Campos dos Goytacazes,  18/07/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Igor Franco — Feliz Dia Internacional da Problematização

 

No próximo dia 8 de março, não dê flores a uma mulher, chame-a para uma pelada. Sim, futebol. Ou a Cláudia, da mesa do lado, nunca te disse da trivela de canhota dela? Ah, já sei. Você é daquele tipo que pressupõe que elas não gostariam de bater uma bola com a galera do serviço. Provavelmente, se tivesse um negócio voltado para mulheres, deixaria apenas revistas de moda e celebridades na recepção. Livre-se desse preconceito: encha a mesinha de centro com exemplares de Playboy e G Magazine, porque, afinal, não podemos pressupor a heterossexualidade de ninguém, tampouco a homossexualidade, o não-binarismo…

Se você não está entendendo nada, provavelmente perdeu o bonde da história e ainda não conferiu as “40 condutas micromachistas que você reproduz, ainda que não tenha consciência disso, publicadas no jornal El País por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A lista não-exaustiva — dada a criatividade e o ócio dos censores modernos — enumera uma série de comportamentos que você deveria abrir mão imediatamente, como o quase criminoso ato de chamar uma mulher de “linda”. Aliás, talvez fosse o caso de você não se dirigir a uma mulher antes que lhe seja permitido, sob pena de ofender a sensibilidade de quem quer que seja.

Segundo o mesmo portal de notícias, o dia 8 de março foi um “dia de luta”, cuja maior realização internacional foi levar aos trending topics a hashtag #MeToo, popularizada pelas artistas hollywoodianas. Soube-se que, a partir de agora, maridos violentos desistirão de suas agressões e islamitas – parceiros estratégicos do feminismo nos países desenvolvidos – permitirão que suas mulheres andem sozinhas sem que corram o risco de serem apedrejadas vivas. Nada mais pós-moderno do que a pretensão de mudar o mundo através de manifestações coletivas de sentimentalismo, fundamentadas na ignorância de que a simples denúncia de um mundo dividido entre oprimidas e opressores, identificados como todo “macho” que não compartilhe integralmente da visão feminista radical e passe por um processo de expurgo público de sua culpa hereditária e involuntária. Na insaciável tarefa de eleger culpados, censurar comportamentos e buscar a solução de todos os problemas reais através de manifestações virtuais, de fato sobra pouco tempo para que pessoas tão boas realizem uma análise mais detida a respeito das múltiplas causas da violência contra a mulher.

No Brasil, por exemplo, fiquei sabendo pela mesma matéria que milhares de mulheres marcharam contra o machismo e a violência, mas também contra Temer (???) e a Reforma da Previdência (???).

O Dia da Mulher carrega uma carga política indissociável, tendo sua origem mais conhecida nas manifestações de operárias russas à época da Primeira Guerra Mundial, culminando no direito ao voto, permitido às mulheres ainda durante o moribundo regime de Nicolau II, defenestrado pelos revolucionários dias depois. O dia 8 seria posteriormente reconhecido como feriado soviético, ligado umbilicalmente a diversas manifestações de partidos socialistas ao redor do globo. Após tal concessão a elas, os bolcheviques decidiram que as mulheres deveriam funcionar apenas como ferramenta do regime – a nova mulher soviética seria responsável por lançar a semente da revolução em suas casas. O divórcio foi facilitado e, em pouco tempo, dado o contexto da época, mulheres separadas e seus filhos eram cada vez mais numerosos entre os famintos. O desastre foi tão grande que a ditadura soviética precisou voltar atrás nas liberdades concedidas e incentivar a tão detestada família patriarcal. O regime ainda reservaria a elas vagas cativas em campos de trabalhos forçados, onde condições desumanas e estupros faziam parte do pacote.

Se você pensou que usar uma suposta data comemorativa como ferramenta política é prática nova do feminismo, está enganado. A esquerda é historicamente hábil em usar mulheres como massa de manobra. O resultado, invariavelmente, é piorar ainda mais a realidade para suas supostas protegidas.

E aí, Cláudia, já vestiu as chuteiras?

 

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