Opiniões

Folha 40 anos — Alexandre Bastos

 

Jornalista Alexandre Bastos

Papel, caneta e coração

Por Alexandre Bastos(*)

 

Meu avô Antônio Bastos, que faleceu em abril de 1994, não deixou casas, terrenos, nem dinheiro. Aquele homem elegante, culto e muito educado, ensinava que existem tesouros que ninguém pode tirar de nós. “Um ladrão pode levar seu carro, seu relógio, mas jamais poderá levar a sua cultura, seu caráter e o que você aprendeu aqui”, dizia. Foi com essa filosofia que ele criou, ao lado da minha vó Elza, quatro mulheres incríveis. A mais velha, Ângela Bastos, tinha um faro jornalístico desde pequena. Curiosa, atenta e interessada pelos mais variados assuntos, fez história no jornalismo de Campos, ao produzir uma coluna social que ia além do óbvio.

Após uma passagem bem sucedida por São Paulo, ela recebeu o convite do mestre Aluysio Cardoso Barbosa e retornou ao município de Campos para atuar ao lado de grandes profissionais na Folha da Manhã, veículo que revolucionou o jornalismo impresso da região no final da década de 1970. A impressão que eu tinha, desde pequeno, era que a Folha se tornou uma espécie de irmã mais nova da minha tia.

Se estávamos em Atafona, comendo um peixe durante o verão, ela se levantava e dizia: “Não posso ficar porque a Folha me espera”. Se alguém, durante uma festa, contava algo interessante, ela corria para pegar o bloquinho e a caneta. “Vai render uma nota ótima para a Folha”.

Bem pequeno, lembro de uma visita que fiz ao jornal e pedi para conhecer a redação, naquela época ainda com máquinas de escrever e aquele barulho inconfundível. E naquele dia entendi porque ela não parecia muito contente nos finais de semana na praia. Afinal, a praia dela era ali. Os olhos brilhavam e caminhava pela redação conversando e dando palpites sobre todas os assuntos. Naquela época, tia Ângela já perguntava se eu não gostaria de ser jornalista. Sem pensar duas vezes, respondia: “Meu sonho é ser jogador de futebol”.

Mas o tempo passou e um velho ditado, repetido muitas vezes pela minha tia, passou a fazer sentido: “quem sai aos seus não degenera”. Em 2004, quando a Folha tinha 26 anos e eu 22, tive o meu primeiro artigo publicado no jornal. Um ano depois, fiz a minha estreia como repórter na Folha Nessa época, tive o privilégio de trabalhar ao lado da minha tia e percebi que a praia dela virou a minha.

E se não deu para virar jogador de futebol, fica fácil fazer uma analogia. Joguei na Folha ao lado de grandes craques, das mais variadas gerações, entre eles Aluysio Cardoso Barbosa, Aloysio Balbi e Aluysio Abreu Barbosa, meu grande incentivador. A Folha da Manhã, com tudo que me proporcionou, aprendizado e amizades, me fez entender que o velho Antônio Bastos estava certo quando dizia que os nossos tesouros mais importantes são intocáveis.

 

(*) Jornalista, ex-editor de Política da Folha da Manhã e chefe de gabinete da PMCG

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Martinho Santafé

 

Jornalista Martinho Santafé

Histórias de Kapi e Bolinha

Por Martinho Santafé(*)

 

Iniciei no jornalismo em 1970, em Niterói, no auge dos “anos de chumbo”. Em janeiro de 1974, quatro anos antes da primeira edição da Folha da Manhã, e semanas depois de retornar ao Brasil após um exílio “voluntário e sugerido” pela América Latina, comecei a trabalhar no jornal A Cidade, de Vivaldo Belido. Por pouco tempo, pois recebi convite para montar um atelier de artesanato em Duas Barras com um companheiro de viagem. Dois anos depois estava novamente nas trincheiras do jornalismo.

