Opiniões

Folha 40 anos — João Luiz Faria Netto

 

Jornalista e advogado João Luiz Faria Netto

Um pequeno grande sonho

Por João Luiz Faria Netto(*)

 

Não era um ano qualquer aquele setenta e oito que anunciava o início do fim de um período duro para quem via a realidade das redações de jornal e que, do lado de fora, enganava, falso brilhante, com a alegria da classe média filha do milagre, que nunca existiu. Nenhum nem outra. De fato o ano que iniciava mostrando as primeiras dificuldades de um Estado que nascia pela fusão de coisas muito diferentes em termos sociais e econômicos e que o bom senso — de quem ainda conseguia mantê-lo — recomendava o caminho de volta, o olhar para dentro como forma de manter o que tinha sido e criar o novo. Foi o caminho de Aluysio Cardoso Barbosa e Diva Abreu Barbosa, o jornalista e a professora, que ousaram saber voltar, com um projeto gestado nas redações de um grande jornal com o olhar nunca perdido das coisas dos Campos de Goytacazes.

O ano foi surpreendente, com três papas, um campeonato mundial perdido para os argentinos — sempre eles! — uma tragédia de místicos nas Guianas, outra feita de fogo na destruição do MAM no Rio, o primeiro bebê de proveta e a morte de um cantor de multidões.  As ruas, depois do recesso forçado voltaram a cantar a liberdade e, para o bem e para o mal, surgia nas ruas do ABC paulista um operário chamado Lula.

A Folha da Manhã nasceu no tempo certo.  Campos e a região Norte Fluminense (não havia, ainda, na geografia fluminense, a invenção de sub-regiões, anúncio de multiplicação do número de municípios, no jogo político desimportante) eram o objeto permanente do trabalho de algumas das pessoas que amavam a terra descrita por José Cândido de Carvalho, começando por aqueles que acreditavam em estudos técnicos e fizeram da Fundação Norte Fluminense um centro de pesquisa social com objetivo claro de transformações. Cito alguns, com saudades, como Rubens Venâncio, Renato Faria e Nilo Siqueira. Sem esquecer, é claro, um usineiro, Evaldo Inojosa.

Vale lembrar:  jornalismo era matéria da cultura de Campos, das primeiras cidades brasileiras a ter o seu jornal.  Os tempos, no entanto, não eram dos melhores, porque as impressoras offset, modernizando a impressão e deixando na história as rotativas estavam sob ameaça da mídia eletrônica, com os telhados brasileiros sendo tomados pelas antenas de televisão e os pregoeiros dizendo que o jornalismo impresso estava morrendo. Era falso pregão, como se comprovou, e se mostra ainda agora, quando o papel do jornal — e as versões de internet —  rebatem a morte do meio com o combate pertinaz às fakes news.

A dupla que retornou estava certa. A aldeia global exigia mais atenção para o fato local, mais emoção na narrativa, maior apuro no detalhe e responsabilidade editorial. Parece receita para hoje. E é.  Eu vi nascer, um dia, o primeiro esboço do jornal, traçado pelo velho diagramador que faz parte da história da imprensa brasileira: Valdir Figueiredo, cujo humor deixava a noite de fechamento mais alegre.  O resto é história de quarenta anos bem vividos e bem administrados.

Posso dizer: um dia conheci um sonhador que deseja voltar para escrever as notícias de sua terra e tinha uma âncora que segurou os seus pés no chão às vezes quente do calor natal. Deu certo.  Um pequeno grande sonho que continua sendo sonhado.

 

(*) Jornalista, advogado e ex-editor de Aluysio Cardoso Barbosa no Jornal do Brasil

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Rodrigo Gonçalves

 

Jornalista Rodrigo Gonçalves

O aprender constante

Por Rodrigo Goçalves(*)

 

São 40 anos de contribuição para uma região que sempre teve da Folha o seu voto de confiança de que com trabalho se escreve uma história de prosperidade. Um veículo de comunicação que cresceu com a região, acredita e sempre fez o seu papel de dar a visibilidade ao interior, encarado como grande por aqueles que criaram o jornal, hoje o Grupo Folha.

Quando cheguei pela primeira vez à Folha em 2003, aos 23 anos, comecei a ter a real dimensão de quanto um veículo de comunicação é capaz de contribuir para a formação da sociedade. Na época, como chefe de reportagem, encarei meu primeiro grande desafio profissional, uma aposta do diretor de redação Aluysio Abreu Barbosa, mas que passaria a ter imenso valor agregado a partir da convivência diária de todas as manhãs com outro Aluysio.

