Campos dos Goytacazes,  23/05/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Folha 40 anos — Afonso Guedes

 

Afonso Guedes

Em uma rua cheia de história, eu fiz história

Afonso Guedes(*)

 

Era setembro de 2002. Pela primeira vez, entrei naquele prédio preto e branco, na rua Carlos de Lacerda, número 75, de corredores extensos, que “pulsava” notícia. O meu coração batia no mesmo ritmo. Como era lá dentro? Em qual parte dele as reportagens, que eu lia diariamente em casa, ganhavam forma? A conversa com o diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa, durou poucos minutos. No dia seguinte, lá estava na sala da escuta, vencendo a timidez, apurando fatos que poderiam ou não estar no dia seguinte na edição da Folha da Manhã. Em uma rua cheia de história, começava ali a escrever um importante capítulo da minha história profissional.

A passagem pela escuta foi repleta de experiências e situações inusitadas! Teve o tradicional “trote”, feito pelos colegas da redação, as idas ao Mercado Municipal para verificar o preço dos produtos da cesta básica. Sem contar as notas de polícia, que virariam registros nas páginas na edição posterior. Em 15 dias, veio o convite de integrar a equipe de Política e Economia. Lembro quando o mestre seu Aluysio Cardoso Barbosa entrou na sala, me parabenizando e ressaltando o peso dessa editoria nos jornais do Brasil e do mundo. Na Folha da Manhã, é óbvio, não seria diferente. Os assuntos políticos tinham sempre destaque na primeira página. A partir daquele momento, em vez do microfone — eu sonhava em trabalhar em televisão — o gravador seria o meu principal instrumento de trabalho.

Mas a história tomou outro rumo e, em uma rua cheia de história, eu fui escrevendo a minha história profissional. No dia seguinte ao convite, um repórter da editoria de Geral se ausentou por motivo de doença. Fui convocado pela chefia de redação a fazer uma reportagem de bairro. Uma página inteira dedicada aos moradores de uma determinada região de Campos. Há 40 anos, a Folha da Manhã é a porta-voz do povo. Ali, a população tinha a chance de expor os problemas que enfrentavam no dia a dia. Com a ajuda do repórter-fotográfico, fiz a reportagem, que ganhou uma chamada de capa. Antes do lead, o meu nome: aquela era a primeira matéria assinada!

A transparência na cobertura dos fatos sempre foi um dos principais “mandamentos” da Folha da Manhã. Ouvir todos as partes envolvidas nas reportagens é a nossa obrigação e, a partir daquele dia, me tornei repórter da editoria de Geral. Como o próprio nome da editoria indica, a cada dia era uma experiência nova. Chorei com parentes de vítimas ceivadas pela violência na porta do antigo IML de Campos; fiz plantão em frente ao presídio Carlos Tinoco da Fonseca durante rebeliões; andei a cavalo para mostrar a enchente que destruiu o Noroeste do Estado; de barco no rio Paraíba do Sul, acompanhando o drama dos ribeirinhos; e a pé para conferir de perto a seca que rachava o solo nas fazendas em Morro do Coco, distrito de Campos. Lá, a nossa equipe acompanhou uma ladainha de São Pedro. Os produtores rurais pediam aos céus chuva para salvar o pasto, o gado, a própria vida. Em cada cobertura, ganhava a confiança e o respeito dos colegas. Na redação havia estudantes, como eu, jornalistas recém-formados e outros mais experientes, que eram verdadeiros professores. Em comum, o “sangue nos olhos”, característica que todo bom jornalista deve ter. Em uma rua cheia de história, eu seguia escrevendo a minha história profissional.

O ano de 2003 foi de total dedicação à faculdade. Época de conclusão de curso, a realização de um sonho. Fiquei longe da redação até 2004, quando veio o convite de retornar como repórter da Folha 2. Um novo desafio para um jovem repórter, até então acostumado a retratar o factual, o dia a dia, com pouca ou quase nenhuma emoção. Era preciso ir além: “mergulhei” no mundo das artes, dos livros. Foi ali o pontapé para a vida cultural intensa, que mantenho até hoje. Obrigado, Folha da Manhã! Em 2005, subi mais um degrau: assumi a editoria da Folha 2.

As conversas com o mestre seu Aluysio se tornaram mais frequentes, uma vez que deixei a rua e passei a ficar mais tempo na redação. Participar das reuniões de pauta diárias com os outros, o editor-chefe e o diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa, era sempre um aprendizado. Na sequência vinham a aprovação das pautas, a definição de qual repórter seria o responsável pelo conteúdo, a foto correta para ilustrar cada reportagem e o deadline imperdoável! No dia seguinte, estava lá, nas bancas, o resultado do trabalho em equipe. E eu, naquela rua cheia de história, eu fazia história!

Paralelamente ao trabalho na Folha da Manhã, em 2005, comecei a trabalhar em uma emissora de TV, com a aprovação do Aluysio. Ele sabia que o sonho de atuar no telejornalismo estava só adormecido. Às sextas-feiras, tinha o “pescoção”, era sempre um dos últimos a sair da redação da Folha da Manhã. Foram oito meses assim até que me dediquei exclusivamente à televisão. Naquela rua cheia de história — minha mãe e meus oitos tios nasceram e foram criados na rua Carlos de Lacerda, antiga rua do Rosário, a poucas quadras da Folha da Manhã — eu fiz a minha história no jornalismo impresso.

Levo comigo os ensinamentos da Folha da Manhã. Diariamente, ao chegar à redação da Record TV Rio de Janeiro, onde estou como editor-chefe, leio as notícias de Campos e região pelo Folha 1. Sim, essa “quarentona” não parou no tempo… se transformou, se modernizou! Mas os princípios do bom jornalismo continuam pulsantes. Obrigado, Folha da Manhã, por ter tido a chance de fazer parte desses 40 anos de história. Obrigado pelos amigos que fiz nessa empresa e que levo para a vida toda. Que seja o primeiro de muitos “entas”!

 

(*) Jornalista, ex-editor da Folha Dois e editor-chefe da Record TV Rio

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • StumbleUpon
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Yahoo! Buzz
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Add to favorites
  • PDF
  • Technorati

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>