O retorno a Campos ocorreu em maio de 1977 para chefiar a sucursal de O Fluminense, com Fátima Lacerda e Giannino Sossai. Meses depois, soubemos que um novo jornal seria criado e fomos convidados por Aluysio Barbosa e Diva Abreu para participar de algumas reuniões. Com a experiência e o prestígio de muitos anos como correspondente do Jornal do Brasil e já em negociações para adquirir uma offset. Incentivado por Diva, Aluysio estava arriscando em uma aposta que iria ganhar.

A Folha da Manhã nasceu em um período economicamente singular para Campos, justamente durante a transição da agroindústria açucareira para a indústria do petróleo. Embora atividades produtivas tão distintas, o jornal soube conviver bem com elas graças à credibilidade de sua linha editorial definida pelo mestre Aluysio.

No início de 1980 fui convidado para ser o editor da Folha. Das muitas recordações desse período,  certa tarde, Kapi apareceu na redação com um novo poema: “Canção Amiga”. Li, passei ao Celso Cordeiro, que era colunista social, e sugeri: “Publica”. Foi, talvez, a primeira e a última vez que um poema ocupou todo o espaço de uma coluna social em Campos.

Também naquele ano o marginal “Luiz Gordo”, nascido em Campos e “amadurecido” nas favelas do Rio, aterrorizou a cidade com o seu bando, assassinando em Grussaí um rapaz conhecido e sequestrando sua namorada. Já libertada, a jovem foi prestar depoimento na delegacia. A cidade só falava do caso. No meio do fechamento da edição, Antônio Carlos Paes chega com a matéria, mas não tínhamos a foto. Quase surtei…

No mesmo dia, véspera de Finados, havia pautado para um estagiário e radialista conhecido como “Bolinha”, uma matéria sobre os preparativos no Cemitério do Caju. O texto era bom e as fotos excelentes. O que fazer para a primeira página? Escolhi uma foto vertical em quatro colunas, com forte carga emotiva — na lápide de mármore, um anjo erguia os longos braços em direção ao céu —. a chamada de Finados sob a foto e a seguinte manchete na parte superior da capa: “Fulana de Tal depõe em prantos”. A edição esgotou e teve que ser reimpressa várias vezes.

“Bolinha”, então um estagiário bastante promissor, virou Garotinho e deu ruim.

 

(*) Jornalista e ex-editor-geral da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Antunis Clayton

 

Jornalista Antunis Clayton

O Palmeiras me levou para a Folha

Por Antunis Clayton(*)

 

Existem teses que falam da possibilidade de os seres humanos nascerem com determinadas paixões já impressas no DNA. Gente que nasce com a música no sangue, com o futebol no sangue, com o teatro no sangue. Enfim, se é fato ou não, deixo para a ciência o debate. O velho Francisco Santana, pai do meu pai, avô que não cheguei a conhecer e de onde tirei o Francisco pra formar o nome composto do meu neto Miguel Francisco, gostava muito de rádio. Papai relata que, num tempo em que o rádio era presente em poucas casas, na casa dele já havia um. E vovô se enchia de prazer na fidalguia àqueles que lá iam para ouvir os programas musicais.

Pode ser que eu tenha herdado dele a paixão pelo rádio e pela comunicação, mas também acredito que isso pode ter se dado por uma mecânica de aproximação a outra grande paixão. Eu tinha oito anos, em 1974, e vi pela televisão, uma partida de futebol. De um lado estava um time que tinha na sua formação Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei. Eu não tinha estudado geografia o suficiente pra me sentir obrigado a não me apaixonar por um Palmeiras (se dependesse só de mim voltaria a se chamar Palestra Itália) encravado no outro lado do mapa. E se tivesse estudado, meu bom gosto daria um pontapé no traseiro da geografia.

Como não vivíamos esse tempo de TV por assinatura com canais especializados em esporte, tive que recorrer ao rádio, àquelas emissoras de ondas curtas, com seu tradicional chiado. Sobretudo à noite, procurava ali as informações do Palmeiras. E me apaixonei pelo rádio sério e dinâmico de São Paulo.

