Opiniões

Orávio de Campos — Queda de um líder bolivariano

 

 

 

Gostaria de ter talento jurídico para analisar o longo julgamento, pelo STF, do habeas corpus solicitado pelos causídicos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentando livrá-lo do recolhimento às masmorras do Estado, em virtude da condenação confirmada em segunda instância, tendo como raiz a ação de ter recebido o tríplex do Guarujá como propina de empresas beneficiadas por contratos na Petrobras.

No contexto das acusações pesa, ainda, uma série de outros desvios de conduta pinçados pela operação Lava Jato, com processos em fase de instrução, para evidenciar as reformas, de forma espúria, por parte de Lula, de um Sítio em Atibaia. Isso significa que o cerco, por parte do sistema jurídico brasileiro, estava, já há alguns anos, se fechando em torno do homem considerado o mais respeitado político das américas.

Como não manjamos muito das filigranas verbais (mistura de retórica e dialética, como prevê a coerência aristotélica) usadas pelos ministros do STF para a justificativa dos seus votos, o que deve ter sido um prato riquíssimo para os operadores do direito, preferimos, neste espaço, lamentar os acontecimentos com a certeza de que o agora “paciente” teve todas as chances para se postar, com relevo, dentre às lideranças bolivarianas.

O assunto, pela importância do ex-presidente, que, entre outras coisas relevantes, fez o país avançar em termos de desenvolvimento de suas classes menos aquinhoadas aos meios creditícios, elevando-lhes o status-quo econômico, dividiu o país em grupos embandeirados, contrastando as cores amarelas (moristas) e vermelhas (lulistas) numa luta em que a massmidiocracia acabou escolhendo, mesmo com o esforço da imparcialidade, assumir uma posição estratégica ditada por seus próprios interesses.

Enquanto petistas apaixonados assinalam que Lula se transformou em vítima de crime político (?), porquanto alegam condenação sem provas, a oposição ensandecida não percebeu, ainda, que a Lava Jato teve/tem por meta principal a inelegibilidade do líder, fato originado pelo chamado “golpe de 2016”, em que a presidente Dilma foi afastada pelo Congresso, tendo à frente as articulações de então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, por conta de simples pedaladas fiscais.

Esperamos que, agora, a nação acorde e eleve suas bandeiras para que outros políticos acusados de corrupção, escudados pelo manto dos foros privilegiados, como Temer, Aécio e seus sicários, sejam processados e que, também, sejam recolhidos às cadeias, instaurando-se a moralidade apregoada pela nossa gente simples, de norte a sul, estimulada pela campanha da Globo sobre o que queremos de melhor para o Brasil.

O placar de 6 a 5 mostra que Lula está com muito prestígio, ainda. E que, mesmo fora da disputa para a presidência, poderá emplacar uma boa indicação para as eleições deste ano. Mas quem? Não há no PT ninguém com seu carisma. Isso deixa a direita assanhada, bem como oficiais do Exército, que andam, com o apoio midiático, repetindo carcomidos dísticos que embasaram o infeliz e desastroso golpe de 1964.

O tempo, senhor de todas as coisas, se encarregará de nos dizer o que virá depois dessa tempestade política (e jurídica). Com certeza a bonança viria (?) da plena conscientização da massa eleitora com relação ao seu sagrado direito de voto. Como varrer do mapa essa plêiade de fichas-sujas se as regras do jogo eleitoral não mudaram? As velhas raposas vão continuar arrecadando para seu caixa dois, comprando sufrágios e aparecendo na TV com discursos sedutores. Alguém duvida?

É uma pena. Lula tinha tudo para se tornar o grande ícone da política latino-americana. Mas, para governar, teve que ceder, negociar posições, beneficiar bancos com seus juros astronômicos, prestigiar “amigos”, criar mensalões… Com a fragmentação dos sindicatos, dificilmente aparecerá outra liderança igual, comprometida com as classes trabalhadoras, mas esquecida de que é impossível transformar alguma coisa, no cerne do capitalismo, sem a eclosão de movimentos revolucionários.

É uma pena. Lula era a esperança. Pelo menos dos mais humildes…

 

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