Opiniões

Vanessa Henriques — “Não posso ser perseguido como criminoso”

 

 

 

Nos últimos tempos, o campo das artes esteve no centro de intensos debates na esfera pública brasileira. Infelizmente, não foi uma onda de discussões sobre história da arte, artistas historicamente consagrados ou sobre a implementação de políticas públicas para estimular o 1desenvolvimento de habilidades artísticas nas crianças e nos jovens; indo na direção oposta e, portanto, retrocedendo, começamos a discutir sobre o cancelamento de exposições, sobre o suposto caráter inútil e oneroso das obras de arte e sobre a afronta artística à moral e aos bons costumes.

A discussão sobre o que é a boa ou a má produção artística é costumeiramente tomada de controvérsias. Nesse debate, já tornou-se lugar comum criticar expressões artísticas das classes populares, tal como o funk, o hip hop e o grafite ou produtos da industrial cultural de massa, como a telenovela brasileira. Mas a novidade é que agora o alvo central das críticas conservadoras sejam os museus, bastiões da chamada “alta cultura”.

O curador da famigerada exposição “Queermuseu”, Gaudêncio Fidélis, e o coreógrafo Wagner Shwartz, que protagonizou a performance que ocorreu no MAM, acusada de promover a pedofilia, foram intimados a depor na CPI dos Maus Tratos a Crianças e Adolescentes do Senado Federal, através de condução coercitiva, mesmo que não tenham se negado a comparecer à comissão. Tal fato gerou inúmeros protestos e abaixo assinados de pessoas que se opõem aos arbítrios da CPI e à decisão do Ministro do Supremo Alexandre de Moraes de não atender à solicitação da defesa de Fidélis de suspender a despropositada condução coercitiva.

“Não posso ser perseguido como criminoso”, afirmou o curador da Queermuseu ao depor na última quinta-feira na CPI, depois de, finalmente, conseguir reverter o pedido de condução coercitiva. Fidélis demonstrou ainda indignação com sua intimação, alegando que a exposição que organizou não tem qualquer relação com o objeto de investigação da CPI, qual seja, os maus tratos a crianças e adolescentes. Ao assistir à sessão, é possível observar que muitas das indagações dos senadores baseavam-se em notícias falsas que circularam na internet sobre a exposição, dentre elas a que afirmava que uma das obras de arte estimulava que crianças se tocassem e “transitassem entre gêneros”.

Presidida pelo cantor gospel Magno Malta, que também era autor do Projeto de Lei que tramitava pelo Senado até a última semana propondo incluir nas bases da educação nacional o “Programa Escola Sem Partido”, a CPI dos maus tratos inicialmente debatia temas como cyberbullying e o jogo “Baleia Azul”, que induzia adolescentes ao suicídio. Agora, legitimando a pressão conservadora capitaneada pelo Movimento Brasil Livre que enxergou pedofilia numa performance que continha nudez, mas nudez destituída de caráter erótico ou sexual, o senador Malta e seus aliados aproveitam a deixa para abocanhar o eleitorado que mobilizou-se massivamente nas redes sociais contra a performance do MAM e a exposição do Santander Cultural, mas, curiosamente, não estende a preocupação a tantos outros temas, estes sim gravíssimos, que pululam cotidianamente nos noticiários.

Os “garotos” do MBL, que mais parecem “velhos beatos com tochas na mão” (tomando emprestada a deliciosa adjetivação dada por Gabriel Barcelos), não concederam muita atenção à exposição do MASP, “Histórias da Sexualidade”, que inaugurou justamente num momento em que a poeira ainda estava alta e que talvez por isso tenha sido cercada de excessivos cuidados e classificada como imprópria para menores de 18 anos, mesmo que acompanhados dos pais ou responsáveis. Muitos indivíduos da classe artística criticaram a decisão da curadoria da exposição, acusada de ceder à irracionalidade da sanha punitiva conservadora.

A exposição do MASP, que contém obras de nomes ilustres como Francis Bacon, Edgar Degas, Édouard Manet, Pablo Picasso e Paul Gauguin, foi classificada como “nem fede, nem cheira” pelos integrantes do MBL que, com isso, explicitaram a sua noção de que a arte consagrada tem pouco valor, sendo tema interessante apenas quando pode acender debates sobre supostas depravações morais e, é claro, gerar capital político.

 

Origem da série “Ruas do Brasil” resumida por George Gomes Coutinho

 

Entre os dias 9 e 10 de outubro, em comentários (aqui) de uma postagem no Facebook, desenvolvi um debate com o historiador Aristides Soffiati e o sociólogo José Luis Vianna da Cruz — ambos amigos de longa data e entre os intelectuais que mais admiro em Campos. Terminei minha participação naquela discussão afirmando, como Zé Luis, não ter resposta às questões nacionais após a pesquisa Datafolha, feita em 27 e 28 de setembro, que revelou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PSC, de saída ao PEN, que mudará o nome para Patriota) liderando a corrida presidencial de 2018.

Como, por princípio pessoal, tendo a não aceitar ausência de resposta antes de esgotar suas possibilidades de busca, passei a estudar a pesquisa e suas condicionantes para produzir uma tentativa de análise. Intitulado “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”, a matéria foi publicada em 22 de outubro, neste blog e na Folha da Manhã.

