Opiniões

Orávio de Campos — Santo Antonio de Tahy

 

Os primeiros 10 anos deste milênio, de evoluções científicas e tecnológicas, bem como de problemas nos campos das transgressões étnicas e de gêneros, não faltando o retorno de recomposições políticas de direita e o radicalismo moral e religioso, foram, também, auspiciosos para o avanço das pesquisas sob a égide da saudosa Faculdade de Filosofia de Campos (Fafic), com o apoio financeiro da Fenorte (Fundação Estadual do Norte Fluminense).

O Núcleo de Iniciação à Pesquisa Científica em Comunicação, criada em 2002 na Fafic, por inspiração do Dr. José Marques de Melo, titular da Cátedra da Unesco e emérito fundador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), realizou vários projetos importantes, alguns ainda esperando por publicação, com ênfase para “O Inventário de Igrejas e Capelas da Região Açucareira de Campos dos Goytacazes”.

Durante as pesquisas de campo, com um grupo de alunos-pesquisadores, mapeamos as formas com que os católicos organizaram a cobertura religiosa da região, através de curatos e organismos administrativos, de forma a atender ao contexto dos meios de produção capitalista, desde a colonização, compreendidos pelos banguês, engenhos e usinas, além de outras atividades agrícolas e pastoris muito apropriadas aos massapês da Baixada, quando o Município mantinha maior parte de sua população produzindo no interior.

O trabalho começou pelas trilhas do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, figura viva (e ficcional) criada pelo preclaro escritor campista (e universal) José Cândido de Carvalho. Para investigar os caminhos e estradas, bem como visando o inteiramento antropológico, contamos com a presença do memorialista Geraldo Anjinho, um profundo conhecer daquelas glebas, de Donana ao Farol de São Tomé. O mapa da Baixada da Égua está impresso na memória prodigiosa desse apaixonado pelas histórias de jongos, manas-chicas, lobisomens…

Como era de se esperar, encontramos igrejas e capelas em ruínas pela imensa vastidão — da Lagoa Feia à Barra do jacaré — como resultado da degenerência das atividades econômicas: falência de usinas e fechamento de fazendas, algumas retalhadas por inventários dolorosos, com a consequente migração do povo para as franjas da cidade. Dentre outras, a Capela de Santo Antonio de Tahy, uma construção eclética inaugurada, em 1919, como referência da época de fartura da usina, uma das primeiras a ceder à ordenação dos novos tempos.

Quando chegamos à secretaria de Cultura do município e à presidência do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Coppam), em 2009, no governo da prefeita Rosinha Garotinho, levamos o projeto para a Prefeitura, porque somente lá poderia, cumprindo o Plano Diretor, cuidar do tombamento dos templos como riqueza cultural dos munícipes, negociando com seus proprietários meios legais para a realização dos restauros necessários.

Com a empresa Tahy Agropecuária, dirigido pelo empresário Gonçalo de La Riva, não tivemos problemas para reivindicar a restauração. Começamos a conversar em março de 2014 e, em junho do mesmo ano, as obras tiveram início para alegria dos católicos da localidade e, principalmente, do Espinho, onde as ternas lembranças ainda mantém, com saudades, os cenários dos atos religiosos produzidos naquele templo de orações.

No último final de semana, recebemos a grata notícia, através das líderes Derlange Barros e Maria das Graças, da (re) inauguração da Capela de Santo Antonio, totalmente restaurada, ocasião marcada pela sua ressacralização com a missa solene, ato que não acontecia há mais de 20 anos. Não pudemos —  eu e o Geraldo Anjinho — estar presentes, mas ficamos altamente emocionados. Afinal a luta em favor da Capela não foi em vão.

Vale, finalmente, um agradecimento (e um elogio) ao Gonçalo de La Riva pelo cumprimento da palavra e, sobretudo, pela demonstração de apreço às tradições, sempre vivas, de uma comunidade que, apesar do avanço das tecnologias, não perdeu suas mais sentidas referências culturais. E, quem sabe (?), a partir de agora, com a Capela branca pairando no espaço da antiga usina, a produção não retorne ao seu tempo mágico de pujança…

Ave, Santo Antonio.

 

Este post tem um comentário

Deixe uma resposta

Fechar Menu