Campos dos Goytacazes,  19/06/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Ricardo André Vasconcelos — “O Mecanismo” e o penteado de “Janete”

 

 

 

A despeito de muxoxos aqui e ali, a série “O Mecanismo”, tem a virtude de mostrar, com a contundência adequada, o fenômeno da corrupção sistêmica no Brasil. E, ao contrário do que faz parecer o chororô dos que lançaram prosaica campanha de cancelamento de assinatura da Netflix, em nenhum momento da obra se diz que a corrupção nasceu com o PT. E nem que vai morrer com ele. A corrupção é apartidária e não tem ideologia. Produzida por José Padilha, o mesmo que escancarou ao mundo os bastidores do conúbio entre o Estado e o crime organizado no Rio de Janeiro em Tropa de Elite I e II, desta vez o tema é a operação Lava Jato, inspirado no livro do jornalista Wladimir Neto. Além de produção, Padilha divide a criação com Elena Soares e a direção com Felipe Prado e Marcos Prado.

Os oito capítulos do que se espera ser a primeira de algumas temporadas já estão disponíveis desde sexta feira, 23, no serviço de streaming mais popular do Planeta. Quem viu só até o terceiro ou quarto episódios pode até desconfiar que o foco da série ficaria restrito aos governo petistas, mas se seguir adiante vai ver, na opção didática no desenrolar dos episódios seguintes que metástase funciona como adjetivo próprio para o mecanismo, que vem de longe, muito longe.

Assisti a série entre sábado e domingo. Revi alguns trechos para produzir esse texto buscando a fidelidade de alguns diálogos. Oito capítulos de 45 a 50 minutos cada e em alguns momentos fui obrigado a recorrer ao recurso do close caption (CC) para entender a dicção dos atores ou amenizar a deficiência técnica do áudio. As imagens de Brasília e Curitiba são lindas, mas o cinema brasileiro ainda claudica na  sonorização.

Os personagens reais tiveram seus nomes adaptados, mas de forma a que o expectador, mesmo o que não acompanha com mais atenção o noticiário, possa identificar, seja pela grafia ou sonoridade, a quem representam na vida real. O juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, mostrado como tão corajoso quando vaidoso é Paulo Rigo, o doleiro Roberto Ibraim  e o diretor de abastecimento da “PetroBrasil”, João Pedro Rangel, são respectivamente Sérgio Moro, Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa.

É revelador o primeiro contato de João Pedro/Costa   com procuradores da República para tratativas iniciais visando uma delação premiada.

— Quando começou o esquema? perguntou o procurador do Ministério Público Federal  Dimas (que seria o Deltan Dallagnol).

— Tudo começou em 1808 com a vinda de D. João VI para o Brasil. É sério. Naquela época quem mandava eram os comerciantes, os traficantes de escravos. Eles eram os donos do dinheiro… hoje são as empreiteiras”.

Se não bastasse o diálogo acima para garantir a relativa independência que se espera de uma obra que mistura realidade e ficção, o narrador apresenta o senador Lúcio Lemes, candidato da oposição na disputa pela sucessão presidencial de 2014 contra a então presidenta Janete Ruskov, como “um político tão corrupto quanto eles”. Aliás, não vejo muito sentido na reação irada da ex-presidente Dilma Rousseff, que em várias passagens da série fica bem na fita, como por exemplo, quanto recusa o conselho do ex-presidente João Higino (Lula) para trocar o comando da PF e ouve de volta:

— Janete, me escuta pelo menos uma vez na vida, criatura!

É óbvio que os diálogos não são exatamente fiéis porque não se trata de um documentário, como consta no aviso antes de cada episódio: “Este programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais. Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático”. A despeito da advertência há o que aparenta ser uma exacerbação do papel do ex-ministro da Justiça de Lula, Márcio Tomaz Bastos, um dos maiores criminalistas do Brasil, apresentado como o “bruxo”, e capaz de “transformar bandido em santo”. O personagem, Mário Garcez Brito, articula um acordo com 12 das 13 maiores empreiteiras do país (só a Miller & Bretch, Odebrecht, na vida real) ficou de fora, para pagar uma multa de R$ 1 bilhão e encerrar as investigações. A obra sugere que o acordo com o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot só não foi adiante porque o criminalista morreu.

Além de Márcio/Mário, quem ganha destaque negativo na série de Padilha é o STF. Num momento crucial para a trama e vida real, as investigações são enviadas para a Corte Suprema porque havia dois deputados envolvidos. A reação dos presos, que comemoraram efusivamente a decisão, foi a mais contunde crítica da obra ao sistema nacional de justiça e ao foro privilegiado. O curso mudou quando o juiz Sérgio Moro inovou — o mérito é dele — e desmembrou o processo mantendo na primeira instância os investigados sem foro privilegiado e o STF acatou, por decisão da maioria. A partir daí a história mudou. Literalmente.

Há exageros que emprestam aos petistas que se rebelaram contra a obra de José Padilha alguma razão, principalmente em alguns diálogos e cenas furtivas. Logo no primeiro episódio, o vice-presidente Samuel Thames diz ao ex-presidente Higino que está sendo procurado insistentemente pelos “açougueiros de Goiânia”, alusão explícita aos irmãos Joesley e Wesley Batista, “São de toda confiança,” avalizou o ex-presidente. Certamente não gostaram, também de ouvir da boca do personagem que representa Lula que “é preciso estancar essa sangria” da lava Jato, enquanto a autoria é comprovadamente do senador Romero Jucá (MDB-RR) flagrado em gravação pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Assim como podem espernear do exagerado agradecimento inserido no discurso da presidente reeleita ao vice-presidente, que àquela altura já conspirava contra sua queda. A cena de um empreiteiro mostrando ao ex-presidente um apartamento à beira-mar, também pode despertar indignação, mas injusta, porque existiu na vida real.

Dos cardeais do PT, a reação mais indignada, até agora, veio da ex-presidente Dilma Rousseff. Para ela, na série “O Mecanismo”, José Padilha espalha fake news, além de ameaçar uma campanha internacional contra a Netflix. Talvez a ex-presidente não tenha visto todos os oito capítulos, especialmente o final do último — desculpem o spoiler — quando o senador Lúcio Lemes/Aécio Neves diz para o vice-presidente Samuel Thames/Michel Temer, que ela (Dilma) “não vai frear” a Laja Jato e insinua que ali começa a articulação do golpe que daria no impeachment.

— Ela não vai frear. E se ela não frear, nos temos que frear ela.

— Não é uma costura difícil. Nos temos que puxar o Penha, responde o vice-presidente numa alusão previsível ao deputado Eduardo Cunha.

— O Penha, puxamos o Penha sem problema…

— E o Penha puxa o resto. A mídia vai ajudar…

— Já prepara o teu amigo da revista “Leia”…

— A Leia já tá com a gente…

— Temos que vender a ideia de que o problema são eles.

— Por mim está feito. E você, segura essa?

— Vicissitudes do cargo de vice. Diz Thames solenemente.

Mais do que ouviu, Dilma pode não ter gostado que viu, porque a atriz que interpreta a presidenta Janete Ruskov, a veterana Sura Berditchevsky ostenta um penteado pavoroso e que inclusive, faz parte de um diálogo hilário com a marqueteira de campanha, a partir de um improviso:

—  Com pesados investimentos em energia eólica, dei ordens para desenvolvimento de uma nova tecnologia para estocar vento.

— Presidenta, vamos tentar o texto do Tony? Ele insistiu tanto!

— Está exagerado?

— O quê? — perguntou a marqueteira.

— O cabelo? — encerrou Janete.

 

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