Assim, em fevereiro de 1993, eu era contratado como repórter da Rádio Continental de Campos (AM 1270), realizando um sonho de criança. Entrava, assim, numa casa que aprendi a admirar, respeitar e ser grato, o Grupo Folha da Manhã. Dois anos depois, pelo jornalista e amigo Luiz Mário Concebida, chego à redação do jornal para atuar na editoria de Esporte, sendo contratado pelo jornalista Aluysio Cardoso Barbosa. E me orgulho pelo quilate do contratante, que como eu, em Campos, nutria amor pelo Clube Esportivo Rio Branco.

Aluysio Abreu Barbosa, seu filho, acabara de assumir a editoria geral da Folha, onde ficou por cinco anos, antes de ser diretor de redação. Amigo, parceiro, sempre apostando e abrindo portas àqueles que chegavam. E eu, mergulhava em todas as portas abertas. Foram muitos projetos e experiências que me fizeram crescer, com erros e acertos: Folha Dois, Folha no Ar, A Hora e a editoria geral, além dos projetos de vídeo na companhia de Kapi e Yve Carvalho.

A Folha da Manhã sempre foi uma grande escola; e comigo não foi diferente.

 

(*) Jornalista, radialista e ex-editor-geral da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Folha 40 anos — Igor Siqueira

 

Jornalista Igor Siqueira

A ex do garoto de 17 faz 40

Por Igor Siqueira(*)

 

Foi na reta final de novembro de 2007 que um garoto de 17 anos entrou em um relacionamento sério com uma já famosa e renomada “jovem senhora” de 29 anos. Ao mesmo tempo em que era exigente, essa “mulher empoderada” acabou se mostrando muito receptiva, deixando o mancebo (como diria o professor Fernando da Silveira) muito à vontade no dia a dia. A diferença de idade não evitou que a relação desse certo. Foi eterno enquanto durou — pouco mais de um ano e meio —, mas aquele enlace de curto período (se comparado aos 40 anos que a Folha da Manhã faz neste 8 de janeiro de 2018 e os 27 que estou prestes a completar no dia 19) foi o suficiente para deixar como frutos muito aprendizado, amizades e uma pontinha de saudade.

Cheguei para ser estagiário da escuta, pegando informações das cidades vizinhas a Campos e ligando para bombeiros e polícia em busca de “ocorrências de vulto”. Mas me deram “corda”. Contando com a parceria de muita gente boa, passei rapidinho pela editoria de Geral (lembro-me de uma matéria sobre ambulâncias abandonadas em um depósito da Prefeitura…), fiquei um “tempão” no Esporte (o Goytacaz não subia por nada, mas o Americano ainda estava na elite do Carioca…) e aí aterrissei no site: www.fmanha.com.br. (hoje, Folha 1) Eu me lembro muito bem da propaganda na televisão: “Folha Online. Seu mundo em tempo real”. A Folha tinha entrado em um processo de evolução que continua até hoje: o desafio de informar com a rapidez que o jornalismo atual demanda, unindo precisão e responsabilidade que o jornalismo desde sempre exige. Era necessário um choque cultural para inserir na rotina da reportagem, por exemplo, o envio de fotos pelo celular e a ligação para passar a informações das matérias, até mesmo abrindo mão do furo na edição impressa. Em tempos em que Whatsapp nem sonhava em nascer, isso não era tão simples. E lá estava eu, batendo ponto na rua Carlos Lacerda, 75. Um privilégio.

A Folha foi, é e sempre será uma escola. Editorialmente, a lição diária sempre foi não aceitar as coisas como elas estão. Em várias escalas. Isso vai desde o buraco na rua de um bairro distante até uma eventual falha administrativa do poder público. Como escola, na Folha já passaram e ainda estão muitos professores. A começar pelo fundador, Aluysio Cardoso Barbosa. Foram muitas manhãs acompanhando pela TV a sessão da Câmara de Campos, enquanto o patriarca da família Folha batia as notas do Ponto Final. E foram muitas outras jornadas “sugando” experiência de outros mestres que passaram pela redação e que transpuseram a qualidade jornalística para as mãos do leitor (no papel e no site). Um timaço.

