Opiniões

Igor Franco — Marielle, Lula e a suprema impunidade

 

 

 

Eu matei Marielle. Meus cúmplices foram milhões de brasileiros e o crime foi planejado em 2015, quando saímos às ruas pedindo o impeachment. Não. Não é uma confissão. Na verdade, é a acusação que me foi lançada por parte da esquerda radical que pretende apontar um culpado coletivo para a morte da vereadora. Diametralmente oposta aos meus acusadores está a direita que acusa Marielle pela própria morte. Seu crime seria a defesa dos “direitos humanos” – expressão utilizada pela esquerda (geral, não só a radical) para a defesa de grupos que se prestam ao seu projeto de poder. No cabo de guerra da narrativa mais indigna, a primeira derrotada é a verdade. Enquanto a disputa indigna se desenrolava nas redes sociais e as fake news eram reverberadas inclusive por autoridades legislativas e judiciárias, importantes atores da tragédia que realmente vitimou Marielle e o motorista Anderson movimentavam-se nas sombras.

Eis que, na quinta-feira, para a surpresa de ninguém, o STF deu à luz à penúltima jabuticaba forense: após horas de discussões enfadonhas, os ministros decidiram que vão analisar sobre o habeas corpus de Lula em abril, mas que, até lá, o juiz Moro está proibido de decretar a prisão do comandante do Petrolão. Uma vez que o pedido de habeas corpus em nada difere do que se analisou na sessão anterior, ninguém em sã consciência confia em algum resultado que não seja liberar Lula do cumprimento de sentença até que se esgotem os recursos. Como a desgraça brasileira não pode ser contada sem traços de comédia, o golpe fatal na perspectiva de punição de réus igualmente poderosos foi postergado por conta do check-in do ministro Marco Aurélio Mello num voo para um compromisso privado – cujo comprovante foi exibido em plenário, como se o público precisasse de provas da falta de noção e republicanismo dos ministros.

Ao fim e ao cabo, o STF conseguiu, numa só tacada, reestabelecer a cultura de impunidade que vigora há mais de 500 anos em nossas terras, além de dar um sinal inequívoco de que há classes especiais de cidadãos, dentre os quais está o corrupto Lula e diversos outros corruptos e corruptores que, através dos milhões desviados ou favorecidos, escapam das grades através dos intermináveis recursos disponibilizados pela nossa débil legislação.

Imaginar que grande parte dos 60 mil mortos anuais — aos quais Marielle e Anderson e dezenas de outros se juntaram desde o dia 14 de março — não sejam explicados pela baixíssima perspectiva de encarceramento por longos períodos talvez só seja mais ingênuo do que acreditar que decisões como a de semana passada não tenham efeitos nefastos e duradouros sobre a percepção dos cidadãos a respeito das regras aos quais estão sujeitos. A mente de criminosos, assim como a de qualquer ser humano, trabalha a partir de relações de custo-recompensa, em que são pesados os benefícios do crime (por exemplo, a vantagem financeira ou a eliminação de um potencial problema aos interesses do negócio criminoso) e os riscos envolvidos (prisão ou morte). Quanto mais desfavorável essa relação — ou seja, quanto maior o índice de elucidação de crimes, quanto maior a chance de ser preso e processado etc, menor tenderá ser a propensão a delinquir. Nenhuma pessoa que não esteja segura de sua impunidade decidirá metralhar uma autoridade em uma das maiores cidades do país. Assim, não é nenhuma surpresa que o país da impunidade, cuja sala de troféus acabou de ganhar um lustroso exemplar, também seja um dos campeões de violência e corrupção.

Assim como somente psicopatas podem afirmar cometer crimes por convicção e não por oportunidade, também apenas a minoria da população possui uma crença inabalável na virtude de uma sociedade aberta, plural e democrática. Sob a desculpa implícita de evitar o caos social, diversos ministros do STF atuaram para que o resultado da votação favorecesse o popular ex-presidente corrupto e supostamente semear a paz numa sociedade machucada por uma crise político-econômica que parece não acabar. Na última semana, porém, a semeadura foi da erva-daninha que, se não controlada, terminará por substituir nossa frágil democracia.

 

Este post tem 3 comentários

  1. A mensagem inscrita pelo STF com a não sentença é a pior possível, num momento em que parecíamos, nós brasileiros, emergir do lodo em que fomos enfiados por nossos corruptos e corruptores. Parabéns Igor! Belo texto!

  2. Ainda tem quem o defenda.
    Como acabar com tamanha aberração, se a ignorância é íntima de uns.

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