Por entender o crescimento de Bolsonaro também pela eficiente ação da chamada “nova direita” nas redes sociais, diante do silêncio das ruas brasileiras que definiram o impeachment de Dilma Rousseff (PT), fiz destas mesmas ruas o objeto dentro de um período mais longo. Se o que vivemos no país é unanimemente encarado como a mais grave crise da chamada “Nova República”, de 1985 até o hoje, qual foi dentro dela o papel exercido por essas ruas estranhamente ausentes desde que Michel Temer (PMDB) assumiu a presidência?

Primeiro, estabeleci uma estrutura de análise que tivesse como referências: 1) as “Diretas Já”, de 1984, ainda na Ditadura Militar (1964/85); 2) os “caras pintadas” que definiram o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje, PTB), em 1992; 3) os protestos isolados capitaneados pelo PT durante os dois governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de 1995 a 2002; 4) a “Primavera Árabe”, entre 2010 e 2012, influenciando diretamente o novo modus operandi que ditou, no Brasil, as “Jornadas de Junho” de 2013; e 5) os protestos de rua de 2015 e 2016 que definiram a deposição de Dilma.

Estabelecida a linha de tempo, seus pontos de referência e o objetivo, os externei ao sociólogo e cientista político Gerorge Gomes Coutinho, ao antropólogo José Colaço, à historiadora Guiomar Valdez, ao cientista político Hamilton Garcia de Lima, além de Soffiati e Zé Luis, que comungavam das mesmas inquietações iniciais. Como tencionava tratar do assunto em uma única matéria especial de domingo, pedi que cada um me enviasse sua análise sobre o complexo assunto, dando como referência algo entre oito a 10 linhas de word.

Se nenhum deles se conteve ao tamanho passado, o texto do George foi o que mais excedeu. E, curiosamente, sem saber da gênese daquele trabalho em um despretencioso debate virtual com Zé Luis, ele usou questionamentos do seu colega sociólogo como início, meio e fim de uma interpretação profunda, polvilhada de referências teóricas, adensando sua interpretação.

Todas as análises dos seis acadêmicos foram brilhantes. Mas, confesso, foi a do George que me fez ir mais fundo no trabalho. Já que não dominava todas as referências teóricas utilizadas por ele em seu texto, tentei compensar o meu com pesquisa. Naquilo que Cazuza (1958/90) chamava de “inveja criativa” em relação a Renato Russo (1960/96), foi uma tentativa talvez vã de estar à altura, sem padecer de vertigem.

Debruçado sobre o trabalho de pesquisa, a pretensão inicial de uma matéria especial sobre as manifestações de rua brasileiras, entre 1984 e 2016, acabou se transformando numa série sobre o tema. Ela foi publicada na sequência domical: “Ruas pela democracia do Brasil desde a Ditadura” (29/10), “Cabruncos nas ruas do Brasil de Itamar às Jornadas de Junho” (05/11), “Entre futebol, política e economia, ruas definem o impeachment de Dilma” (12/11) e “As ruas do Brasil no impeachment de Dilma Rousseff” (19/11).

Coincidentemente, um outro amigo, por quem tenho respeito intelectual, me parabenizou generosamente após concluir só hoje a leitura da série. Respondi que, guardadas as proporções mais que devidas, parafraseava Isaac Newton (1643/1727): “Apoie-me nos ombros de gigantes”. Não por outro motivo, agradeço pelo incentivo e sustentação generosamente ofertadas por Soffiati, Zé Luis, George, Guiomar, Zé Colaço e Hamilton. Afinal, jornalismo, como ensinava outro mestre: “é trabalho coletivo, ou nada”.

Abaixo, sem mais delongas, a íntegra da análise do George que sintetiza as demais na gênese da série:

 

Páginas de 29/10, 05/11, 12/11 e 19/11, ns quais foram publicadas a série “Ruas do Brasil” (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Tudo novo de novo? — Breves reflexões sobre a ação coletiva

Por George Gomes Coutinho (*)

 

Quando eu elaborava meu primeiro trabalho acadêmico dotado de algum fôlego, no caso minha primeira monografia na UFF/Campos no início deste século, tive a afortunada experiência de ser orientado pelo professor José Luis Vianna da Cruz, uma das rochas fundamentais da sociologia e dos estudos sobre desenvolvimento regional entre nós. Muita água correu no Paraíba do Sul desde então. O professor José Luis, daquela relação formal entre orientador e orientando de graduação, se tornou posteriormente meu amigo, colega de Departamento de Ciências Sociais e prossegue sendo um interlocutor/conselheiro. Tanto é que hoje em dia ouso chamá-lo simplesmente de “Zé” em uma demonstração singular de respeito e carinho que tenho por ele.

Voltando ao início deste século, minha monografia tinha por tema os movimentos sociais na universidade pública. O Zé, do alto de sua experiência, me apresentou uma questão logo no início de nossos trabalhos formulada de maneira simples e objetiva. Afinal, se estávamos falando de movimentos sociais, o que os move? Se a pergunta era sintética e elegante, a resposta (ou as respostas) me levou a trafegar pelas águas turvas das noites em claro. A pergunta do Zé tocava realmente no que era fundamental. Quais seriam os “móveis” da ação coletiva? Arrisco dizer que de lá pra cá parte de meus trabalhos foram tentativas de responder a essa pergunta de forma direta ou indireta e certamente parcela do conhecimento sistemático sobre a política enquanto fenômeno se estrutura nos arredores dos dilemas da ação coletiva.