Precisei seguir outros caminhos. O meu casamento com a Folha foi interrompido em 2010 (mas ainda acompanho minha “ex” pela internet). De qualquer forma, continuam a torcida pelo sucesso e a alegria por ter feito parte dessa história. Que se multipliquem os 40 anos.

 

(*) Jornalista do Lance e ex-editor de Esporte da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Vanessa Henriques — Para não esquecer as Meninas de Guarus. E todas as outras

 

 

 

Começamos 2018 e discussões sobre o caso Meninas de Guarus ganham novo fôlego nas redes sociais. Isso porque um dos condenados no caso ganhou os noticiários nacionais por ser o deputado suplente que assumirá a vaga da deputada federal Cristiane Brasil, recém-indicada para ser a nova ministra do Trabalho do governo Temer. Desde então, inúmeras pessoas expressaram sua indignação diante do fato de muitos dos condenados terem sido soltos após a decisão da juíza Daniela Barbosa Assunpção e tiveram sua crença reforçada de que, no Brasil, a justiça está longe de ser cega.

O caso chocou todo o país por ser incrivelmente abjeto: crianças e adolescentes eram mantidos trancafiados numa casa em Guarus, obrigados a fazer programas e a consumir drogas pesadas. Mais de uma criança desapareceu e as informações que podem ser encontradas na internet sobre este detalhe do caso são parcas e imprecisas. As testemunhas apontaram que homens de prestígio de nossa cidade contribuíam com a manutenção da rede de exploração sexual infantil e pagavam para fazer sexo com as crianças que eram mantidas entorpecidas e escravizadas. Inúmeros “homens de bem”, “pais de família”, procuravam crianças para satisfazer seus desejos sexuais, colocando a satisfação de seu prazer doentio acima da dignidade da pessoa humana, dos direitos da criança humana de ser protegida das perversidades do mundo. Como podemos classificar aqueles que conseguem ter prazer violando meninas e meninos vulneráveis? Diante desse caso, me faltam palavras.

É verdade que a defesa dos condenados aponta algumas contradições no caso, que dão margem a diferentes versões sobre a história. Sejam os culpados quem forem, fato comprovado é que tamanha bestialidade ocorreu no nosso município, bem debaixo dos nossos narizes e muitas meninas e meninos tiveram suas vidas marcadas para sempre. Sejam os culpados quem forem, é justo que os detalhes opacos do caso sejam tornados transparentes para toda a sociedade. Que sejam esmiuçados, debatidos. Que as provas materiais sejam expostas; que os provados culpados não sejam esquecidos.

Como será que se sentem hoje essas crianças que foram abusadas no final da última década? Que chagas profundas carregam consigo? Tiveram filhos? Consideram-se felizes? Sentem medo? Choram quando ninguém está olhando? E quantas outras meninas e meninos estão sofrendo hoje desse mesmo mal, sem poder pedir proteção do Estado ou de um adulto confiável? Dói pensar nessas questões.

Nas últimas semanas também tivemos notícia de outras meninas e mulheres que foram mortas por homens que foram seus companheiros. Stefhani Brito, de 22 anos, foi morta em Fortaleza e teve seu corpo jogado às margens de uma lagoa. Seu ex-companheiro ainda carregou seu corpo inerte e cheio de hematomas na garupa de sua moto pela cidade. Familiares contaram que a jovem já tinha se mudado de cidade para escapar dos abusos do homem que amara. Simone Lanzoni, de 46 anos, foi morta pelo namorado dentro de casa, em Sorocaba. Sua filha escreveu um depoimento comovente nas redes sociais: “Mais uma mulher foi morta por um homem covarde com uma arma na mão. Logo ela. A minha mulher. A mãe do Lucas e do Gustavo. E ninguém teve a chance de se despedir”. Em Pernambuco, Remís Carla foi morta pelo namorado que a enterrou perto de casa e pedia ajuda nas redes sociais para que pudessem encontrá-la. Em Campos, os assassinatos de duas mulheres estão sendo investigados, tendo como principais suspeitos homens com os quais elas se relacionaram. Uma delas chamava-se Rhudylla de Macedo Lourenço, que tinha apenas 16 anos e deixou um bebê de 1 ano.

