Opiniões

Orávio de Campos — “O Theatro do Brasil” de Múcio da Paixão

 

Múcio da Paixão

Registrado, pela sua importância no campo da teatralidade, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, entidade fundada em 1838, o livro “O Theatro no Brasil” (Editora Moderna, Rio de Janeiro, 1936) de autoria de Múcio da Paixão (1870-1926), é caminho obrigatório para quem deseja pesquisar, desde suas origens, o desenvolvimento da dramaturgia brasileira, a partir do evento que a história oficial resolveu denominar de “descobrimento” das terras de Santa Cruz.

Aliás, a não ser outro livro com o mesmo título, de Galante de Souza, com visível diálogo com o original para alcançar seus objetivos, sem que fosse necessário, é a única referência disponível, embora poucas bibliotecas do país o possua em seu acervo de raridades históricas, justificando-se, por essas razões, sua reedição como um presente às novas gerações para as quais Múcio não passa de um nome de rua, situada no bairro do Turfe Clube, segundo registro do historiador Waldir Pinto Carvalho.

Autor, também, de outros livros históricos, sendo os mais expressivos “Espírito Alheio – Episódios e Anedotas de Gente de Teatro” (1917); e “Movimento Literário em Campos (1924), o preclaro professor do Liceu, teatrólogo, crítico teatral, jornalista de fôlego e deputado pelo Partido dos Operários na primeira eleição republicana, dentre outras ações no avir de seu tempo, foi o fundador do Sindicato dos Empregados no Comércio, que à época era uma Associação de Caixeiros.

Ainda sobre “O Theatro no Brasil”, cujo registro exordial refere-se à cena portuguesa nascida em 8 de junho de 1502, “ (…) dia em que o cômico e actor Gil Vicente se apresentou no paço do Rei D. Manuel, e ahi foi até à câmara da Rainha D. Maria, então aliviada do parto em que dera à luz o príncipe que foi D. João III, perante a qual recitou o Monólogo do Vaqueiro (…), o autor campista, filho de lusitanos de Guimarães, não teve recursos para editar a obra, quando foi finalizada, em 1917.

A publicação, com edição limitada, só foi possível, postumamente, a partir do esforço de seu filho mais velho, René de Castro Soares, em 1936, que, na primeira página assina uma declaração afirmando que o custeio ficou por conta do grande ator Procópio Ferreira, ao qual faz um sentido agradecimento, aclarando que “o lucro que houver será revertido para o Sindicato dos Trabalhadores de Teatro em São Paulo e para o Retiro dos Artistas em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro”.

Ao propomos a reedição do livro, pode parecer, hoje, uma contradição, uma vez que presidimos, enquanto secretário de Cultura do Governo Rosinha Garotinho, o Conselho Editorial da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, que, naquele período, editou e reeditou cerca de 40 títulos, por ocasião das bienais do livro nos anos de 2010, 12, 14 e 16, iniciativa auspiciosa do saudoso professor Lenilson Chaves, por inspiração feliz do grande escritor e seu amigo Ziraldo.

É que em sendo descendente direto de Múcio não nos sentíamos bem em propor a reedição, até porque, com exceção da igualmente saudosa conselheira Maria Helena Gomes, atualmente residindo nas paragens do Itaoca — Olimpo dos artistas desta terra cujo céu azul não há igual no mundo (Azevedo Cruz) —, os demais integrantes preferiram Alberto Lamego (pai), Manuel Martins do Couto Reis e edições históricas no campo da antropologia e da arqueologia representada pelo “Sitio do Caju”.

Não estamos arrependidos por não usarmos a força política para alcançar o pleno “desideratum”. Foi melhor assim. Mas, distante do sistema e claramente (hoje) seu opositor no campo das idéias, voltamos a pensar no assunto. E vale a declaração da importância da reedição de “O Theatro no Brasil”, uma síntese histórica da dramaturgia luso-brasileira, entre 1501 a 1917. Quem sabe, sensibilizado, não aparece algum mecenas, como ocorreu com Procópio Ferreira, em 1936?

 

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