Opiniões

Igor Franco — Feliz Dia Internacional da Problematização

 

No próximo dia 8 de março, não dê flores a uma mulher, chame-a para uma pelada. Sim, futebol. Ou a Cláudia, da mesa do lado, nunca te disse da trivela de canhota dela? Ah, já sei. Você é daquele tipo que pressupõe que elas não gostariam de bater uma bola com a galera do serviço. Provavelmente, se tivesse um negócio voltado para mulheres, deixaria apenas revistas de moda e celebridades na recepção. Livre-se desse preconceito: encha a mesinha de centro com exemplares de Playboy e G Magazine, porque, afinal, não podemos pressupor a heterossexualidade de ninguém, tampouco a homossexualidade, o não-binarismo…

Se você não está entendendo nada, provavelmente perdeu o bonde da história e ainda não conferiu as “40 condutas micromachistas que você reproduz, ainda que não tenha consciência disso, publicadas no jornal El País por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A lista não-exaustiva — dada a criatividade e o ócio dos censores modernos — enumera uma série de comportamentos que você deveria abrir mão imediatamente, como o quase criminoso ato de chamar uma mulher de “linda”. Aliás, talvez fosse o caso de você não se dirigir a uma mulher antes que lhe seja permitido, sob pena de ofender a sensibilidade de quem quer que seja.

Segundo o mesmo portal de notícias, o dia 8 de março foi um “dia de luta”, cuja maior realização internacional foi levar aos trending topics a hashtag #MeToo, popularizada pelas artistas hollywoodianas. Soube-se que, a partir de agora, maridos violentos desistirão de suas agressões e islamitas – parceiros estratégicos do feminismo nos países desenvolvidos – permitirão que suas mulheres andem sozinhas sem que corram o risco de serem apedrejadas vivas. Nada mais pós-moderno do que a pretensão de mudar o mundo através de manifestações coletivas de sentimentalismo, fundamentadas na ignorância de que a simples denúncia de um mundo dividido entre oprimidas e opressores, identificados como todo “macho” que não compartilhe integralmente da visão feminista radical e passe por um processo de expurgo público de sua culpa hereditária e involuntária. Na insaciável tarefa de eleger culpados, censurar comportamentos e buscar a solução de todos os problemas reais através de manifestações virtuais, de fato sobra pouco tempo para que pessoas tão boas realizem uma análise mais detida a respeito das múltiplas causas da violência contra a mulher.

No Brasil, por exemplo, fiquei sabendo pela mesma matéria que milhares de mulheres marcharam contra o machismo e a violência, mas também contra Temer (???) e a Reforma da Previdência (???).

O Dia da Mulher carrega uma carga política indissociável, tendo sua origem mais conhecida nas manifestações de operárias russas à época da Primeira Guerra Mundial, culminando no direito ao voto, permitido às mulheres ainda durante o moribundo regime de Nicolau II, defenestrado pelos revolucionários dias depois. O dia 8 seria posteriormente reconhecido como feriado soviético, ligado umbilicalmente a diversas manifestações de partidos socialistas ao redor do globo. Após tal concessão a elas, os bolcheviques decidiram que as mulheres deveriam funcionar apenas como ferramenta do regime – a nova mulher soviética seria responsável por lançar a semente da revolução em suas casas. O divórcio foi facilitado e, em pouco tempo, dado o contexto da época, mulheres separadas e seus filhos eram cada vez mais numerosos entre os famintos. O desastre foi tão grande que a ditadura soviética precisou voltar atrás nas liberdades concedidas e incentivar a tão detestada família patriarcal. O regime ainda reservaria a elas vagas cativas em campos de trabalhos forçados, onde condições desumanas e estupros faziam parte do pacote.

Se você pensou que usar uma suposta data comemorativa como ferramenta política é prática nova do feminismo, está enganado. A esquerda é historicamente hábil em usar mulheres como massa de manobra. O resultado, invariavelmente, é piorar ainda mais a realidade para suas supostas protegidas.

E aí, Cláudia, já vestiu as chuteiras?

 

Este post tem 4 comentários

  1. Nossa, nunca vi em tão pouco espaço tanta abobrinha e juro que não consegui entender também se foi ironia ou não. E é por essas outras que ainda temos muito que lutar.

    1. Talvez seja, caso chamar as colegas do trabalho para uma peladinha seja uma ironia também mal compreendida.

      Abs.

  2. Obrigada pelo enorme desserviço!

    1. Olá, Luiza. Obrigado pelo comentário.

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