Na conjuntura atabalhoada em que vivemos Aluysio Abreu Barbosa em uma conversa telefônica amistosa decidiu reencarnar a pergunta do Zé trazendo para o nosso contexto. Senti na pele que de fato as grandes questões não desaparecem. Elas se atualizam de acordo com as especificidades de cada momento histórico. Aluysio inclusive não me colocou “pouca coisa”. Ele nota, de forma correta, que os grandes movimentos coletivos brasileiros ocorridos desde o arrefecimento da ditadura civil-militar até 2015, perpassando o Fora Collor de 1992 e o junho de 2013 nas regiões metropolitanas do país, não são tudo farinha do mesmo saco. De fato não são. Todavia, vamos tentar ver o mínimo estrutural que os aproxima e o muito que diferencia estes grandes movimentos que tem a rua por cenário. Causando estranheza ao leitor, justamente o que os assemelha e os distancia envolve responder a pergunta do Zé: quais os móveis?

Teoricamente, de Karl Marx (1818-1883) a Mancur Olson (1932-1988), o que move grupos e classes que engendram ação coletiva, o “grande móvel”, é o interesse. É justamente o que aglutina e torna possível a ação coletiva e associativa dos sindicatos, movimentos sociais tradicionais, grupos de pressão, movimentos de massa, etc.. Seja a Associação Nacional de Rifles da América, o Greenpeace, O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo ou o pessoal da Tradição, Família e Propriedade. Coloquei exemplos tão discrepantes não tanto para causar desconforto ao leitor. Apenas quis demonstrar que estes grupos, a despeito do seu posicionamento no espectro político, se são de esquerda ou direita, progressistas ou conservadores, todos se agrupam em prol de algum interesse comum e compartilhado. A associação “reduz custos” que seriam simplesmente impossíveis para um indivíduo isolado e a ação coletiva visa permitir que se alcance um objetivo ou um conjunto de objetivos.

Antes de prosseguir, venho declarar minha discordância sobre a morte da política ou o que seria um processo de despolitização no Brasil contemporâneo. Eu concordo que exista um arrefecimento da política tradicional sem dúvida, algo que está na raiz da crise da democracia representativa no mundo. Não por acaso partidos, seja aqui ou na Europa, apresentam um déficit de legitimidade considerável entre seus eleitores. Porém, a política envolve tomar decisões dotadas de caráter vinculante como diria o alemão Niklas Luhmann (1927-1998). Portanto, se a morte é inevitável para tudo o que é vivo, a política é inescapável para todos(as) que vivem em sociedade. Decisões que tem impacto coletivo, seja sobre os parâmetros curriculares do Ensino Médio ou regras de tributação, são da natureza da política. Porém, há a mudança de agendas, novos temas emergentes e das formas de se fazer política, algo que retomarei adiante.

Prosseguindo, se os interesses demarcam a ação coletiva para gregos, troianos e baianos, não podemos ignorar a modulação fornecida pelos valores, visões-de-mundo, ideologias, elementos simbólicos, etc.. Neste ponto TFP e MST tem obviamente posicionamentos inconciliáveis sobre a questão agrária por exemplo. As agendas dos movimentos, a maneira pela qual os interesses se particularizam e dão robustez para a operacionalização da ação, são obviamente distintos. Contudo, temos momentos em que estes movimentos, de natureza mais particularizada, transcendem seu público de adeptos e simpatizantes atingindo a sociedade como um todo. A pauta originária de um grupo torna-se uma pauta consensual entre diversos grupos e classes. Olhemos para o movimento “Diretas Já” na longínqua década de 1980.

 

Com 1,5 milhão de pessoas, passeata e comício das “Diretas Já”, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril de 1984, foi a maior manifestação de rua do Brasil nos 31 anos seguintes, até 2015

 

Nas “Diretas” o contexto explica. Se a ditadura civil-militar jamais foi um consenso total na sociedade brasileira, o que redundou nos movimentos de resistência insurrecionais (luta armada) e civilistas (atuação nas instituições), é impossível não reconhecer que um regime que durou 21 anos não tenha gozado de legitimidade entre amplos setores da população. Todavia a ressaca produzida pelo “Milagre”, o cenário de hiperinflação galopante e pauperização, tornou o descontentamento incontrolável. Inclusive a atuação da grande mídia oligopolista, até então entusiasta de primeira hora ao golpe de 1964, deu sua contribuição e reverberou o processo de perda de legitimidade dos militares no poder.  Neste ponto da história o que era um movimento perene em prol do retorno dos ritos democráticos de uma contra-elite minoritária (partidos de esquerda, intelectuais e artistas), se tornou um movimento de massa que transcendeu classes e grupos. Só o amplo consenso formado explica em um mesmo palanque gente como Ulisses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva.

O movimento da “Diretas” foi um movimento de massa cujo interesse era o de reinstituir a normalidade democrática. Considero equivocado considerar a “Diretas” um movimento de esquerda, embora que atores tradicionais deste espectro político, o que inclui sindicatos, partidos e movimentos sociais, tenham dado suporte inegável ao que vimos no Brasil na década de 1980. Os atores tradicionais auxiliaram na fisionomia do movimento de massas inclusive pelo acúmulo de expertise em se manterem organizados, a despeito de terem atuado durante boa parte do século XX na ilegalidade ou semi-legalidade. Igualmente forneceram um discurso, muitas vezes contundente, expresso em palavras de ordem onde a crítica da situação econômica era absolutamente oportuna para o momento.