O “Barbosão”, como era chamado carinhosamente pelos mais antigos da redação, mas que para mim sempre foi o Sr. Aluysio. Um homem que, mesmo com sua trajetória profissional de referência nacional, sempre teve a humildade de compartilhar o que aprendeu, me fazendo entender diariamente o que era trabalho em equipe e de que forma, como imprensa, poderíamos contribuir para o desenvolvimento da região, referências sempre buscadas, por exemplo, na luta pelos royalties de petróleo ou na fundação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), ambas exitosas e que a Folha deu importante contribuição. Desafios encarados até hoje, como a campanha permanente feita pelo Grupo pela manutenção da Uenf, que enfrenta a pior crise da sua história.

Com o Sr. Aluysio aprendi a nunca pensar pequeno, mas também nunca deixar de mostrar o que para muitos poderia passar como pequeno. Tudo era pauta para quem sempre gostou de ser chamado de repórter. A Folha, referenciada em Sr. Aluysio, ainda me ensina muito e é um constante desafio profissional.

 

(*) Editor-geral da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Joseli Matias

 

Jornalista Joseli Matias

Uma relação de 17 anos

Por Joseli Matias(*)

 

Minha história com a Folha da Manhã começou em 2001, quando o jornal já tinha 23 anos de estrada. Antes disso, a Folha já fazia parte da minha vida, como da vida de muitos campistas, presente em casa como referência de informação na cidade e região. Passei a fazer parte da equipe da Folha como estagiária, na Escuta, onde iniciei meu aprendizado. Depois me foram propostos vários desafios: passei pela reportagem, chefia de reportagem e, enfim, cheguei à editoria, acompanhada dos ensinamentos e apoio de Aluysio Cardoso Barbosa, sempre presente na redação, e de Aluysio Abreu Barbosa, hoje diretor de redação. Assim como eu, centenas de estudantes e jornalistas recém-formados passaram pela redação nesses 40 anos e aperfeiçoaram seus conhecimentos na Folha da Manhã, sempre comprometida com a formação de novos profissionais, mas também recheada de grandes nomes do jornalismo. E assim fez história.

Das máquinas datilográficas aos computadores, das páginas cinzas às cheias de cor, com a evolução dos projetos gráficos e o uso da internet, a Folha da Manhã sempre esteve na dianteira, acompanhando as mudanças nas comunicações para oferecer o melhor ao leitor. Em 1998, a Folha alcançou outra marca, quando lançou sua versão online. E hoje, o uso das redes sociais aproximou ainda mais o jornal da população. E é essa relação com os leitores, a confiança ao recorrer à Folha, seja para se informar ou ao sugerir pautas e fazer denúncias, que certifica o valor do trabalho.

A Folha da Manhã, desde sua fundação, se propôs a fazer um trabalho diferenciado, nas notícias cotidianas ou nos grandes acontecimentos do município, da região e até mesmo do país. Foram cerca de 20 processos eleitorais, investimentos na Bacia de Campos que mudaram a história do município e da região, grandes tragédias, enchentes e inúmeras boas revelações nas áreas política, cultural e econômica. A Folha sempre se dedicou em fazer a diferença ao levar a informação à população.

São 40 anos de trabalho comprometido com o leitor, de compromisso com o município de Campos. E nesses últimos 17 anos pude acompanhar de dentro o que antes já via pelas páginas do jornal.

 

(*) Jornalista e editora do Folha 1

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Guilherme Belido

 

 

 

Jornalista Guilherme Belido

Anos 70 — A década da Folha

Por Guilerme Belido(*)

 

A Folha da Manhã nasceu na década mais transformadora e revolucionária do século XX. No mundo inteiro, os anos 1970 foram os novos portais até então impensados e o Brasil não se acanhou ante aqueles tempos de modernidade, realizações e reformas.

‘De cara’ veio o tri da Copa do Mundo – um marco para a ‘paixão nacional’ que colocou o futebol do Brasil em patamar único. Outro orgulho, a Ponte Rio Niterói – na época lembrada como a “8ª maravilha do mundo”.

