Opiniões

Corrida presidencial sem Barbosa e com dúvidas a 5 meses da urna

 

 

 

 

 

Barbosa pula fora

Com a desistência de Joaquim Barbosa (PSB) de disputar a presidência da República em outubro, o quadro se simplifica e complica ao mesmo tempo. A decisão do pré-candidato socialista foi anunciada ontem ao melhor estilo Donald Trump: numa nota de Twitter. Nela, alegou ser “decisão estritamente pessoal”. Ao público, os motivos reais permanecerão tão misteriosos quanto os que o levaram a pedir precocemente sua aposentadoria do Supremo Tribunal Federal (STF), do qual foi presidente e figura de proa no julgamento do Mensalão, que levou gente graúda da política nacional à cadeia, como o ex-deputado federal José Dirceu (PT).

 

Nem tão igual a 1989

Pela pulverização, há quem compare a eleição presidencial de 2018 à de 1989. Em termos, pois em maio de 1989 já tínhamos três candidatos destacados nas pesquisas: os então ex-governador de Alagoas Fernando Collor de Mello, ex-governador do Rio Leonel Brizola (1922/2004) e ex-deputado constituinte Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sem este no páreo de 29 anos depois, barrado pela Lei da Ficha Limpa, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) apareceu liderando, com 17%, em empate técnico com a ex-senadora Marina Silva (Rede), que teve 15%. Foi na pesquisa Datafolha, feita entre 11 e 13 de abril, já após a prisão de Lula no dia 7.

 

Juntos e misturados

No pelotão logo atrás de Bolsonaro e Marina, o embolo foi ainda maior. Nos três cenários Datafolha com o ex-prefeito paulista Fernando Haddad (PT) no lugar de Lula, Barbosa ficaria entre 9 e 10%, ao lado do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 9%; seguido de perto pelo ex-governador paulistano Geraldo Alckmin (PSDB), de 7% a 8%; e do senador paranaense Álvaro Dias (Podemos), entre 4% e 5%. Na margem de erro da pesquisa de dois pontos percentuais para mais ou menos, a tradução é: apesar da leve vantagem de Bolsonaro e Marina, outros quatro presidenciáveis os seguem em empate técnico e com aparentes chances na disputa.

 

Duas tendências

Aí veio o instituto Paraná, em pesquisa de 27 de abril a 2 de maio, e apontou no contraste o que parecem duas tendências. A primeira? Já detectada na queda de seis pontos pelo Datafolha, entre janeiro e abril, a sangria de Lula pode ainda não ter estancado: no Paraná, sua liderança foi de 27,6% — cerca de 10 pontos abaixo do seu teto. Pelo último instituto, sem Lula, Bolsonaro surgiu com 20,5%. Ou seja: pode ainda não ter batido teto. Mesmo semelhantes, são números, datas e metodologias diferentes. Mas se a próxima Datafolha vier com nova queda de Lula e nova ascensão de Bolsonaro, estarão cristalizadas as tendências.

 

Debate, capitão?

Na consulta Paraná sem Lula, Bolsonaro veio seguido de Marina (12%), Barbosa (11%), Ciro (9,7%) e Alckmin (8,1%). Todos tecnicamente empatados na mesma margem de erro de dois pontos para mais ou menos. Atrás deles, outra “coincidência” com o Datafolha: Álvaro Dias teve 5,9%. Se Bolsonaro confirmar os 20% das intenções de voto, é provável que concretize sua intenção de fugir dos debates no primeiro turno. Neles, ninguém mais do que Ciro parece disposto a enfrentar o ex-capitão do Exército. Também de temperamento assertivo, Barbosa seria outra interessante opção no confronto com o polemista de extrema direita.

 

Esperanças?

Ciro esperava contar com o upgrade de Haddad (e a transferência de votos de Lula) como seu vice. Mas a delação feita ontem à Lava Jato, pelo casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura, relativa a R$ 20 milhões de caixa dois à campanha petista à Prefeitura de São Paulo, em 2012, deve causar danos à opção até então mais viável a uma chapa PDT/PT. Já Alckmin, por enquanto livre da Lava Jato paulista numa manobra da Procuradoria Geral da República (PGR) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sonha em ter Álvaro Dias (e seus 5%) como vice e trabalha pelo apoio velado do governo Michel Temer (MDB), mais impopular da história.

 

Questões

Sem Barbosa, o papel de “outsider” da fragilizada política brasileira tende a ser disputado por Bolsonaro e Marina. Ainda que o primeiro tenha sido um irrelevante batedor de tambor por sete mandatos na Câmara Federal, enquanto a segunda já foi vereadora, deputada estadual, senadora, ministra e candidata a presidente. O fato é que a grande pergunta da corrida presidencial era: quem vai herdar os votos de Lula? Depois do tuíte de desistência de ontem, cercado do mesmo mistério de quem saiu antes da hora também do STF, a questão agora é: quem vai herdar os votos de Barbosa? É muita dúvida para menos de cinco meses das urnas.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

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