Também o “Fora Collor” na década de 1990 mantém alguns dos aspectos que citei acima:1) transcende a crítica de uma contra-elite minoritária; 2) encontra apoio e reverberação da mídia oligopolista; 3) é dotado de uma fisionomia de esquerda pelo protagonismo de certos atores tradicionais, embora que o consenso naquele momento quanto ao impeachment tenha abarcado diversos grupos sociais para além do espectro político mencionado.

 

Cerca de 750 mil jovens “cars pintadas” saem às ruas de São Paulo pelo impeachment de Collor, em 18 de setembro de 1992

 

A questão é que o mundo mudou muitíssimo de lá para cá. A chamada “revolução informacional”, que se potencializa a partir do final da década de 1990, já inclui novas formas de comunicação e interação na sociedade. Ao mesmo tempo tivemos os anos do lulismo neste século XXI, onde os atores tradicionais da esquerda ingressaram nas instituições e tanto passaram a ser “vidraça” quanto tiveram sua atuação contestatória consideravelmente diminuída. Afinal, movimentos e partidos tornaram-se governo. Nesse ínterim novas pautas ganharam ainda mais corpo e possibilitaram o protagonismo de atores que não se sentiam plenamente contemplados pelos movimentos tradicionais de esquerda. Esse diagnóstico não é meu, boa parte da literatura sobre movimentos sociais aponta para esta questão. Aqui, dentre as novidades, falo do movimento ambiental, feminista, movimento negro, grupos LGBTT, etc.. A natureza, este agente difuso, ganha porta-vozes humanos. Jessé Souza (1960), sociólogo brasileiro, ironicamente chama este grupo de “classe média de Oslo”, brasileiros que adotam uma agenda ambiental e de sustentabilidade digna dos nórdicos.  E os afetos e a expressividade adquirem uma enorme relevância onde o clássico problema das diferenças materiais entre as classes sociais passa a ser secundário. Não por acaso o filósofo francês Luc Ferry (1951) aposta que a intimidade, as relações afetivas, é um tema amplamente mobilizador neste século XXI.

Um outro ponto, ao qual não canso de lembrar, é o da fadiga das democracias representativas liberais no mundo todo na nossa conjuntura. Devo este diagnóstico ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). A alta financeirização das economias nacionais, processo que se inicia na década de 1970, torna os governos reféns diretos da pauta fornecida pelas grandes instituições financeiras. Em suma: o que prometem nas campanhas eleitorais não é efetivamente realizado inclusive por constrangimentos e acordos que moldam os orçamentos governamentais. Parte da crise de legitimidade da social democracia européia é explicada por este fator. Na esteira da fragilização dos partidos social democratas, os partidos tradicionais moderados sofrem por inércia. Portanto, a crise da democracia representativa liberal é seguramente também uma crise dos partidos e lideranças tradicionais, um problema que não é só brasileiro.

O junho de 2013 no Brasil se insere neste macro contexto absolutamente complexo. Não foram os atores tradicionais de esquerda que organizaram os movimentos. Pelo contrário. Em várias cidades brasileiras estes atores foram até mesmo hostilizados. Naquele momento muitos analistas ficaram atônitos. O que houve?

 

Em 20 de junho de 2013, integrada às “Jornadas de Junho”, a passeata dos “Cabruncos Livres” levou mais de 4 mil pessoas às ruas de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Junho de 2013 foi um dos maiores testes da capacidade de aglutinação coletiva das novas formas de comunicação e interação. Como vimos, é inegável o barulho causado. Naquele momento o slogan “Vem Pra Rua” ou o Movimento Passe Livre sintetizam uma pauta reivindicatória que envolveu desde o seu estopim, no caso a revogação do aumento do preço das passagens urbanas, até a crítica ao uso de dinheiro público para as grandes obras que seriam necessárias para a realização dos mega-eventos vindouros. Tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas do Rio estavam na lista de prioridades do Estado brasileiro.

Notem que por mais que tenham se apresentado como “movimentos pulverizados”, haviam pautas reivindicatórias que apontavam tanto para o direito de mobilidade urbana quanto implicavam, mesmo que de forma um tanto inábil, na tentativa de influir no processo de tomada de decisão sobre os orçamentos governamentais. Em contraposição ao investimento nos mega-eventos os manifestantes clamavam, mesmo que sem muita precisão, por mais investimentos em saúde e educação. Neste ínterim, até pelo caráter inovador, os grupos políticos tradicionais não conseguiram interlocução ou mesmo captar as demandas apresentadas, dotá-las de objetividade política.

Ali abriu-se uma caixa de Pandora. Os métodos de mobilização, até então jamais vistos no cenário tupiniquim, foram depois largamente utilizados. Inclusive há semelhanças de métodos com o que ocorreu aqui e na Primavera Árabe: redes sociais, novas formas dinâmicas de interação, etc..

Cabe notar que os movimentos da chamada “nova direita” no Brasil se utilizaram depois fartamente tanto da estética de mobilização dos grupos de junho de 2013 quanto até mesmo de nomenclaturas e slogans. Afinal, o “Movimento Passe Livre”, o MPL, de alguma inspirou o “Movimento Brasil Livre”, não por acaso MBL. O slogan “Vem Pra Rua” tornou-se um movimento homônimo.