O Brasil é o quinto país com maior taxa de feminicídios do mundo. De acordo com o balanço de denúncias colhidas pelo Disque 100, canal para relatar casos de violação de direitos humanos, o Brasil somou pelo menos 175 mil casos de exploração sexual de crianças e adolescentes entre 2012 e 2016, o que representa quatro casos por hora.

Os criminosos são fruto da sociedade em que vivemos. Agem guiados por valores, noções, desejos que são socialmente compartilhados, socialmente condicionados. Existe todo um processo de aprendizagem que forma esses homens que acabam se tornando agressores, assassinos e estupradores. É preciso que consigamos desconstruir esses valores, promovendo uma “desaprendizagem” ou uma nova aprendizagem que inculque novas noções, novas maneiras de perceber as mulheres e as meninas, novas maneiras de entender o que é ser homem na sociedade em que vivemos. Não é deixando de discutir sobre esses temas com nossos jovens que iremos fazer desse mundo um lugar melhor.

Que debatamos, incansavelmente. Para não nos esquecermos das meninas de Guarus. E de todas as outras.

 

Guilherme Carvalhal — Romance em Sol Maior

 

 

 

Calor de rachar. Radiador estropiado. Garganta tá seca. Mangueiras imploram água. Vira a ignição. Tosse, estrepita, morre. Motor arriado. Sai um vapor lá de dentro. Ficamos no nada. O caminhão imóvel. O vento também. Nenhuma brisinha refresca. Mormaço torrando com vagareza.

Sô Nonato. Mora cá perto. Sítio decadente. As vacas magrinhas. O pomar moribundo. Umas goiabas sem sumo. Um açude desértico. Terra rachada. Metia nela estrume. Mijo de égua. Nada resolvia. Os troncos caíam. Sobrava caruncho. Folha escasseava.

Palmas à porteira. A menina atende. Doçura de moça. Vestido de estampa. Aquele jeito quieto. Mãos um tanto tímidas. Fala truncada. Responde monossílabos. Sim. O pai tá. Vou lá. E vai chamar. Caminha em pulos. A barra esvoaça. Minha respiração ofega.

O velho vem. Passos lentos. Igual ponteiro de hora. Alpercata arrastada. Sola cheia de areia. Mastiga fósforo. Cospe saliva minguada. Mão calejada. Olhar um bocado perdido. Pensa de tudo. Gente diferente. Ele estranha. Queria a espingarda. Ladrão se expulsa. Preferencialmente à bala.

Que que cê deseja? Água, senhor. Caminhão enguiçado. Lá acima da estrada. Vamos pra Minas. Carregamos madeira. Dessas de lenha. Que acendem caldeira. Somos honestos. Motoristas. Somos da Santa Clara. Filhos do Amílton. O criador de porcos.

Faz feição cordial. Amigo antigo. Destranca a porteira. Podem entrar. Lá atrás. Anda uma légua. Passa um riacho. Até tem peixe. Pouco, tilápia, traíra. Tudo morre rápido. Girino definhado. Pardal sem pouso. Uma desgraceira só. Fica à vontade.

Me vou sozinho. Tadeu retorna. Planeja mexer mais. Tentar de novo. Às vezes pega no tranco. Levo o garrafão. Corto volto pela casa. Antena parabólica. Galinheiro. Um cão sarnento. Um carro velho. Tudo sempre igual.

O caminho dista. Não esperei esse tanto. Sol bate forte. Quase nocauteia. Suor em bicas. Desce cachoeira. Olhos salgados. Reflexos cegantes. Tateio com os pés. Caminho se perde. Danação.

Barulho d’água. Rocia nas pedras. Lembra um canto. Me esbaldo. Caio de cara. Boca alivia. Esôfago amornado. Sangue refeito. Rins filtrados. Lavo o rosto. Molho os cabelos. Esfrego a barba. Poeira vira lama. Me esfrego. Renasço.

