Campos dos Goytacazes,  13/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Guilherme Carvalhal — Gratidão

 

 

 

No seu ateliê, aqueles quadros sem nenhuma expressão. Paisagens urbanas em tons de cinza, naturezas mortas. Clara se frustrava com sua própria inexpressividade. Pensava em construir um estilo próprio, em encontrar a singularidade dos próprios traços, de criar sua identidade. Isso tudo em vão. Desdobrava diante de si uma carreira medíocre, de poucos quadros vendidos, todos a baixo preço. Procurar o concurso público como os pais exigiam se tornaria a solução.

Descendo de lá, o caminho até o ponto de ônibus passava por um beco escuro. Diariamente cruzava por essa área, sempre reticente quanto aos ratos pulando de dentro dos bueiros. E nesse beco que um homem a agarrou e a estuprou.

Os socorristas a atenderam. No hospital, realizaram toda profilaxia necessária e cuidaram de seus ferimentos. Também foi atendida por uma psicóloga. O bandido foi preso e condenado a doze anos de cadeia.

Após algumas semanas de reabilitação, retornou ao seu estúdio. Parou perante a uma tela branca e lascou uma furiosa pincelada com a tinta vermelha. Deixou fluir a incomensurável raiva e ao final considerou bom o resultado. Assim então se dedicou em ritmo frenético, produzindo dez quadros nos quais ela finalmente demonstrou a qualidade desejada desde quando aprendeu e desenhar.

Convidou um conhecido ligado a uma galeria de artes e esse se impressionou com o resultado. Ele organizou uma exposição de Clara e a mesma foi um sucesso, vendendo todos os quadros e recebendo críticas positivas da imprensa especializada. Um renomado colecionador comentou que sua obra retratava os sentimentos da mulher do século XXI e todo seu conflito social, confrontando a opressão do mundo e toda sua violência.

Esse foi o primeiro degrau de sua prestigiosa carreira. Sua produção de quadros se aprimorou, refletindo uma ferida interna que se recusava a estancar. Ela simbolizava a dor que lhe consumia sem nunca conseguir superá-la e com isso alimentava um renome que se convertia em dinheiro. Ao longos dos anos suas obras conquistaram o mercado internacional e ela realizou exposições pelos Estados Unidos e pela Europa. Ela estava entre um dos maiores nomes das artes plásticas brasileiras e conseguia em um único exemplar atingir valores que chegavam a mais de cem mil dólares.

Por todo esse tempo, acompanhou o processo em torno de seu violador. Marcou o tempo que faltava para esse sair da cadeia com um pensamento constante, o do quanto sua passagem breve e doloroso por sua vida lhe causou uma enorme mudança. Avaliava seus prêmios, sua fortuna, seu sucesso e sabia que por trás disso tudo reinava aquele dia fatídico. Caso houvesse uma linha do tempo alternativa onde aquele homem não existisse, estaria condenada à mediocridade de uma vida carimbando papéis em uma repartição.

Justamente por isso, no dia da saída dele na cadeia, ela o aguardou em frente ao presídio. Em suas mãos, um embrulho de presente, singela mostra de retribuição pelo diferencial que proporcionou para ela. Amarrou a fita lilás com esmero, querendo demonstrar toda a importância dele.

Logo ao vê-lo atravessar o enorme portão do presídio, ela acenou sorridente. Frente a frente, ele logo se lembrou da sua efígie com surpresa. Aquela noite mudou os cursos do futuro de ambos e agora, após tanto tempo preso, revê-la consistiu em inesperada situação: jamais diria que seria a primeira pessoa com quem encontraria fora das grades, ainda mais com esse pacote de presente na mão, que lhe oferecia.

Antes que ele pegasse o pacote, ela pediu que esperasse. Clara mesma se encarregou de desembrulhar e de dentro sacou um revólver. O ex-prisioneiro deu um passo atrás, assustado, implorando perdão diante da arma apontada.

Pela cabeça dela percorreram muitas dúvidas, se valeria a pena abdicar de tudo que construiu em prol de uma estranha lei do retorno. Havia um dilema reinante nela, do quanto devia sua carreira ao crime que sofreu, e precisava de alguma forma resolvê-lo. Então apertou o gatilho e descarregou o tambor naquele homem que agonizou e faleceu nas portas da penitenciária sob os olhares silenciosos dos vigilantes.

 

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