Opiniões

Folha 40 anos — Martinho Santafé

 

Jornalista Martinho Santafé

Histórias de Kapi e Bolinha

Por Martinho Santafé(*)

 

Iniciei no jornalismo em 1970, em Niterói, no auge dos “anos de chumbo”. Em janeiro de 1974, quatro anos antes da primeira edição da Folha da Manhã, e semanas depois de retornar ao Brasil após um exílio “voluntário e sugerido” pela América Latina, comecei a trabalhar no jornal A Cidade, de Vivaldo Belido. Por pouco tempo, pois recebi convite para montar um atelier de artesanato em Duas Barras com um companheiro de viagem. Dois anos depois estava novamente nas trincheiras do jornalismo.

O retorno a Campos ocorreu em maio de 1977 para chefiar a sucursal de O Fluminense, com Fátima Lacerda e Giannino Sossai. Meses depois, soubemos que um novo jornal seria criado e fomos convidados por Aluysio Barbosa e Diva Abreu para participar de algumas reuniões. Com a experiência e o prestígio de muitos anos como correspondente do Jornal do Brasil e já em negociações para adquirir uma offset. Incentivado por Diva, Aluysio estava arriscando em uma aposta que iria ganhar.

A Folha da Manhã nasceu em um período economicamente singular para Campos, justamente durante a transição da agroindústria açucareira para a indústria do petróleo. Embora atividades produtivas tão distintas, o jornal soube conviver bem com elas graças à credibilidade de sua linha editorial definida pelo mestre Aluysio.

No início de 1980 fui convidado para ser o editor da Folha. Das muitas recordações desse período,  certa tarde, Kapi apareceu na redação com um novo poema: “Canção Amiga”. Li, passei ao Celso Cordeiro, que era colunista social, e sugeri: “Publica”. Foi, talvez, a primeira e a última vez que um poema ocupou todo o espaço de uma coluna social em Campos.

Também naquele ano o marginal “Luiz Gordo”, nascido em Campos e “amadurecido” nas favelas do Rio, aterrorizou a cidade com o seu bando, assassinando em Grussaí um rapaz conhecido e sequestrando sua namorada. Já libertada, a jovem foi prestar depoimento na delegacia. A cidade só falava do caso. No meio do fechamento da edição, Antônio Carlos Paes chega com a matéria, mas não tínhamos a foto. Quase surtei…

No mesmo dia, véspera de Finados, havia pautado para um estagiário e radialista conhecido como “Bolinha”, uma matéria sobre os preparativos no Cemitério do Caju. O texto era bom e as fotos excelentes. O que fazer para a primeira página? Escolhi uma foto vertical em quatro colunas, com forte carga emotiva — na lápide de mármore, um anjo erguia os longos braços em direção ao céu —. a chamada de Finados sob a foto e a seguinte manchete na parte superior da capa: “Fulana de Tal depõe em prantos”. A edição esgotou e teve que ser reimpressa várias vezes.

“Bolinha”, então um estagiário bastante promissor, virou Garotinho e deu ruim.

 

(*) Jornalista e ex-editor-geral da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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