Um barulho diferente. Não é pio. Nem coaxar. É música. Um rádio. Melodia de viola. Cantoria afinada. Palavras de amor. Arranjos toantes. Dó, sol, lá, mi, dó. Conta uma história. A mulher se vai. Ele fica. Coração em pedaços.

A moça se achega. Vexada. Escondida do pai. Meteu-se fora na surdina. Ele cochilava. Manso feito cabrito. Curiosa comigo. Mal sabia porquê. Aquelas dúvidas apoquentadas. Seguiu na coragem. Uns desmandos desvairados. Só seguiu adiante.

Apeteceu-lhe estar comigo. Brandamente desatinada. Sentada ao lado. Na grama mesmo. Solas na água. Dedos molhados. Esmalte descascado. Choque térmico. Frio subiu a espinha. Tremeu toda. Sorriu.

Não entendi. Me afastei. Sou respeitador. Nunca bulo. Filha de família direita. Pai com ombridade. Longe de mim. Chego ao lado. Ela acompanha. Insiste. Carece um toque. Um roçar de pele. Contato de dedos. Quentura dérmica.

Me aguento. Não devo. Quase criança. Cheiro de leite. Se diz mulher. Pegaram-na na baia. Um certo Quinho. Colhedor de tomate. Bonito, mas bruto. Grande, mas infantil. Ela queria homem. Desejava arder.

Levo-me em suas palavras. Dois corpos deitados. Uma preocupação conjunta. Um bisbilhotar curioso. Fofocas correndo. Um pai em fúria. Tiros. Temperamos com medo. Afrodisíaco. Ela se despe. Recebe raios solares. Reluz nua. Deita-se em mim. Juntos em ebulição.

O rádio prossegue. Toada contínua. Dita o ritmo. Movimentos de baile. Praticamente uma dança. A do acasalamento. Entrecruzamento. Passos deitados. Lento. Larghetto. Andante. Allegro. Presto. Regozijo. Estertores expressos. Espasmo aprazível. Fim das contas. Fim das forças.

Saio às pressas. Ela permanece. Lânguida. Meio desfalecida. Desfeita sem fôlego. Imanações do céu. Prisma concentrado. Exclusivamente nela.

Tadeu me aguarda. O caminhão ainda morto. Despejamos água. Vapor sobe. Ele pega. Treme todo. A moça aponta. Lá de longe. Esbaforida. Lançou um último olhar. Quis marcar-me a fogo.

 

Ricardo André Vasconcelos — Rafael Diniz e o perigo do “tanto faz”

 

Rafael Diniz: com a casa arrumada, duros cortes feitos nos programas sociais e melhor arrecadação, é hora de mostrar se tem projeto político ou de poder

 

 

As previsões dos derrotados de 2016 redundariam em mero despeito de mau perdedor se o atual governo municipal conseguisse encerrar seu primeiro período do quadriênio com as treze folhas do funcionalismo 100 por cento quitadas. Bateu na trave. O candidato à pitonisa da Lapa alardeava que a bancarrota não passava de maio; adiou o fim do mundo para julho e depois outubro. Dezembro chegou e, a despeito das críticas que se pode e deve fazer ao governo do prefeito Rafael Diniz, com os servidores ativos e inativos com os salários em dia, mas apenas com parte do abono de Natal. Nada mal para uma equipe nova, que herdou uma administração quase falida, pouco mais da metade do orçamento executado no ano anterior e uma dívida assustadora que ameaçava devorar, mensalmente, até 30% dos minguantes royalties pelos próximos anos.

Criado em 1962 pela lei 4.090, de autoria do então senador trabalhista Aarão Steinbruch e sancionada pelo presidente João Goulart, o décimo terceiro salário é um incremento na economia de final de ano e adquiriu caráter de “boia de salvação” para milhões de trabalhadores que têm, no salário extra, a chance de saldar compromissos acumulados durante o ano ou financiar algum regalo para si e suas famílias. Se para o trabalhador é um direito adquirido, para o empregador é um indicador de como vão finanças. Que o digam os servidores de alguns estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, entre outros, e agora, os de Campos dos Goytacazes, que ficaram a ver navios.

