Campos dos Goytacazes,  23/05/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Paula Vigneron — Manchete

 

Ruínas de Atafona, janeiro de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— A morte é para os velhos. Para os que são restos e rastros. Para os que só possuem o fim. Para os que deixaram início e meio para trás.

A voz nascida da angústia tomou a rua. Por breves segundos, ninguém se entreolhou. Todos estavam expostos. Nus diante de palavras certeiras.

Sobre o corpo da criança, a mulher chorava. Uma mão sobre a cabeça fria e pálida do menino. A outra estava pousada em sua barriga. Era voz comum: quando acontece algo ao filho, a mãe sente as dores em seu corpo. Elas atingem a alma e o útero, de onde havia surgido o ser sem vida que agora estava estirado diante de seus olhos desfocados e sem brilho.

Os cabelos negros uniam-se às lágrimas, suor e saliva, em um misto de dores e odores característicos da perda. Um homem alto, com olhar sombrio, observava a cena de longe. Por mais que quisesse dividir o desenlace com a esposa, sabia que aquele era o momento dela e de seu filho. Ele queria, mas não podia intervir. Os dedos tremiam. Tentando conter os movimentos involuntários, Alberto os mexia freneticamente. “Está na hora de parar com essa mania. Vai ficar com problemas, papai”, recordou-se do tom de repreensão de Luigi. Com onze anos, demonstrava mais sinais de maturidade, em determinadas situações, do que o velho pai, que o admirava em silêncio.

Alberto caminhou lentamente em direção a Jane, que continuava a chorar de maneira descontrolada. Os pés queriam seguir outros rumos, mas ele precisava estar ali. Não podia mais fugir dos acontecimentos como fazia na adolescência. Na época, refugiava-se em bebida. Com o tempo, ela se tornou insuficiente para calar seus gritos. Usou maconha. Quase sucumbira a outras drogas, mas envergonhou-se de sua covardia e aceitou o que lhe era designado. Agora, pensava sobre o que teria sido a vida se não tivesse tomado as decisões que o levaram até ali.

“A covardia do ser humano está em seus gestos, jeitos e trejeitos. Está no ar que ele expira”, pensava o pai do garoto, cujo corpo inerte conservava os piores temores de sua vida. Alegre, Luigi costumava acompanhá-lo em afazeres cotidianos. Ambos, diariamente, saíam juntos para a caminhada matinal, que, às vezes, se transformava em uma corrida. Os risos eram companheiros dos dois. Em certos momentos, optavam por nadar no clube do qual o homem era sócio. Divertiam-se entre cambalhotas e mergulhos, tanto em dias frios quanto sob o escaldante sol de fevereiro.

Os dedos continuavam a ser movimentados em ritmo descompassado. O coração se acelerava à medida que o homem se aproximava da esposa, que observava o filho em silêncio. A respiração da mulher estava mais lenta, mas os olhos permaneciam sem brilhos e vidrados diante da grotesca situação que eram obrigados a vivenciar. Pássaros sobrevoavam a criança oca e fria. Suas sombras mesclavam-se às sombras que eram, neste momento, Jane e Alberto. Dentro do casal, algo estava partido para sempre.

Quando era criança, Alberto testemunhou um caso que nunca saiu de sua cabeça. Aos 43 anos, toda a cena era nítida em suas memórias. Andava na rua, sempre alternando os pés entre as faixas pretas e brancas, em uma dança incompreensível por quem o via, no momento em que escutou um barulho abafado. Com o dedo na boca e as sobrancelhas arqueadas, buscou o local exato de onde viera o estampido. Os cabelos pretos, semelhantes aos fios negros de Luigi, estavam bagunçados pelo vento. Afastou a franja lentamente. Caio, seu amigo, estava deitado no chão, em frente ao seu portão, de onde saíram dois desconhecidos jovens correndo.

Antes de reagir, assustado, sentiu dois braços o agarrarem. Tentou desvendar o rosto de quem o carregava, mas só descobriu que era Valter, seu tio, ao chegar à casa dele. O homem estava pálido. Abria a boca, mas não conseguia emitir ruídos. O suor escorria pela face. Alberto, menino, apenas o encarava, aguardando explicações.

— O que você estava fazendo lá fora? Eu tinha mandado ficar dentro de casa. Sabe que moramos em uma área perigosa — repreendeu Valter.

— Mas o que aconteceu? Não entendi, tio — a criança olhou ao redor. Apenas os dois estavam na residência. Em resposta, Valter apenas abraçou o filho único de seu irmão, cuja mente ecoava o barulho abafado. Hoje, Alberto e Jane partilham o cenário da infância do pai do garoto morto. Ele tentava compreender o que se passava. Olhava o filho. Ora enxergava Caio, ora via Luigi. Braços, mãos, sangue.

Dois homens corriam em direção ao menino. Em disparada. Pareciam fugir de algo invisível. Do outro lado da rua, Alberto observava. Luigi, ao ouvir os desesperados passos, estagnou. Estava pronto para entrar em casa quando um dos estranhos tentou puxar a chave de sua mão. Por reflexo, a criança reteve o chaveiro. Ele, então, reagiu. A barriga do garoto ficou endurecida ao ser perfurada por uma faca enferrujada. Os olhos se cruzaram. Homem e menino. Os sonhos perdidos. Os desejos escondidos. Os brinquedos de ambos que ficariam para trás. Amor e ódio. Luz e escuridão. O objeto ficou cravado enquanto o assassino e o companheiro correram. O pai, sem ação, ouviu pessoas indo ao encontro de seu filho. O socorro não chegou a tempo.

Uma mão tocou o ombro de Alberto, que estava absorto. Seus dedos, agora doídos, ficaram travados. As pernas bambas. A respiração ofegante. O policial que o abordara precisava de detalhes sobre o menino e o crime.

— Podemos deixar isso para mais tarde? De que importa respondê-lo se tudo está acabado? — em respeito, o militar se afastou. Não queria interferir naquela dor. Sabia que, depois, teria mais tempo para compreender os detalhes da tragédia. Acendeu um cigarro. Não conhecia o pai do menino, mas sentia piedade e compaixão. Sua dor era indescritível. Ficou observando seus movimentos e passos em direção à esposa.

Alberto respirou fundo, mexeu os dedos novamente e se ajoelhou ao lado da esposa. Olhou ao redor. “De onde vieram estas pessoas? Eu não as notei. Por que estão todas concentradas em torno de uma história que não é a sua?”, questionava-se em silêncio. Todos se entreolhavam e pareciam macabramente curiosos. Ele captou sussurros, mas não conseguia traduzir em palavras.

“Soube que este foi o décimo caso do ano”, dissera uma senhora, de cabelos brancos enrolados em um coque desgrenhado. Luigi, agora, tornara-se número. Mais um para a estatística. Contagem progressiva que, dia a dia, assustava os moradores da região em que morava. Contagem regressiva para os pais da criança. De menino, ele se transformaria em capa de jornal.

 

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