Década, ainda, em que o País deu os primeiros passos rumo à redemocratização, tempos de emancipação da mulher, de desbravamento, do encontro do romântico com o objetivo e de grande frenesi no mundo cultural e no cenário sócio-econômico.

Diga-se, uma década diferenciada não apenas por ter feito florescer os novos conceitos iniciados em 60 mas, em especial, como precursora dos valores de modernidade que iriam mudar o planeta nos 20 anos seguintes.

O leque de transformações, notadamente na cultura, confere aos anos 70 condição de divisor de águas em particular da 2ª metade do século passado.

Assim, também a Folha da Manhã, criada em 1978, absorveu essa atmosfera de mudanças sendo, em parte, fruto da metamorfose iniciada no início da década.

Fácil entender, muito embora o Brasil tenha experimentado grande desenvolvimento industrial dos anos 30 aos 50, as duas guerras e os regimes ditatoriais da 1ª metade do século inibiram os avanços sócio-político-culturais na maior parte do mundo, não sendo diferente em nosso País, que igualmente se viu refém desses entraves.

Com efeito, se os anos 50 e 60 foram de reconstrução da Europa pós-conflito, de realinhamento dos Estados Unidos perante a Guerra Fria e de instabilidade política no Brasil, – a década de 1970 foi a que rompeu as barragens e libertou os anseios sociais e culturais que se viam represados.

 

 

NOVOS RUMOS

Emancipação e revolução sexual

Vale sublinhar, até mesmo a pílula anticoncepcional, que começou a ser comercializada no Brasil nos idos de 1960, delimitando um novo comportamento que iria pautar as gerações futuras – marco da revolução sexual e emancipação feminina – precisou de considerável tempo de maturação para superar as dúvidas, a inibição e a camuflagem observada na fase inicial.

A pílula contraceptiva, muito embora uma realidade, enfrentou dilemas. Movimentos advertiam que o remédio era fruto de um complô para conter o aumento populacional de grupos marginalizados. Além disso, havia temor e desconfiança de sua eficácia (muitas mulheres tinham receio de engravidar apesar da pílula) bem como o medo de danos à saúde.

Outro fator residia num certo acanhamento moral de se chegar numa farmácia e pedir o remédio – uma espécie de rótulo, como se revelasse algo de comprometedor.

Por tudo isso, só na década de 70 a revolucionária pílula se livrou das amarras e efetivamente alcançou a extensão e os objetivos que inspiraram sua criação.

 

 

CULTURA & POLÍTICA

A anistia como pré-condição

Apesar da Ditadura Militar fortemente presente, os anos 70 foram de aguda libertação cultural, ainda que precisando driblar as botinas dos generais e fugir de seus porões.

Mais ainda, a despeito do regime, coube também à década de 70 dar os primeiros passos rumo à redemocratização que viria nos anos 80, através de sucessivos enfrentamentos e pressão que culminariam na anistia política de 1979 e no retorno ao Brasil de suas principais lideranças – primeira grande conquista que demarcou o início do fim do regime autoritário.

Antes, em 1978, o general Ernesto Geisel usaria o AI-5 – o pior dos atos institucionais da ditadura – pela última vez.  Revolução cultural – Os anos 70 responderiam, ainda, por uma nova forma de fazer música, derivada da cultura pop: a “disco music”.  Envolvente como ela só, nascia ali o empolgante som das discotecas que explodiu nas boates do mundo inteiro a partir do filme “Os Embalos de Sábado à Noite” (77) e da revolução nas pistas protagonizada por John Travolta no papel do irreverente Tony Manero.

No Brasil, a novela ‘Dancing Days’ (78), logo na sequência e em clara conexão com os “Embalos” (Saturday Night Fever) fez proliferar os espaços de discotecas de norte a sul do País.

Filmes – Num período de frenética criação artística – literária, em especial – que influenciou diretamente a vida das pessoas (afinal, “a vida imita a arte”) a produção cinematográfica não ficou atrás.

Para citar apenas 10 de uma lista interminável de grandes filmes, os anos 70 encantaram as plateias do mundo todo com ‘Operação França’, ‘O Poderoso Chefão’, ‘Maratona da Morte’, ‘Todos os Homens do Presidente’, ‘Inferno na Torre’, ‘Tubarão’, ‘Um Estranho no Ninho’, ‘Taxi Driver’, ‘Guerra nas Estrelas e ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’ –  entre tantos outros que  seja naquela época, antes ou nos dias atuais, figuram no topo do cinema mundial.