A grande vitória da gestão Rafael Diniz foi conseguir, na Justiça, limitar em 10% o pagamento dos empréstimos contraídos pela dupla Rosinha & Garotinho com a antecipação dos royalties. Aliás, essa limitação consta não só no projeto de lei em que a Câmara Municipal aprovou o empréstimo, como a base de Resolução do Senado que alicerçou juridicamente a transação financeira com a Caixa Econômica Federal. Com a decisão, ainda liminar, da Justiça, o município desembolsou cerca de R$ 50 milhões para abater a venda do futuro em vez dos cerca de R$ 200 milhões se prevalecessem as condições assinadas pelo governo passado.

Com a dívida resultante da venda do futuro, razoavelmente equacionada, duros cortes de despesas em programas sociais, redução de salários de cargos comissionados, entre outras medidas saneadoras, o governo chega ao seu segundo ano com melhores perspectivas, a começar com previsão de arrecadação de R$ 2 bilhões nos próximos doze meses. Daí que a constatação matemática é inevitável: com os cortes nas despesas e contenção quase total nos investimentos, o governo Diniz terá em 2018, proporcionalmente, quase o mesmo cenário do último ano de Rosinha & Garotinho e consequentemente será preciso reciclar os argumentos para justificar a falta de ações efetivas, especialmente nas áreas mais sensíveis como Saúde, Educação e Transportes.

Além disso, o quadro ganha contornos positivos ou negativos — depende de onde se olha — quando se constata que há muitos anos (ou décadas), não tínhamos uma administração municipal tão afinada com o poder central, seja com a Presidência da República ou Câmara dos Deputados. Portanto, esse segundo tempo do quadriênio Diniz que começou dejahojinha, como dizemos na Baixada Campista, será mais intenso de cobranças do que visto no ano passado. E, como ano eleitoral e diante do anúncio que o “grupo político” do prefeito sonha eleger um deputado federal e dois estaduais, há expectativa é que a energia e recursos acumulados no difícil 2017 apareçam como realizações em 2018.

O risco é que tudo redunde num projeto de poder que simplesmente substitua o que foi derrotado, o que deve levar o eleitor/cidadão a apertar o botão do “tanto faz”. Afinal, se é para manter o mesmo esquema de compartilhar o poder entre um grupo que vai elegendo amigos e retroalimentando as mesmas lideranças a cada eleição sob o argumento de que há um projeto político, quando na verdade o projeto é de poder, realmente tanto faz.

 

Orávio de Campos — Poderes Antagônicos

 

 

 

Há uma citação de domínio público dando conta de que “não se deve criar polêmicas com pessoas que usam saias” — mulheres, padres e juízes —, sob pena de perdermos as demandas, sejam elas justas ou não, porquanto, no final, pode prevalecer a vontade das mulheres, porque choram; dos padres, porque doutrinam; e os juízes, porque têm nas mãos os segredos da aplicação das leis — quase sempre frias diante da dinâmica e da expressividade do direito, em suas nuances sociológicas.

O antagonismo entre jornalistas e juízes possui uma série de exemplos s desde o “Correio Brasiliense”, de Hipólito José da Costa, em 1808, editado em Londres, logo após a chegada de D. João VI ao Brasil fugindo da saga de Napoleão. E isso resulta de discussões sobre o direito de opinião, como prática jornalística, e do julgamento de juízes que, em tese, no exercício do poder coercitivo, interpretam a legislação à luz de conceitos quase sempre punitivos para os profissionais da imprensa.

Para ilustrar, citamos o processo contra o Ouvidor Japiassu, em São Paulo, em 1830, acusado da morte do jornalista Libero Badaró, abatido a tiros porque ousou em tecer críticas à administração de Pedro I, embora os jornais da época, os chamados observatórios, dessem conta de ter sido sua majestade o mandante do indigitado crime contra o jornalista. Levado à julgamento, foi ele absolvido pela justiça sob o argumento torpe “de que não se podia falar da figura divina do imperador”.

