Campos dos Goytacazes,  21/01/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Carol Poesia — O óbvio sobre o natal

 

Negro.

Branco.

Trans.

 

Homo.

Hetero.

Trans.

 

Pobre.

Rico.

Trans.

 

Empregado.

Desempregado.

Trans.

 

Ando pensando em religião. É tanto protesto que me cansei das redes sociais. Os protestos são todos necessários, finalmente as minorias têm voz! Mas é que eu me identifico com todos eles, e sofro cada vez mais. Ouvir os gritos e gritar junto é minha obrigação. Mas, confesso, estou cansada.

O tempo todo, todos os dias, leio sobre racismo, homofobia, corrupção… Não preciso buscar os textos/vídeos, eles chegam, e arrebatam. Sem pedir licença, alteram minha respiração. Eu concordo, compartilho e fico extremamente angustiada por não fazer mais. Parece que é minha culpa a pobreza, a corrupção, a homofobia, o racismo e todos os absurdos que a humanidade não conseguiu resolver, desde sempre.

“Você nunca vai entender, porque você não é negra.”

“Você nunca vai entender, porque você não é gay.”

“Você nunca vai entender, porque você não é pobre.”

As pessoas não percebem que a energia que essas falas carregam é uma energia de exclusão, de segregação. É como se elas dissessem “Não vem querer comprar essa briga não, porque essa briga é minha”. Então qual é o sentido da divulgação? Não seria sensibilizar as pessoas, “contaminá-las” para que levantem bandeira contra esses males?

E as mesmas pessoas que falam assim (Não são poucas não!), compartilham:

 

 

Eu já disse uma vez aqui que o maior desafio da humanidade, atualmente, não é acabar com o racismo, com a fome, com a homofobia, nem com o machismo; o maior desafio da humanidade, atualmente, é ser coerente. [Diga-se de passagem, se eu não sou pobre sou o quê? Rica? Sou empregada, assalariada. Isso é um fato, os rótulos são uma necessidade do outro.]

Por falar em rótulos, tenho pensado em religião. Tenho pensado no que as religiões têm em comum. E reparei que todas elas defendem a existência do espírito. O espírito, em tese, não é rico nem pobre, não é branco nem negro, não é homossexual nem heterossexual, não é patrão nem empregado. O espírito, inclusive, não tem religião. Jesus, este de que tanto falamos nesta época do ano, modelo para os cristãos e exemplo a ser seguido, olhava as pessoas e via seres humanos. Jesus não segmentava as pessoas nessas caixas, nesses rótulos chatíssimos, rasos e dicotômicos. Jesus via o espírito.

[Pasmem! Jesus não estava nem aí para o fato do coleguinha ser ativo ou passivo.]

Ontem eu estava lendo o livro do Lázaro Ramos – Na minha pele –, estou gostando muito por sinal. Em uma determinada passagem, ele conta que quando foi capa de revista pela primeira vez (Revista VIP), implicou com o fato de ter sido explorado, na matéria, como “ator negro” e não como “ator”. Ele conta que chegou a enviar uma carta para a revista, chateado principalmente com o que eles escreveram na placa segurada por ele na foto – “Não vai comprar por que ele é negro?”. Lázaro esclarece que sua chateação veio do fato de perceber que a cor da sua pele foi mais explorada na entrevista do que o seu trabalho como ator, e chegou a reclamar com a jornalista que o entrevistara, dizendo não comentaria mais nada que não fosse o seu trabalho cênico, afinal esse era, em tese, o objetivo da entrevista.

É mais ou menos por aí. O olhar está equivocado, para todos, e com todos – um olhar materialista, que fica na matéria, que permanece na superfície. De fato, o mundo seria mais humano se tivéssemos o olhar de Jesus (Não temo ser piegas, o rótulo é uma necessidade sua, leitor, não minha). Seríamos mais humanos se víssemos o espírito (Olha que contradição linda!). Sem contar que a humanidade seria menos chata, sem essa necessidade megalomaníaca de encaixotar todo mundo em algum segmento.

Para todos os efeitos, sou trans. E tenho certeza de que Jesus me entenderia.

 

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