Nesse ínterim uma pletora de questões aflorou. Trata-se de uma constelação de fatores. Aqui a frustração econômica causada pelo término da era das commodities implicou uma enorme dificuldade de manutenção das políticas econômicas e sociais do lulismo continuadas por Dilma Rousseff. Este é um ponto crucial para entendermos a insatisfação que gerou os movimentos de massa pós-2013. Para além disso os movimentos da “nova direita” passam a vocalizar demandas e perspectivas de grupos da sociedade que até então não encontravam representantes dotados da capacidade de síntese necessária e com enorme habilidade em utilizar as redes sociais. Não quer dizer que não existissem as visões-de-mundo mais conservadoras. Apenas não haviam encontrado grupos que vocalizassem esses sentimentos difusos.

Nesse ínterim, já desde ação penal 470, o “mensalão”, a grande mídia monopolista engrossou de forma sistemática a narrativa que associou o Partido dos Trabalhadores de forma inequívoca, por vezes quase exclusiva, ao fenômeno da corrupção. Por outro lado, no âmbito da política tradicional, Dilma lidou diretamente com um governo dotado de capacidade decisória limitada e um Congresso Nacional rebelde liderado por Eduardo Cunha.

O que tornou os movimentos de massa diferenciados não foi tanto o uso das táticas de comunicação novas já experimentadas em 2013. O que há de novo é o conteúdo apresentado e pela primeira vez desde a redemocratização a ausência de atores ou pautas usualmente apresentadas pela esquerda tradicional. Até 2013 encontrávamos pautas de reivindicação inclusivas, de ampliação direitos. De 2013 em diante não houve sequer a fisionomia de esquerda. Neste ponto do diagnóstico concordo plenamente com Aluysio que me chamou a atenção para este fato.

Contudo é difícil dizer, conforme afirmei anteriormente, que a “política morreu”. Outros grupos, dotados de alta capacidade de negociação jamais arrefeceram. As mudanças que vivenciamos de 2016 para cá na legislação social são obra de grupos que se não redundam em grandes movimentos de massa, até pela natureza silenciosa com que atuam, são tão ou mais eficientes no diálogo com o sistema político tradicional. São grupos de pressão dotados de alto poder de fogo oriundos das 6 mil famílias que concentram boa parte da riqueza nacional. Promovem uma ação coletiva menos visível dado o convencimento promovido pelo dinheiro. Neste sentido na atual conjuntura é desnecessário inflar grandes movimentos da nova direita nas ruas e lidamos com uma contra-elite, pelo flanco esquerdo, profundamente fragilizada e carente de legitimidade.

O que ficará disso tudo? Como já disse Wanderley Guilherme dos Santos (1935), um dos decanos da ciência política brasileira, “o futuro não é materialmente verificável”. O que temos certeza é que a revolução informacional das últimas décadas, se modificou o cotidiano das nossas sociedades, não poderia ter efeito muito diferente nas mobilizações coletivas. Estas, tal como outrora, permanecem guiadas por interesses sendo este o móvel aglutinador. Todo o restante sobre o amanhã ainda “não decantou”. Aguardemos.  Porém, os “móveis” da questão do Zé prosseguem.

 

(*)Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

 

PT de Campos recebe Lula dia 5 na Praça do Liceu

 

 

 

Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será ou não candidato à presidência em 2018, a palavra final caberá ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que deu previsão de julgar até agosto a condenação do juiz federal Sérgio Moro, na Lava Jato, contra o ex-presidente.

Se puder concorrer, há pouco mais de 10 meses das urnas, Lula hoje lidera com folgas as últimas pesquisas Datafolha (aqui) e Ibope (aqui) pela corrida ao Palácio do Planalto. Mas caso seja barrado pela Lei da Ficha Limpa, não será por falta de empenho da sua militância.

Dentro das caravanas que tem feito pelo país, o ex-presidente estará também em Campos. O encontro está marcado para a praça do Liceu, no próximo dia 5. Organizada pelo PT campista, a programação vai das 19h às 22h.  Será o primeiro presidenciável de 2018 a visitar a planície goitacá.

Quem quiser acompanhar os preparativos do evento na democracia irrefreável das redes sociais, pode fazê-lo aqui.

 

Donos do poder que a política separou, a Lava Jato uniu na cadeia

 

Tenho sido cobrado e sei que muita gente espera alguma análise minha sobre a prisão, ontem, de Anthony e Rosinha Garotinho, ambos do PR, ex-prefeitos de Campos e ex-governadores do Rio.

Na mídia goitacá, quem acompanhou desde o início o caso que levou o casal à prisão foram os blogueiros Ricardo André Vasconcelos e Christiano Abreu Barbosa, depois seguidos pela Suzy Monteiro.

Além de estar há algumas semanas envolvido na produção de matérias de fundo sobre o preocupante quadro nacional, tenho por princípio pessoal evitar bater em quem se está caído. Sobretudo quando percebo, pelos frutos dos próprio erros, a imensa dificuldade para se reerguer.

Além do que Ricardo, Christiano e Suzy escreveram, e do que pode ser lido (aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui) na edição de hoje da Folha da Manhã, para quem quiser compreender o caso de desde a sua gênese, antes de se alastrar como metástase sobre todo o Estado do Rio de Janerio, recomendaria o que escreveu hoje, na edição de O Globo, a jornalista Maiá Menezes, a quem conheci pessoalmente na conturbada campanha eleitoral de Campos em 2004.