 

SAGA

Um jornal do seu tempo

De certa forma, também a Folha da Manhã assimilou um pouco de tudo da década mais icônica do século 20 e não por acaso adotou como slogan ‘ser um jornal do seu tempo’.

Sobre as inovações que o jornalista Aluysio Barbosa trouxe para a Imprensa do interior fluminense, muitas outras matérias – melhores e mais extensas – cuidaram ao longo desses 40 anos.

Contudo, como observei no modesto depoimento que escrevi para o caderno de aniversário mas que, numa falha indesculpável, esqueci de enviar no prazo e penso não tenha dado tempo de ser inserido, a Folha separou – como até então pouco se fazia – a notícia da opinião, adotando o padrão jornalisticamente correto.

Assim, pôs em perspectivas distintas: 1) A noticia, que é a comunicação do fato; 2) A interpretação, que é a qualificação da noticia através da explicação do fato; 3) A opinião, que é a orientação tendo em vista o interesse público.

As vezes, são necessárias longas matérias. Noutras, poucas palavras contam a história toda, como fez Elio Gaspari, por coincidência na década de 70, para ‘dizer tudo’ de Carlos Lacerda por ocasião da morte daquele que foi o mais brilhante líder da direita de sua geração, mas ferrenho comunista na juventude: “Carlos, como Marx, Frederico, como Engels, Werneck de Lacerda, Lacerda como só ele sabia ser, morreu ontem”.

Há 40 anos um jornalista diferenciado fundou a Folha, que nas últimas quatro décadas representa, reivindica, cobra, informa, opina e orienta.

 

(*) Jornalista e editor da página “Guilherme Belido Escreve” publicada aos domingos na Folha da Manhã

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

Folha 40 anos — Você, leitor, a única razão

 

Você, Leitor

 

Você, leitor, que pulsa

de vida e orgulho e amor,

assim como eu:

para você, por isso,

os cantos que aqui seguem!

 

(Poema de Walt Whitman, impressor de jornal e enfermeiro voluntário da Guerra de Secessão dos EUA)

 

 

(Arte de Marco Antônio Rodrigues)

 

 

Você, leitor, a única razão

Por Aluysio Abreu Barbosa(*)

 

O filme “Amistad” (1997), de Steven Spielberg, conta a história real de um navio negreiro no séc. 19. Após a revolta dos negros sequestrados da África para serem vendidos como escravos, o navio acaba dando na costa dos EUA. E lá ocorre um julgamento que levaria a questão à Suprema Corte daquele país ainda escravagista, antes da Guerra de Secessão (1861/65): os africanos eram uma “mercadoria” que deveria ser devolvida aos seus “donos”, ou homens livres capturados à força em sua terra, com direito a ser libertos e repatriados?

Foi por querer voltar à própria terra, marcada no passado pelo mesmo flagelo da escravidão, que um jornalista sonhou em fazer o caminho inverso ao da maioria dos profissionais saídos da província, após vencer num grande centro. Em 1973, ele voltou do Rio de Janeiro a Campos, na condição de correspondente especial do Jornal do Brasil (JB) — maior do país, à época. Mas Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012) sonhava mais: queria dotar sua cidade e sua região de um jornal capaz de elevá-las da condição de província.

Na função ancestral de contar as histórias da sua tribo, o jornalista sonhava fazê-lo como ninguém antes nesta terra de planície cortada e parida pelo Paraíba do Sul. No auge da Ditadura Militar no Brasil (1964/85), num tempo em que computador pessoal, internet e celular só existiam na ficção científica, ele ambicionava montar um jornal com impressão offset. Por se tratar de avanço gráfico inexistente no interior do Estado do Rio, não era pouco.

Não bastasse, tencionava a reboque profissionalizar a função de jornalista. Tirar este do comodismo passivo das redações para erguê-lo atento ao movimento dinâmico das ruas, das pessoas e dos fatos. Além, Aluysio queria introduzir em Campos conceitos da profissão que havia aprendido em sua passagem exitosa na redação do maior jornal brasileiro.

