a exposição que organizou não tem qualquer relação com o objeto de investigação da CPI, qual seja, os maus tratos a crianças e adolescentes. Ao assistir à sessão, é possível observar que muitas das indagações dos senadores baseavam-se em notícias falsas que circularam na internet sobre a exposição, dentre elas a que afirmava que uma das obras de arte estimulava que crianças se tocassem e “transitassem entre gêneros”.

Presidida pelo cantor gospel Magno Malta, que também era autor do Projeto de Lei que tramitava pelo Senado até a última semana propondo incluir nas bases da educação nacional o “Programa Escola Sem Partido”, a CPI dos maus tratos inicialmente debatia temas como cyberbullying e o jogo “Baleia Azul”, que induzia adolescentes ao suicídio. Agora, legitimando a pressão conservadora capitaneada pelo Movimento Brasil Livre que enxergou pedofilia numa performance que continha nudez, mas nudez destituída de caráter erótico ou sexual, o senador Malta e seus aliados aproveitam a deixa para abocanhar o eleitorado que mobilizou-se massivamente nas redes sociais contra a performance do MAM e a exposição do Santander Cultural, mas, curiosamente, não estende a preocupação a tantos outros temas, estes sim gravíssimos, que pululam cotidianamente nos noticiários.

Os “garotos” do MBL, que mais parecem “velhos beatos com tochas na mão” (tomando emprestada a deliciosa adjetivação dada por Gabriel Barcelos), não concederam muita atenção à exposição do MASP, “Histórias da Sexualidade”, que inaugurou justamente num momento em que a poeira ainda estava alta e que talvez por isso tenha sido cercada de excessivos cuidados e classificada como imprópria para menores de 18 anos, mesmo que acompanhados dos pais ou responsáveis. Muitos indivíduos da classe artística criticaram a decisão da curadoria da exposição, acusada de ceder à irracionalidade da sanha punitiva conservadora.

A exposição do MASP, que contém obras de nomes ilustres como Francis Bacon, Edgar Degas, Édouard Manet, Pablo Picasso e Paul Gauguin, foi classificada como “nem fede, nem cheira” pelos integrantes do MBL que, com isso, explicitaram a sua noção de que a arte consagrada tem pouco valor, sendo tema interessante apenas quando pode acender debates sobre supostas depravações morais e, é claro, gerar capital político.

 

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