Opiniões

George Gomes Coutinho — Carnaval e os pés de barro… da mídia

 

Michel Temer reproduzido como vampiro, representando o governo do Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff

 

 

Carnaval e os pés de barro da… mídia!

Por George Gomes Coutinho(*)

Após os festejos sob o domínio de Momo espero que meu público leitor tenha sobrevivido aos eventuais excessos permitidos nesta data. E como sabemos, sendo o Carnaval um de nossos ritos periódicos mais marcantes do calendário, agora 2018 arromba a porta. Não que indícios do que será esse ano não tenham sido apresentados em janeiro e na primeira quinzena de fevereiro. As peças do tabuleiro continuaram se movimentando. Algumas mais discretamente, afinal, os bastidores jamais pararam. Outras de maneira mais notória, vide o julgamento de Lula em segunda instância no final de janeiro.

Contudo há algo que chamou a atenção durante o período momesco e surpreendeu analistas, o que pode ser um indicativo de força política discursiva emergente para a conjuntura. O fato impossível de ser ignorado foi o desfile da escola de samba de São Cristovão no Rio, a Paraíso do Tuiuti. O desfile ocorrido na madrugada de segunda apresentou uma narrativa que estava sufocada pela grande mídia oligopolista, o que trouxe óbvio constrangimento para seus porta-vozes. Ao assistir o desfile carnavalesco o público atônito pode, mediante a catarse típica do festejo, se ver e trazer o “não dito”, o “impensé” lacaniano que pulula no inconsciente político. Tudo com uma eficiência comunicativa de dar inveja aos atores tradicionais da política.

Não se trata de novidade a crítica alegórica durante o Carnaval. Mesmo antes da Paraíso do Tuiuti blocos em todos país apresentaram críticas mandando às favas os conservadores. Contudo, o impacto simbólico provocado pelo pessoal de São Cristóvão em plena Sapucaí nos convida a uma reflexão. Os pés de barro da grande mídia foram expostos.

Não obstante o esforço metódico, entediante, monocórdico e totalitário da mídia tradicional em “vender seu peixe”, o que implica a defesa intolerante, acrítica e nada plural das reformas, aparentemente não houve a conquista do imaginário social. A Paraíso do Tuitui mostrou uma fratura no discurso, algo já apontando em pesquisas onde é evidente o rechaço à pauta conservadora. Se eu fosse membro das elites econômicas brasileiras veria o ocorrido como sinal amarelo. É preciso negociar com os de baixo. A outra opção é a barbárie e nada mais.

 

(*) Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

 

Publicado ontem (17) na Folha da Manhã

 

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