Criado na tal Guerra de Secessão dos EUA, que acabaria com a escravidão naquele país, para agilizar o envio das notícias pelo telégrafo, o lead só chegaria ao Brasil nos anos 1950, através do intercâmbio com as agências internacionais de notícia. Resumo introdutório à narrativa aristotélica de início, meio e fim, o lead deveria ser o primeiro parágrafo de qualquer matéria jornalística. Era composto das respostas às seis perguntas: Quem? O quê? Quando? Como? Onde? Por quê?

Para qualquer jornalista hoje com menos de 70 anos, pode parecer piada. Mas esse conceito que facilita de cara o acesso das informações ao leitor, não existiu desde sempre, ou universalmente. Na Campos dos anos 1970, foi introduzido por Aluysio, que o trouxe do JB. Como, por maior que possa ser a surpresa a qualquer repórter com menos de 40, ninguém sentia falta de computadores quando só havia o barulho das máquinas de datilografar.

Desde esses tempos “imemoriais”, Aluysio tinha como princípio: “jornalismo é trabalho coletivo, ou nada”. Para realizar seu sonho, disseminou o contágio entre outros: sua esposa, Diva Abreu Barbosa, uma professora de história marcada pela determinação; um publicitário visionário, Pereira Junior; um radialista apaixonado, Andral Tavares; além dos colegas de profissão que escalou para montar uma redação dos sonhos na esfera goitacá.

Enquanto ainda planejava se arriscar como dono de jornal, Aluysio teve tempo para evidenciar o que era como jornalista. Repórter diferenciado no faro pela notícia, como na obsessão de levá-la antes ao leitor, arrumou emprestado um avião para sobrevoar o oceano e romper as barreiras até físicas da Ditadura Militar. O resultado? Noticiou sozinho o primeiro carregamento comercial de petróleo na Bacia de Campos, protegido como segredo de segurança nacional.

O furo jornalístico, contado em detalhes (aqui) nas duas páginas seguintes desta edição, se deu em agosto de 1977, menos de cinco meses antes do seu autor fundar o jornal que batizou: Folha da Manhã. E com a descoberta do jornalista, fruto do mesmo sonho que imprimiu no Brasil e no mundo, a face de Campos e da região nunca mais seria a mesma.

De 8 de janeiro de 1978 até hoje, o que não mudou foi a liderança da Folha, conquistada com apenas dois meses de circulação, na mídia do interior do Estado do Rio. Posição depois ampliada com a Rádio Continental, a Rádio Jornal de Macaé, a Plena TV, a InterTV Planície — cuja sede se chama Aluysio Cardoso Barbosa — e a Folha 1, site mais acessado do interior fluminense.

O nome do grupo de comunicação, contudo, permaneceria o mesmo dado pelo jornalista: Folha da Manhã.

Quem pediu que personagens importantes destas quatro décadas dessem sobre elas seus testemunhos, faltaria com a verdade se não revelasse um momento místico — indesejado ao reportar objetivo dos fatos. Passadas a tarde e a noite da última quarta (03) na edição da saga relembrada (e celebrada) nesta edição especial, quem subiu a escada invisível entre passado e presente tomou um susto. A redação da Folha não era mais a mesma dos testemunhos, revisitados também pela retina da criança, do adolescente e do jovem que os viveu.

Em dado momento do filme “Amistad”, o ex-presidente John Quincy Adams (1767/1848), interpretado por Anthony Hopkins, usa a ajuda de um tradutor para conhecer os motivos dos africanos cuja liberdade vai defender como advogado. E ouve do líder dos amotinados:

— Eu chamarei meus antepassados. Farei um chamamento ao passado. Pedirei que venham me ajudar. Eu os chamarei para estarem aqui, agora, comigo. E eles terão que me atender. Porque, neste momento, eu sou a única razão para eles terem existido.

Há 40 anos, leitor, a única razão é você.

 

 

 

 

(*) Jornalista, poeta e diretor de redação da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Diva Abreu Barbosa

 

Historiadora e empresária Diva Abreu Barbosa

A diferença está na qualidade

Por Diva Abreu Barbosa(*)

 

Olhando para trás, vendo e relendo edições comemorativas anteriores, é quando percebemos os caminhos percorridos, nem todos lembrados, mas intensamente vividos. Começaria tudo outra vez?  Não sei, realmente… Porque antes era o sonho. Era o desejo de Aluysio ter um jornal, qual criança que pede o presente a Papai Noel e espera consegui-lo lindo e reluzente das centelhas do Natal! E junto ao seu quase devaneio, uniu-se ao arrebatador Pereira Jr, um ícone da publicidade em Campos. Assim, nasceu a Folha da Manhã, num chope gelado no inverno do Rio à rua Vinicius de Moraes. Era agosto de 1977. E da conversa entre mim, Aluysio e ele, geramos à mesa do Garota de Ipanema este jornal. Não esperamos no ventre os nove meses. Mas, apenas quatro. Pereira criava e eu ia atrás, como uma aprendiz que aplaudia o maestro ousado, destemido e sem fronteiras. A sua medida era ele próprio.

