Opiniões

Guilherme Carvalhal — O ano em que não teve carnaval

 

 

 

Então, como se todo mundo houvesse combinado, os brasileiros decidiram que naquele ano ninguém pularia carnaval.

Nos dias de festa, todos se empenharam a trabalhar com afinco. Não se viu pelas ruas pessoas bêbadas, se beijando, urinando pelos cantos. Nenhum indício de briga ou qualquer violência foi registrado. O que aconteceu foi o amplo concentrar em suas tarefas, em uma dedicação única com suas atividades.

As madrugadas ganharam contornos pacíficos e silenciosos. As famílias dormiram cedo e pelos bairros apenas o barulho dos cachorros e do vento cortando os prédios foi ouvido. Nem os bares receberam movimento e as pousadas não tiveram hóspedes.

Ao invés de blocos nas avenidas, os antigos foliões saíram em protestos civilizados, cobrando saúde, segurança, educação. Todos levavam faixas com reivindicações. O Hino Nacional Brasileiro foi executado no lugar de músicas para balançar a bunda.

Aquele trabalho árduo de montar carros alegóricos e de construir fantasias se converteu em ampla ação social. Essas pessoas reformaram escolas, consertaram equipamentos hospitalares, pintaram sinalização no asfalto, construíram rampas para os cadeirantes. Uma nova espécie de sinergia incipiente se manifestou.

Na televisão, no horário da transmissão dos desfiles, a programação contou com conteúdo educativo. Foram transmitidos documentários debatendo política, economia, sociedade, tudo na intenção de aumentar a conscientização da população.

As rádios dedicaram seu horário a música mais sofisticada, sem abrir espaço para os típicos hits carnavalescos. Tocaram sinfonias, jazz, sonoridade de muitas décadas passadas.

As cidades turísticas substituíram os shows e os trio elétrico por teatro e apresentações artísticas. Os logradouros público contaram com peças de Shakespeare, de Sófocles, de Dias Gomes.

Na quarta-feira de Cinzas, todos concluíram que nenhuma alteração substancial de fato decorreria dessa decisão e sonharam avidamente com o retorno da folia no ano seguinte.

 

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