Campos dos Goytacazes,  20/04/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Guilherme Carvalhal — O policial Pedro

 

 

 

O policial Pedro acordava sempre na angústia de não saber se estaria vivo ao fim do dia. Aceitou de bom grado as tarefas logo quando se interessou pelo concurso, ciente dos dias como qualquer candidato ao emprego. Cabia-lhe uma missão de esvaziar o mar usando um balde e com esse salário ele mantinha sua casa e sua família.

Recebia suas ordens de coronéis, capitães e sargentos e olhava para as ruas sempre reticente. Ali, pela periferia onde patrulhava, prendia ladrões e traficantes, recebia aplausos e vaias. Lá pela parte nobre raramente circulava e quando o fazia olhava complacente os jovens que flagrava dirigindo bêbados, seguindo uma cartilha não escrita vinda de cima para baixo.

Assim, Pedro seguia entre mudanças no comando da polícia, novos governadores e suas promessas de campanha que tentavam colocar em prática, as reclamações com a defasagem salarial e tudo mais quanto poderia acontecer. Lia pelos sites da internet as pessoas clamando que a polícia deveria matar bandido e se sentia bode expiatório de uma sociedade que lançava sobre ele e seus pares um desejo de matar que não tinha coragem de saciar por conta própria.

O grito por justiça repentinamente clamado o deixava atordoado. Pelas ruas a torcida uniformizada gritava como se toda corrupção tivesse evanescido. A crença por algo repentinamente novo se alastrava e ele, com sua farda e seus compromissos, não identificava ao certo o quê.

Os fatos se acumulavam. Ex-presidente preso, bilhões recuperados, uma forte ofensiva contra a corrupção. Até enxergou isso tudo como algo bom. Só não se empolgava como todos aqueles com quem se encontrava.

No seu dia a dia, recorriam os fatos de sempre. Acharam cadáver dentro de uma caçamba de detritos, caçou uma dupla que assaltou um mercado, e constava o quanto a violência crescia independentemente de quaisquer esforços. E a grande parte da população, distante dessa realidade, vibrava com fatos que ela conhecia apenas pela televisão como se cada novo raiar do sol trouxesse um mundo mais perfeito para todos.

 

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