Assim, também, foi a compra da primeira morada da Folha, a segunda e a terceira. Pereira ia negociando, a gente ia derrubando as casas antigas e anexando ao primeiro lar: Carlos de Lacerda, nº 75. Da mesma forma, foi a primeira máquina que ele comprou junto com Aluysio (e não funcionou!);  a segunda, uma Heidelberg plana; e a terceira, a nossa rotativa com duas unidades Harris que foi inaugurada em 1984. Nesta, Pereira colocou a sua casa da praia  como garantia, creio eu sem que sua família soubesse.

Falar de Pereira, de sua vida, de suas irresistíveis ideias, de suas frases sensacionais, de seu  marketing sui generis em época onde publicidade era feita de favor e não se cria nela como investimento; de sua volúpia de negócios, de seu amor (ao seu estilo), pelos filhos, netos e Teresa; de sua paixão por este jornal, que nunca deixou de ser dele… é, na verdade, dizer que nossos 40 anos não poderiam acontecer sem sua marca gravada em nossa história.

Nesta hora de contrição, queria lhe agradecer  por ter sido sua aluna, amiga, parceira e fã. E posso também lhe segredar que se perdi estrelas, muitas hoje nas mãos poetas e mergulhadoras na História de Aluysinho, se perdi sangue, muito hoje no vermelho das tintas deste jornal e nos já fios pratas, responsáveis e equilibrados de Christiano, não perdi contudo a força dos guerreiros, a ousadia dos que sonham, dos que resistem a não se vender por preço nenhum, dos que têm a ética como estandarte maior, dos que abrem trincheiras por sua cidade e região a cada dia, na eterna luta pelo real crescimento de sua terra e sua gente. E que não morreu em mim o som do Pedro Pedreiro, nem a laje do tijolo por tijolo. Aliás, está aí um pouco da mística da Folha, que ventos não conseguem derrubar e cifras não conseguem construir igual.

A diferença está na qualidade. O slogan criado por você e que procuramos manter a cada dia, diz tudo.

 

(*) Historiadora, empresária e diretora presidente da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Péris Ribeiro

 

Jornalista Péris Ribeiro

Antes do começo, o início de tudo…

Por Péris Ribeiro(*)

 

De repente me vem uma história, da qual ainda guardo os detalhes. É que, bom aluno que era do curso científico do Liceu de Humanidades de Campos, o adolescente Aluysio Cardoso Barbosa vivia sendo pressionado a seguir em breve para o Rio de Janeiro. Ainda mais que só lá, na então capital da República, é que se traçaria a geometria do seu futuro — para todos os efeitos, promissor.

Poderia ele, muito bem, se tornar um advogado de renome. Talvez, um grande engenheiro. Quem sabe, médico, arquiteto… Porém, o que bem poucos pareciam atentar por ali, era para os prazeres daquele adolescente de olhar sempre observador.  Enfim, para o mundo que o atraía. Logo ele, que começara a dar os primeiros passos rumo à fase dourada da juventude.

Apaixonado por futebol, Aluysio já fora, àquela altura, campeão juvenil de Campos com o time do Clube Esportivo Rio Branco, onde se destacava no meio-de-campo. Também já vira o Fluminense, do qual era frenético torcedor, se sagrar campeão carioca em 1951, com os campistas Didi e Pinheiro brilhando intensamente. E não perdia as corridas do Hipódromo da Gávea, no Rio, pois o turfe era outra grande paixão sua.

Foi o turfe, por sinal, que acabou por aproximá-lo do jornalismo — sua maior vocação e paixão definitiva.  O mais incrível é que, o convite para escrever sobre “corridas de cavalo”, surgiu assim meio ao acaso. Feito pelo próprio Hervé Salgado Rodrigues, turfista e dono de A Notícia — à época, jornal mais popular da cidade. Foi suficiente para que o experiente dr. Hervé farejasse o admirável jornalista que surgiria pouco depois.

