Opiniões

Guilherme Carvalhal — A mina de ouro do meu pai

 

 

 

Quando meu pai achou o filão de ouro, toda a dinâmica da vila mudou. Meu pai enriqueceu e boa parte dos vizinhos começou a trabalhar para ele. Com tal labuta, o patamar financeiro geral cresceu e saíram do estado de mendicância. As antigas choupanas de madeira deram lugar a casas de alvenaria. Compraram carros, tiverem energia elétrica. Quando as pessoas passaram a andar de bolso cheio, todo tipo de comércio surgiu. Tudo mudou e a prosperidade reinou.

Quem anteriormente percorria as ruas cabisbaixo e sem perspectivas passou a olhar o mundo de queixo erguido. Os mineradores constituíram uma classe orgulhosa e meu pai um empreendedor digno. Todos o enxergavam como um salvador da pátria, o homem que trouxe o desenvolvimento, que nos ligou ao mundo com a estrada e a ferrovia, que trouxe deputado estadual para falar com a gente. Até ergueram um busto em sua homenagem.

Após sua morte, tocar o empreendimento tornou-se um grande desafio para mim. Eu vivia à sombra dele, nunca sendo eu mesmo, mas sempre o filho do herói. Assumir a empresa consistia em um fardo que herdei, sempre sob os olhares implacáveis de quem demandava o mesmo desenvolvimento das últimas décadas.

Por uma ironia do destino, logo o sonho amainou e o desespero tomou conta de mim. Mês após mês a quantidade de ouro se reduzia e isso indicava o esgotamento do veio. A empresa pela primeira vez começou a apresentar resultados negativos e cabia a mim tomar medidas.

O primeiro corte de mão de obra gerou forte polêmica. Os demitidos se revoltaram e me xingaram afirmando que na época de meu pai isso não ocorreria. Os que continuaram se encheram de apreensão, temendo pela sua hora. Mesmo assim, os resultados negativos permaneceram, pois cada vez saía menos ouro da terra.

O efeito logo foi sentido. Muitas lojas fecharam por falta de compradores e a criminalidade cresceu. Os demitidos colocavam seus móveis e carros à venda, muitos deles negociavam até a própria casa. A escassez fez que nem isso conseguissem e os móveis se entulharam nas varandas com placa de “vende-se”.

O primeiro mês em que nenhum grama de ouro foi desencavado levou ao desespero. Sem receita, precisei tirar dinheiro dos fundos da empresa para pagar todos os custos, fundo esse já deteriorado após os meses de resultado negativo. Tentei segurar ao máximo, porém os três meses seguintes corroboraram a realidade: a mina estava esgotada.

Decretei falência e usei as sobras de dinheiro para quitar todos os débitos. Paguei os direitos trabalhistas, os impostos, o banco. Faltou capital e precisei colocar os bens da empresa à disposição. No fim das contas meu próprio patrimônio se esgotou e sobrou-me apenas a mansão construída por meu pai, bem diante da praça que ostentava seu busto.

Assisti pela sacada todo o progresso ruir feito um castelo de cartas quando o vento sopra. O clima de felicidade foi trocado pela tristeza e pelo ressentimento. Brigas surgiam constantemente. O alcoolismo se fez mais presente. A sujeira acumulou, as casas se arruinaram.

Quando a fome se generalizou, todos andavam lá e cá sem rumo. Um, mais revoltado, tacou uma pedra contra minha janela. Um efeito hipnótico acometeu sobre todos, localizando o verdadeiro responsável pela penúria. E todos avançaram contra minha casa.

Assisti portas derrubadas e móveis destruídos. Eu implorava por paciência, mas a destruição amainava o desespero reinante em cada um. Iniciaram um fogo e lançavam quadros, copos e talheres, oferecendo um sacrifício para que a prosperidade novamente se instalasse.

Por fim, me amarraram e deixaram ali dentro para queimar com tudo mais. À medida em que as chamas avançavam pelo carpete e pelas cortinas, restou pedir perdão para meu pai. E, em minha agonia, pude ver seu semblante surgir debochando de meu final.

 

Deixe uma resposta

Fechar Menu