Opiniões

Guilherme Carvalhal — Amor póstumo

 

 

 

Às 23h03, Renata e Maurício entraram em uma conversa pelo Whatsapp. Assuntos frívolos: uma música da moda, um vídeo do YouTube. Às 23h44 Renata mandou uma risada — kkkkkk — e Maurício não respondeu. Ela considerou que ele dormiu com o celular na mão, então virou para o lado e o sono chegou.

Às 8h17 ela despertou e logo checou o celular. De cara, uma mensagem de Cecília, irmã de Maurício — ele teve um infarto fulminante naquela noite. Passou mal na cama, saiu correndo pelo corredor do prédio atrás de ajuda e caiu em frente ao elevador, onde um vizinho o achou já morto.

Assustada, ela abriu sua tela no celular. Releu como se ali encontrasse alguma explicação para essa perda. Ou como se, através dessa realidade digital, pudesse estabelecer contato com ele.

O peso maior foi o de imaginar a si mesma como a última companhia, mesmo virtual, da vida dele. Pensou nos moribundos no hospital e seu último suspirar de mãos dadas com os entes queridos. A imagem que levariam para o além seria dessa conexão redentor. Então ela estaria nessa memória eterna de Maurício, a despedida do mundo físico, o elo final precedendo a partida.

Ela compareceu ao velório sentindo-se especialmente ligada a ele. Manteve-se quieta observando o choro dos parentes, ela própria engolindo a inesperada angústia formada por esse enlace inesperado.

Conhecia Maurício há tempos, mas não se consideraria uma grande amiga sua. Papeavam esporadicamente, normalmente futilidades, sem trocarem intimidades. Apenas essa situação inusitada criaria um vínculo mais profundo.

Dali em diante, Renata se habituou a constantemente repassar as conversas com Maurício. Sua saudade se expressava nessa busca por sentidos avulsos naquelas frases, nas indicações de filmes, nas histórias de bar que contava. Tudo ganhava um significado novo.

Despertava um sentimento nunca visto antes. Sentiu uma vontade repentina de tocá-lo, de estar ao seu lado. Vasculhava suas fotos nas redes sociais e conjecturava como seria debruçar em seu braço nesses momentos.

O sentimento aos poucos se converteu em obsessão. A todo momento ela pensava em Maurício. Dirigindo, trabalhando, tomando banho, aquela efígie aparecia do nada, tirando sua concentração, sugando suas energias. Ela precisava pegar seu telefone, reler e divagar como estariam caso ainda estivesse vivo.

Em uma madrugada de insônia, deparou-se imersa em lembranças e fantasias. Levantou e sentou na sacada. Relia pela milésima vez aquela série de diálogos e esses textos não mais supriam sua carência. Beirava o desespero.

Olhou para baixo. Nove andares até o chão. Era hora de dar um basta. Jogou seu celular de lá de cima, rompendo em definitivo essa relação quimérica.

 

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