Opiniões

Paula Vigneron — Branco e preto

 

Br 101 no trecho Campos/Rio, em 8 de fevereiro de 2018 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Pai Nosso que estais no céu…

— Não adianta — respondeu a voz que o perseguia há noites. Guias de seus dias.

— Santificado seja o Vosso nome — as mãos cruzadas em frente ao peito; os joelhos marcados pelas marcas do piso.

— Estou dizendo: não adianta. Não insista — falou, em tom mais grosseiro, o homem sem rosto.

— Venha a nós o Vosso reino.

— Não será feita a Sua vontade. Você sabe, rapaz. Eu te disse. Não tem por que insistir.

— Seja feita a Vossa vontade — pequenas gotas de suor escorriam pela testa enrugada de tensão.

— Sente-se aqui, na sua cama, ao meu lado.

Cortou a oração. Olhou para trás, onde estava localizado o móvel. Vazio. “Estou enlouquecendo. Esse é o preço?”

Mãos à frente do corpo. Concentrou-se. Agora, estava perdida a oração. Precisava recomeçar.

— Pai Nosso que estais no céu…

Aguardou a interferência. Dez segundos de silêncio.

— Santificado seja o Vosso nome…

— Venha a nós o Vosso reino.

Parou novamente. Respirou fundo. Será que é isso que chamam de consciência? Aquela coisa independente que está dentro de você e julga todos os seus atos-erros-acertos-desistências-bingo! Deveria ser. Ou o princípio da loucura inevitável.

— Seja feita a…

— …Vossa vontade. Assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje…

— Pelo amor de Deus, cale essa boca — soltou as mãos. Ergueu-se. Os joelhos latejavam. Estava incomodado. Nunca fora dado a orações. Na hora em que sente a necessidade de buscar respostas, ou sopros divinos transformados em calmaria, se depara com algo. Alguém. Uma voz sem fisionomia dizendo-o que não vai adiantar. O discurso vinha sendo repetido há dias. Olhou ao redor. Não havia ninguém no ambiente.

O quarto estava vazio, exceto pela sua presença. A casa também. Há tempos, não sabia o que era receber visitas; pessoas interessadas em vê-lo, ouvi-lo e rir de suas tentativas de piadas. Passava as noites dialogando com televisão e redes sociais. Rindo de idiotices extremas que não faziam o menor sentido, mas preenchiam sua vida de sentido. Qual seria o sentido disso tudo?

Em pé, com as mãos soltas ao lado do corpo, encarou as paredes. Precisava tentar novamente.

— Pai Nosso que estais no céu…

— Quer que eu continue? Ou você prossegue e se decepciona com o resultado?

Rodou ao redor de seu corpo. Continuava procurando a origem daquela voz. Ouvia-a claramente, mas não conseguia saber de onde vinha o som. Soava abafado. De repente, parecia vir de dentro das paredes. Quem poderia estar escondido ali? Dirigiu-se para trás da cama. Tateou os quadros pendurados. Uma risada incômoda tomou todo o quarto. Estava nitidamente sendo ridículo.

— Isso mesmo. Ridículo.

— Mas como sabe? Eu não falei a palavra “ridículo” em momento nenhum.

— Certas coisas não precisam ser faladas.

— Pai Nosso que estais no céu…

— Santificado seja o Vosso nome — complementou.

— Você vai continuar finalizando a minha oração?

— Acho que sim. Você sabe finalizá-la sem depender de mim?

— Mas não sei nem quem é você.

— Vamos continuar, então: Venha a nós o Vosso reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje. Prossiga.

— Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Parou por uns minutos, encarando o chão. Estava manchado. Sentiu afinidade e desligou-se da oração. Olhou em direção à mesa de cabeceira. Ali, continuava o porta-retrato. O vidro conservava as rachaduras do dia em que ele foi lançado contra a parede. Mas mantinha-o no mesmo lugar, com o mesmo retrato em branco e preto.

— É sintomático você esquecer o “Pai Nosso” justamente no momento em que pediria para que Ele não te deixe cair em tentação. Será que conseguirá? — uma gargalhada ecoou pelo ambiente. Sem perceber, ele se dirigiu até a mesa em uma súbita mudança de intenções. Segurou o porta-retrato e, mais uma vez, repetiu a cena: lançou-o contra a parede. Desta vez, o objeto ficou completamente destruído.

Abismado com a ação, correu, entre risadas alheias, em direção ao quadro. Resgatou o retrato. O mesmo sorriso, não destruído pelo tempo e suas reviravoltas. O olhar penetrante. Intrigante. Chutou os cacos. Caminhou e colocou a fotografia sob os travesseiros. O silêncio novamente dominou o quarto. “Não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos de todo o mal. Amém.”

 

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