Dono de um estilo que primava pela técnica e pelo texto exato, enxuto, Aluysio dizia sempre que admirava os que possuíam o estilo bonito, filigranado, “que sabiam bem como fantasiar as palavras”. Porém, confessava, este não era o seu jeito. Por isso preferia os repórteres que lhe traziam a matéria “feijão com arroz. Simples. Só que sempre bem apurada. Intensa!”

Editor-geral de A Notícia em pouco tempo e, quatro anos depois, já figurando como respeitado repórter especial do Jornal do Brasil — então, o maior do país —, eis que um sonho, uma obsessão pareceu dominá-lo. E Aluysio cedeu de vez a ela, garantindo a si mesmo que daria a Campos um jornal moderno e ousado, que fosse um dos maiores do interior do Brasil.

A meta, enfim, foi cumprida. O sonho/obsessão virou realidade. E, mesmo com todos os prêmios recebidos, o mais importante talvez Aluysio recusasse. Discreto, apontaria outros que julgasse mais merecedores. Com seu característico jeito meio sem-jeito, não concordaria em ser apontado como o mais importante personagem da história recente do jornalismo campista.

Porém, eis que são os vitoriosos 40 anos da Folha que dizem isso.

E aí, como duvidar?

 

(*) Jornalista, escritor e amigo de infância de Aluysio Cardoso Barbosa

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Esdras Pereira

 

Jornalista Esdras Pereira

Aventura, sonho & realidade

Por Esdras Pereira(*)

 

Naquela manhã distante e modorrenta, de mormaço sufocante, eu jazia sentado naquele incômodo banco de madeira da antiga loja de Dib Hauaji, bem em frente ao relógio do Mercado Municipal. Do alto dos meus 14 anos, me impacientava à espera de algum serviço de fotógrafo freelancer, quando estacionou na porta da loja um fuscão ocre como gema de ovo bem passado e dele desceu um homem, tão despachado quanto bigodudo, que foi logo dizendo: “Dib, me arruma um fotógrafo aí que já não aguento mais ficar te pedindo fotos”.

Dib nem titubeou: “Leva esse aqui, que saiu da loja e está coçando o s…, é novinho, mas é bom.”

E, assim, lá fui eu viver a grande aventura de uma vida ao lado do jornalista Aluysio Barbosa, então redator-chefe de A Notícia. O melhor repórter que já conheci.

Professor/amigo/pai, ele foi me ensinando as manhas do ofício entre raríssimos elogios e generosos puxões de orelha. Tudo era novidade, uma aventura atrás da outra. Eu, adolescente, vibrava com as viagens, grandes reportagens, personagens e o seu faro para as boas histórias.

Dali para frente, Aluysio, também repórter especial do Jornal do Brasil, formalizou no JB a nossa dupla, conhecida como os “Caçadores de Primeiras Páginas”, tantas elas foram.

E as aventuras foram acalentando um sonho que nem a sua rabugice, muito menos seus penetrantes olhos verdes conseguiam esconder.

Aluysio queria mais, queria olhar acima da copa do jornalismo provinciano da planície. Queria poder fazer aqui um jornalismo moderno, sem as limitações dos antigos jornais de linotipos e clichês, e do ranço do comodismo ultrapassado.

O seu sonho foi compartilhado com Diva, que o abraçou de corpo e alma. Ela estava ao seu lado e ele ao lado dela. Logo eles foram compartilhando esse sonho com outros amigos.

Estava lançado o desafio. Não se tratava apenas de fazer mais um jornal em Campos, mas o melhor jornal da região. A semente germinou, brotou a Folha, lançando raízes profundas e caule forte. Nascia ali o primeiro jornal offset do interior do Estado do Rio. Mas o desafio não teria fim e seria sempre a nossa maior motivação.

A Folha da Manhã nasceu líder, são 40 anos de vitórias, essa a maior delas. Hoje, amadurecida, mostra-se a cada dia mais jovem. Aluysio já não está entre nós, mas o seu legado permanece através dos filhos Aluysio e Christiano, novos regentes dessa bela orquestra ao lado da mãe Diva Abreu Barbosa.

O que era uma aventura se transformou em sonho e depois realidade. E hoje nos dá o orgulho de ser Folha…

 

(*) Jornalista e colunista social da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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