Quem ainda não leu, pode fazê-lo aqui ou na reprodução abaixo:

 

Picciani, Garotinho, Cabral e Paulo Melo unidos na candidatura vitoriosa do político da Lapa a governador do Rio, em 10 de outubro de 1998 (Foto: Cezar Loureiro – Agência O Globo)

 

O que a política separou, a Lava Jato uniu

Por Maiá Menezes

 

Sérgio Cabral foi presidente da Assembleia Legislativa do Rio no governo Anthony Garotinho, que indicou ao Tribunal de Contas do Estado o ex-presidente do órgão Jonas Lopes de Carvalho. Foi no esteio de Cabral que ascendeu o atual presidente afastado do tribunal, Aloysio Neves, seu chefe de gabinete.

Jorge Picciani já era, na época, homem forte, articulador do grupo político que floresceu e dominou o estado por mais de vinte anos. Paulo Melo, também deputado, foi líder do governo e se revezou com Picciani na presidência da Alerj.

Foi com entusiasmado apoio de Cabral que Garotinho se elegeu governador pela primeira vez em 1998. Em 2002, com sonhos mais altos, concorreu à Presidência. Perdeu, mas elegeu sua mulher, Rosinha Garotinho, e manteve aliança com Cabral, que se tornou senador.

Não havia fissuras. Era um grupo político sólido, que só passou a dar sinais de desgaste anos depois. Em 2006, após ser eleito governador, Cabral rompeu com Garotinho, atingido por denúncias muitas, entre elas de uso de recursos do estado, pilotado por sua mulher, para financiar uma pré-campanha fracassada à presidência pelo PMDB.

Os interesses políticos se desencontraram. Seis anos depois, foi do ex-governador campista a iniciativa de divulgar fotos da já icônica “farra dos guardanapos” em Paris. Símbolo das relações nada republicanas entre estado e empreiteiras, já comprovadas na Operação Calicute, onde há também citações de repasse para campanha do atual governador Luiz Fernando Pezão.

O que a política separou, a Lava-Jato voltou a unir. Com a prisão do casal Garotinho hoje, não restou um. Do Guanabara ao Tiradentes, passando pelo TCE, o poder político do Rio nos últimos vinte anos está atrás das grades. Às vésperas de 2018.

 

Guilerme Carvalhal — A instalação

 

 

 

Após o anúncio da instalação artística “O estupro coletivo”, uma multidão cercou a praça empunhando cartazes de protesto contra a baixaria em local público. A polícia militar formou um cordão de isolamento e apenas assim a artista Liza Mainhoff conseguiu dar continuidade à sua obra, recebendo hostilizações verbais da turba em fúria que acampou nos arredores.

O curador tentou explicar a intenção da obra, alegando que buscava retratar em tons bem vivos o caos formado pela violência urbana, em uma proposta de conduzir os visitantes à reflexão sobre o mundo contemporâneo. Ele deu uma entrevista na TV falando sobre isso e foi xingado virtualmente e posto como o mais novo defensor da degeneração dos valores morais da sociedade.

Os repórteres de TV perguntaram o que na exposição os incomodava. Muitos destilaram ódio, mas ninguém sabia dizer nada sobre o que seria apresentado tamanho o sigilo imposto. O próprio transitar de Liza ocorria sob forte segredo e um dia, ao perceberem sua saída disfarçada, acertaram um ovo em seu peito e ela se limitou a rir, sem sequer limpar a sujeira do casaco.

No dia da inauguração, o grosso do público era composto pelas figuras contrárias. O medo da violência afastou a maioria dos interessados, restando uma restrita aglomeração de fãs da artista dispostos a até mesmo apanhar, contanto que comparecessem e endossassem a obra.

Quando abriram os portões, o grupo invadiu levantando seus gritos de guerra, mais assemelhado a uma horda rumo à batalha. Devido à extensão do parque, espalharam as obras por várias partes, todas cobertas em lençóis laranjas. À medida em que a multidão entrava, os auxiliares descobriam e revelavam o conteúdo tão aguardado.

Sobre os cavaletes, destacavam-se impressas em grandes lonas as frases de ira proferidas pela turba ao longo dos dias. Telões exibiam gravações da fala dos integrantes da multidão expressando seu desejo de que Liza fosse presa, banida do país , preferencialmente morta. E no ponto central, à vista de todos, uma imensa foto dela logo em seguida ao momento em que recebeu a ovada e sua expressão de quem não importava soou à maneira de um imenso deboche para cada um dos presentes.

Todos atingirem o ápice de seu frontispício iracundo e essa explosão atingiu as obras em si. Começaram a arrastá-las e a empilharem sem nenhum tipo de reação dos seguranças, como se esse fosse um gesto esperada e calculado depois de muitas provocações. Incendiaram-nas em uma grande pira, que teve como principal combustível o retrato de Liza suja.

A turba observava o arder das chamas com uma certa mudança ocorrendo por dentro. Enquanto suas próprias palavras definhavam em cinzas, internamente algo se consumia junto, esvaziada toda a fúria nutrida nesse ínterim.

