Opiniões

Ricardo André Vasconcelos — O (P)MDB e o deserto político do Rio

 

Segundo maior mais importante Estado entre os 27 da Federação, o Rio de Janeiro tem suas principais lideranças políticas presas ou na expectativa de ir para a cadeia. Neste cenário é que se dará a eleição para o governo em outubro

 

 

Com sua cúpula trancafiada na cadeia de Benfica, o PMDB está praticamente fora da disputa pelo Governo do Estado em outubro deste ano. Seja como protagonista (Sérgio Cabral em 2006, 2010 e Pezão 2014) ou coadjuvante (Garotinho 1998 e Rosinha 2002), o partido que há décadas comanda o Estado, quem diria, afunda na lama escondida sob os tapetes vermelhos dos Palácios Guanabara e Tiradentes. Espichando o olho ainda mais atrás está lá o PMDB do então jovem e promissor Sérgio Cabral como fiel escudeiro do governo Marcello Alencar (1995-1998). Mais ainda? Nos dois governos Brizola (1983-1986 e 1991-1994), foi também o PMDB, à época nas mãos dos não menos notórios que seus sucedâneos, Gilberto Rodrigues e José Nader, quem garantiu a governabilidade e recebendo em troca espaço político para exercer sua especialidade: o fisiologismo.

Quem conhece um pouco da história do PMDB desde que ainda era apenas MDB (nascido do AI-2 que implantou o bipartidarismo no Brasil, em 1965), sabe que em suas hostes sempre conviveram políticos dos mais diversos matizes ideológicos e graduações fisiológicas. Nos tempos da ditadura civil-militar (1964-1985) os que não estavam presos, exilados ou tinham optado pela clandestinidade e luta armada só tinha lugar no MDB. Àquela altura o partido conseguia reunir ao mesmo tempo os que tinham “ódio e nojo à ditadura”, como Ulysses Guimarães; moderados da linhagem de Tancredo Neves;  radicais como Marcos Freire e até ex-arenistas convertidos, sendo o mais emblemático de todos o alagoano Teotônio Vilela. Liberal de formação, Teotônio foi eleito e reeleito pela Arena, mas sempre com diálogo e respeitado pela oposição e — oficialmente filiado à oposição — foi um dos mais importantes líderes da campanha pela anistia e um dos símbolos da luta pela “Diretas Já”, da qual não chegou a ver os megacomícios porque morreu de câncer, em 1983(*).

No Estado do Rio de Janeiro o PMDB tem um capítulo especial. Afinal, foi aqui que o partido (na época sem o “P”) “elegeu” o único governador não filiado ao partido oficial da ditadura, a Arena. Aliás, o jornalista Antônio de Pádua Chagas Freitas, alinhadissimo com o regime dos generais, foi escolhido governador por duas vezes. De 1971 a 1975 governou o Estado da Guanabara e, de 1979 a 1982 o novo Estado do Rio de Janeiro, que resultou da fusão do velho RJ e da GB. Chagas era um entusiasta do golpe de 64 e só não se filiou à legenda oficial do governo “revolucionário”, porque seu adversário paroquial, Carlos Lacerda, um dos civis mais ativos na conspiração contra o governo civil derrubado, teve a preferência. Restou-lhe o MDB, onde implantou uma fantástica estrutura fisiológica com base na grande quantidade de cargos públicos herdados da antiga capital de República, Brasília já havia sido inaugurada desde 1960, mas muitos órgãos públicos ainda funcionavam no Rio. Vem deste fisiologismo uma das expressões mais depreciativas para identificar uma prática: o chaguismo.

Sem Chagas, o fisiologismo evoluiu para a corrupção pura e simples. Assaltaram a máquina pública e não só para alojar seus cabos eleitorais. Explodiu com Cabral na esteira da lava-jato e levou de roldão os czares da Alerj que sustentaram politicamente todos os governadores desde que o novo Estado do Rio foi criado, em 1975.  A consequência disso é que o ainda maior partido do país e que foi hegemônico nas últimas décadas no RJ não tenha um nome para concorrer ao Palácio Guanabara nas eleições deste ano. Teria o ex-prefeito Eduardo Paes se o mesmo não estivesse, também, encalacrado na quadrilha de Cabral. Além disso, ser prefeito do Rio não tem sido boa credencial para disputar o Governo do Estado. Está aí o prefeito-bispo Marcelo Crivella (PRB) que chegou a disputar o segundo turno para o Estado em 2014 e foi eleito prefeito dois anos depois e sequer é cotado para concorrer de novo. O único a conseguir foi Marcello Alencar, prefeito biônico pelo PDT de 1983 a 1986 (naquela época os prefeitos das capitais eram indicados pelos governadores e não eleitos), e em 1994 foi eleito governador pelo PSDB. César Maia, que foi prefeito três vezes e derrotado outras tantas nas tentativas de governar o Estado.

Atualmente vereador do Rio de Janeiro, Maia faz o caminho inverso dos filhos de políticos que montam na garupa dos pais e pareou seu projeto político ao do filho, Rodrigo Maia, em ascendência na Presidência da Câmara e em processo de credenciamento para ser o candidato do Centro do espectro político à Presidência da República. Se engrenar sua candidatura à sucessão de Michel Temer, Rodrigo credencia automaticamente o pai para disputar o Palácio Guanabara. César Maia, aliás, está disponível para disputar qualquer cargo, porque como vereador, tem mandato até 2020 e pode entrar em qualquer aventura sem prescindir de seu bom salário pago pelos cariocas. E, no deserto de opções em que se encontra o Estado, um eventual êxito está mais próximo do pai que do filho.

Na esquerda não se vislumbra nenhuma opção. O quadro de maior visibilidade, Marcelo Freixo (PSOL) já anunciou que é candidato a deputado federal. Na outra ponta estaria uma eventual candidatura da família Garotinho (o próprio ou sua preposta esposa), mas ambos, que também passaram pelo PMDB, estão tão enrolados quanto seus inimigos, seja na “Lava-Jato”, “Chequinho” ou “Caixa D’ Água”. Na iminência de terem condenação confirmada em segunda instância, o que tornaria os dois inelegíveis, restaria a estratégia de colar suas figuras à do ex-presidente Lula que terá batalha semelhante para garantir sua candidatura para tentar voltar ao Planalto. Alguma chance é melhor que nenhuma.

O detalhe é que tanto na candidatura para o Governo do Estado quanto ao Planalto, nem Lula nem Garotinho poderão contar com o PMDB.

 

(*) MARCHI, Carlos – “Senhor República, A vida Aventurosa de Teotônio Vilela, um político honesto”. Editora Record – 2017

 

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