Campos dos Goytacazes,  13/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Ricardo André Vasconcelos — A vítima perdeu o palco

 

Cena emblemática de um político sem limites: caçapa de camburão

 

 

Assim como as relações espúrias entre empreiteiras e agentes públicos escancaradas na Lava Jato, há muito se sabia que o mesmo se repetia na Planície Goitacá. Por falta de aviso é que não foi: por diversas vezes a chamada “mídia alternativa”, especialmente os blogs, denunciou relações suspeitas entre construtoras, prestadoras de serviços e a municipalidade, sem nenhuma providência efetiva dos órgãos de controle. Eram contratos milionários e aditamentos (de valores e prazos) cujos extratos dos contratos eram printados diretamente do Diário Oficial e divulgados, mas sem tirar da inércia os que deveriam, no mínimo, proceder a abertura de investigação.

O caso da Working Empreendimentos é emblemático porque até as pedras portuguesas do Bouvelard Francisco de Paula Carneiro sabiam que havia algo de errado na onipresença da empresa nos contratos da municipalidade. Era uma empresa polivalente e tinha contrato para reforma e manutenção de escola, obra de drenagem, venda de abrigo de passageiros, aluguel de equipamento e montagem de palco e banheiros químicos. Mas foi outra empresa do grupo, a Ocean Link Solutions Ltda que ganhou fama nacional ao emitir nota fiscal fria para encobrir doação ilegal da JBS à campanha de Garotinho em 2014 e puxou o fio de uma meada que chegou de um esquema de extorsão e arrecadação eleitoral ilegal que levou à cadeia, além do casal Garotinho, dois ex-secretários municipais, empresários locais e o ex-ministro dos Transportes do Governo Dilma, Antônio Carlos Rodrigues (ex-senador e atual presidente nacional do PR) e o genro dele.

A investigação só chegou tão longe porque o empreiteiro André Luiz da Silva Rodrigues, Deca, fez acordo de colaboração com o Ministério Público revelando, entre outras ilegalidades, que o então secretário de governo da Prefeitura de Campos, Anthony Garotinho, teria exigido R$ 5 milhões de empreiteiros para sua malsucedida campanha pelo governo do Estado em 2014. Há notícias de que os outros quatro participantes da “reunião dos R$ 5 milhões”, que teria sido realizada no escritório da campanha na torre Rio Sul, no Rio de Janeiro, confirmariam a delação de Deca. Segundo a denúncia do MP, o atual deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), à época aliado e coordenador da campanha, estava presente e foi arrolado para depor, como testemunha, no próximo dia 18. Se os empreiteiros e Pudim confirmarem o relato do delator, a temporada de Garotinho na cadeia de Bangu tende a se estender. Salvo providencial ajuda do TSE, especialmente do ministro Gilmar Mendes, presidente da Corte e responsável pelo plantão durante o recesso judiciário que começa no próximo dia 20.

Durando mais alguns dias ou meses, a prisão de Garotinho é resultado de sua opção de fazer política de forma obsessiva e testando o limite das pessoas, das instituições e da própria capacidade de sair das situações que cria. Ainda é cedo para dizer que sua meteórica carreira chegou ao fim, mas ao completar nesta quarta-feira, dia 6, duas semanas preso numa cela de Bangu, é possível concluir que vai precisar se reinventar para tentar dar a volta por cima. Não cabe avocar para si o mérito do desbaratamento da quadrilha de Cabral e debitar seu calvário à vingança dos inimigos. Garotinho agora precisa mais. Precisa provar que não extorquiu empresários, não participou de esquema de nota fiscal fria para encobrir doação de caixa 2 e não chefiou a própria organização criminosa.

Nessa peça não tem personagem vítima.

 

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