Foi quando, em um onisciente coletivo, todos se deram conta de seu papel dentro do espetáculo e, envergonhados, redirecionaram contra si mesmos a ira propalada, feito palhaços incapazes de levar o público ao riso. Aos poucos foram formando filas e se lançaram nas chamas, dessa vez chamando a atenção dos policiais que tentavam salvá-los.

Nas proximidades, Liza gargalhava ao comemorar os efeitos de seu plano. Feito a bruxa que lançava os fiéis à punição da inquisição, ela ria com a soberba de quem enxergava um plano se concretizar, sem nem imaginar que, nas ranhuras distantes das vielas da cidade, sempre renascia o germe de uma mão disposta a assassiná-la.

 

Ricardo André Vasconcelos — Existe divórcio entre o Brasil e Brasília?

 

Protestar nas redes sociais pode ser mais confortável, mas 2018 parece que vai provar que só barulho nas ruas provoca a verdadeira mudança

 

 

O descompasso entre a impopularidade das instituições, medida nas pesquisas de opinião e nas redes sociais, e a desenvoltura com que governo e Congresso impõem mudanças significativas para o dia-a-dia dos cidadãos, são a prova mais evidente da crise de representatividade pela qual passa o país. Eleitores não se sentem representados pelos governantes, que por sua vez prescindem de aprovação popular para as medidas que favorecem minorias dominantes em franco desfavor da maioria que paga a conta. É isso mesmo ou a crise de representatividade é um falso dilema e tacitamente, o governo e o Congresso mais corruptos da história recente são o fiel espelho do país?

Talvez seja por isso que os brasileiros já não reagem mais — ou reagem insuficientemente — diante das mais variadas formas de rapinagens descobertas todos os dias e seletivamente punidas. Ou nos satisfazemos com meras manifestações nas redes sociais? O ponto alto da revolta recente parece ter sido os protestos de junho de 2013, abortados não pelas conquistas ocasionais, mas pelo horror generalizado causado pela ação dos Black blocs, com suas bombas incendiárias depredando bancos, lojas e não poupando o patrimônio público. Sessenta anos atrás, um líder dos marinheiros chamado José Anselmo dos Santos era um dos mais exaltados defensores das greves que paravam o país (inclusive militares) e ajudou a precipitar o golpe civil-militar que mergulhou o país em 21 anos de ditadura. No alvorecer na redemocratização descobriu-se que o lendário Cabo Anselmo, era agente infiltrado a soldo dos militares para radicalizar e dar argumentos aos golpistas.

Inocentes úteis? O que se viu depois que as ruas se calaram foi uma crescente onda desmoralizante das instituições na cauda de descobertas de “nebulosas transações” envolvendo  políticos e autoridades de todos os poderes e quase todos os partidos: centenas de bilhões roubados no petrolão do PT-PP-PMDB; outros bilhões de negociatas dos tucanos que comandam o mais rico estado da federação há duas décadas e, mais recentemente, a confirmação das suspeitas gerais da máfia dos transportes públicos no Rio, que teria surrupiando (só em evasão de tributos) R$ 200 bilhões de reais sob o comando de Sérgio Cabral (o filho), Jorge Picciani e meia dúzia de empresários do setor.

Da mesma forma deve estar plasmada na memória nacional a imagem dos R$ 51 milhões, em espécie, encontrados no bunker do ex-ministro Geddel Vieira Lima e seu irmão, deputado federal Lúcio Vieira Lima em Salvador (BA). A Polícia Federal não só tem elementos para ligar o dinheiro aos irmãos, como encontrou as digitais de ambos no material apreendido. Geddel era um dos mais íntimos da turma do Jaburu, como se chamam os amigos do presidente Michel Temer que, como vice-presidente da República na chapa do PT, o indicara para ministro de Lula e vice-presidente da Caixa no Governo Dilma.

Com tantos motivos para ir às ruas bater panelas, o brasileiro tem se contentado em protestar nas pesquisas de opinião: nas últimas sondagens, espinafram o governo Temer com 97% de reprovação. A aprovação está dentro da margem de erro. Paradoxalmente aproveitando-se do anestesiamento da população, o governo vem extinguindo direitos e favorecendo uma agenda conservadora que leva o país de volta ao século XX ou até mesmo XIX. Ao fazer concessões à base conservadora-fisiológica de mais de duas centenas de deputados para conseguir arquivar as denúncias da Procuradoria-Geral da República de que seria chefe de uma quadrilha, Michel Temer, prepara um legado diametralmente oposto ao que se espera de um professor constitucionalista que já foi. Vai passar para a história como o presidente que relativizou o conceito de trabalho escravo para agradar a banda ruralista; impôs significativas perdas de direitos com a lei que “modernizou” a CLT e assanhou os arautos do atraso que agora se acham suficientemente fortes para impor ao país sua pauta oportunista, mas travestida de cristã, evangélica e de defesa da família. Um exemplo é a emenda constitucional 181/2015, estuprada em sua intenção inicial para criminalizar as três possibilidades legais de aborto: o decorrente de estupro, de risco para a mãe e de feto anencéfalo. Aliás, é uma heresia atribuir denominação de “evangélico” para grande parte dessa banda retrógrada do Congresso porque ignoram a lição básica dos evangelhos: “amar ao próximo”.