Citaria, se necessárias, inúmeras condenações de jornalistas ao longo da história da tardia imprensa tupiniquim — o que se pode ser aclarado com a leitura do livro do Dr. José Marques de Melo, “Imprensa Brasileira — Personagens que Fizeram a História”, com destaque para Cipriano Barata, autor das chamadas “Sentinelas da Liberdade”, talvez o primeiro grande empreendimento nacional pelas liberdades de expressão da história desta país, em busca da consolidação de seus rasgos democráticos.

Pessoalmente, tivemos um embate com a justiça de Miracema, diante de um artigo de natureza ingênua publicado pelo editor Avelino Ferreira, na última década do século passado, fatos devidamente imortalizados no livro do repórter Thiago Freitas, “Opinião e Crime”, (Editora Marka, 2013). No jornal “Três Estados”, de Laelson Barros, referindo-se ao prefeito Gutemberg Damasceno, disse que o mesmo, por causa da idade e pelo fato de se encontrar adoentado, deveria se aposentar da política e etc…

Avelino, nos processos, colocou-nos como testemunha de defesa e foram inúmeras as vezes que o juiz de Miracema, amigo do prefeito, marcava as audiências no Fórum da cidade do Noroeste e, na hora, dava última forma, deixando-nos com a cara de tacho tendo que enfrentar a lotação da Empresa Brasil na viagem de volta. Certo dia, solicitamos, através do advogado e amigo Maurício Monteiro, o direito de depor em Campos, por precatória, o que, na realidade, não adiantou muita coisa quanto ao nosso intento de proceder, tecnicamente, à defesa do direito de opinião do jornalista

Numa única audiência, por precatória, o juiz de Campos perguntou: “O que o senhor sabe sobre este caso? ”. Disse que se tratava de uma queda de braço entre o juiz de Miracema e o editor do Jornal “Três Estados” e que, na defesa, ficamos impedidos de apensar ao processo uma análise sobre o artigo esclarecendo que, de forma nenhuma, atentava contra a honra do prefeito. Num esgar de ódio, o meritíssimo (?) fez um discurso arrogante dizendo que “juiz não joga quebra de braço com jornalista”. Ato seguinte encerrou a audiência, porque nada mais foi dito e nem perguntado.

Aliás, por um cochilo das lideranças da Fenarj à época, a elaboração da Constituição de 1988 apertou cada vez mais a chamada “Lei da Imprensa”, criando-se, inclusive, o que Zuenir Ventura denominou de Indústria das indenizações, inclusive atingindo jornalistas e proprietários de empresas, principalmente políticos apanhados diante de falcatruas com o dinheiro público, o que está na moda. E seria bem pior se nos processos inexistissem as investigações do Ministério Público Federal.

Thiago cita, em epígrafe, no seu livro, o texto do antropólogo Roberto da Matta: “No Brasil, entre a lei que diz que não pode e o amigo que diz eu quero, a gente atende o amigo e dá um jeito na lei”. Há uma correlação subjetiva dessa citação com o juiz eleitoral de Campos e o ministro Gilmar Mendes, do TSE, envolvendo a família do ex-governador Anthony Garotinho, um político/comunicador que gosta (e tem pago caro por isso) de expor o que pensa, sem se preocupar com o antagonismo que envolve as questões. No momento, ninguém se arrisca a apostar numa decisão lógica nesse jogo de poderes.

Finalmente, para se brigar contra os que usam saias, nada aconselhável o enfrentamento com alguns juízes arrogantes que condenam; e com poucos padres que, pelo verbo, excomungam. Nesse caso, melhor mesmo é enfrentar as mulheres, porque elas choram. E se choram, mantém, ainda, a sensibilidade pródiga de quem, em algum momento, vão saber como julgar. E perdoar, sem nenhum antagonismo.

 

Fechar Menu