E mais: não nos surpreendamos se aproveitarem da onda ultraconservadora — na qual surfam alguns sinceros, mas a maioria é oportunista — para reduzirem a maioridade penal para 16 anos, como se o problema da violência estivesse apenas nas pessoas e não também nas causas. Esse populismo legislativo leva os deputados e senadores a resumirem todos os problemas à edição de leis e endurecimento das que já existem. Acreditam que manter a política de encarceramento agrada aos eleitores e reforçam a sensação de segurança que confunde justiça com vingança. Não passam de oportunistas porque sabem que enfrentar os problemas a médio e longo prazos, com políticas de inclusão através da educação, cultura e esportes é muito mais demorado e trabalhoso. E mais: cidadão emancipado não vota em deputado/senador que viceja na ignorância alheia. Mais fácil é defender prisão para criança, usuário de droga, ladrão de galinha; para que a mulher não tenha direito sobre o seu corpo.

Surpresa também não será se até o final de 2018, Temer e Congresso, depois de estancada a “sangria da Lava Jato”, ampliar o foro privilegiado para os ex-presidentes da República e, de uma cajadada só, proteger sob a sombra benfazeja do STF, José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. Seria a retumbante vitória da impunidade.

 

Hoje, no Cineclube Goitacá, filme que dividiu cinema em antes e depois

 

 

 

Assisti a “Cães de Aluguel” logo após seu lançamento em VHS no Brasil, em 1993. Era o primeiro filme escrito e dirigido por um jovem desconhecido com nome esquisito, ex-atendente de locadora de vídeo. Profundamente impactado pelo que vira, lembro da convicção com que afirmei ao meu pai, também cinéfilo, assim que ele chegou do trabalho aquele dia: “O cinema vai se dividir em antes e depois desse filme. No diálogo franco com tudo que veio antes, esse tal de Tarantino inventou uma nova maneira de se fazer cinema”.

Até pelo fato do filme nunca ter deixado de ser atual, como o impacto que me causou, confesso ter tomado um “susto” quando constatei, numa postagem de Facebook do sempre atento Gustavo Alejandro Oviedo, que “Cães de Aluguel” estava completando 25 anos. E pela certeza que teve aquele jovem que fui, após assistir ao filme pela primeira vez, o escolhi para a exibição hoje, às 19h, no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio. Como sempre, a entrada e a participação no debate são livres.

 

 

Ainda um ilustre desconhecido, Tarantino tinha escrito três roteiros. E vendeu os de “Amor à Queima-Roupa” (1993) e “Assassinos por Natureza” (94). O primeiro seria dirigido por Tony Scott, irmão de Ridley Scott, que se suicidou em 2012. O outro seria levado às telas pelo cineasta Oliver Stone. Com o dinheiro, Quentin pode financiar e dirigir “Cães de Aluguel”, filme que custou apenas US$ 1,5 milhão. Com soluções eficientes, sua maior parte se passa dentro de um galpão, além de outras poucas locações e externas, antes e depois de um assalto mal sucedido a uma joalheria.

Mesmo que não tenha sido o primeiro no cinema a apostar na narrativa não linear, ninguém até Tarantino o tinha feito com tantas referências da cultura pop nos diálogos e músicas. A cena de abertura do filme, com a câmera girando sobre a mesa de restaurante onde os bandidos se reúnem, é cartão de visita e resumo das inovações que o diretor e roteirista traria à sétima arte. No papel de ator coadjuvante a que se destina em vários de seus filmes, é ele mesmo quem explana sua visão “freudiana” da música “Like a Virgin”, de Madonna.

Bem verdade que Tarantino também chocou os padrões morais daquele início de anos 1990, pelo emprego desavexado de palavrões e violência. Mesmo que esta tenha sido sempre motivo de crítica, nunca foi elemento gratuito, mas de reforço à narrativa. Na sequência mais violenta de “Cães de Aluguel”, onde um policial é torturado pelo gângster Vic Vega, ao som contagiante de “Stuck In The Middle With You”, o espectador que se deixa impressionar pelas imagens fortes e urros de dor, talvez não atente que o desfecho da cena revela, enfim, quem é o “rato” (delator) culpado pelo fracasso do assalto.

O Vic Vega vivido por Michael Madsen, na talvez melhor interpretação de sua carreira, é irmão do Vincent Vega depois encarnado por John Travolta em “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (95), que rendeu o Oscar de melhor ator em outro filme revolucionário escrito e dirigido por Quentin. Em “Cães de Aluguel”, além de Madsen, também brilham os atores Tim Roth, Steve Buscemi e Chris Penn (irmão de Sean Penn, morto precocemente em 2006), além de Harvey Keitel. Ator assinatura dos primeiros filmes de Martin Scorsese, uma das muitas influências de Tarantino, Keitel abraçou o roteiro do diretor estreante e foi um dos seus produtores.

Talvez não haja exagero em afirmar que, desde “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles, “Cães de Aluguel” foi o grande primeiro filme de um diretor na história do cinema. Na dúvida, é considerado pela conceituada revista Empire “o maior filme independente de todos os tempos”.

Ao final, quem já leu ou assistiu as peças “Hamlet” e “Macbeth”, pode encontrar boas pistas. Na tragédia dos antigos gregos que Shakespeare revisitou como ninguém e na mesma complexidade dada aos dilemas morais do homem por Tarantino.

 

Confira abaixo o traleir do filme e o clipe de “Stuck In The Middle With You”, da banda Stealers Wheel:

 

 

 

 

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