Opiniões

Fada-madrinha para liberar estradas e combater o crime

 

 

 

Chama o Exército!

A paralisação dos caminhoneiros nas estradas cerceia o direito de ir e vir? Chama o Exército! A criminalidade explodiu em Campos? Chama o Exército! Ontem, em decisão da 4ª Vara Federal de Niterói, foi determinada a desobstrução da BR 101 entre a ponte Rio/Niterói e a divisa com o Espírito Santo, com apoio do Exército no cumprimento da decisão. Também ontem, o delegado da 146ª DP de Guarus e o comandante do 8º BPM anunciaram que esperam a ajuda do Exército no combate ao crime em Campos, como anunciado pelo general Richard Nunes, secretário estadual de Segurança Pública, em visita ao município na terça (22).

 

Caminhoneiros e sociedade

Motivada pelos consecutivos reajustes no preço do diesel, a causa dos caminhoneiros parece justa. Mas é consequência das altas do barril de petróleo e do dólar. Se não pode ser corrompida para financiar projeto político, como foi nos governos petistas de Lula e Dilma, a Petrobras tem também uma função estratégica nos rumos do país. Entre uma coisa e outra, quem paga o pato é a sociedade. Em Campos e municípios vizinhos, como em todo o Brasil, os efeitos do desabastecimento são sentidos pelo cidadão em seu cotidiano, seja nos postos de combustível, nos supermercados, nas feiras, nas escolas e no transporte público.

 

Deficiência estratégica

Ouvidos ontem pela Folha, os caminhoneiros parados no trecho da BR 101 que corta o município já se mostravam cientes da decisão judicial e da possibilidade do Exército desobstruir a rodovia. E, pelo menos no discurso, não se intimidaram e garantiram que vão manter o movimento até que a redução no preço do diesel seja realidade na boca das bombas. Se isso de fato acontecer, ficará cada vez mais evidenciada a falta de pensamento estratégico em um país continental como o Brasil, refém dos caminhões pelo transporte de cargas ineficiente por ferrovias, vias fluviais e navegação marinha de cabotagem.

 

Crime em Campos

Por outro lado, o Exército é esperado pelas Polícias Civil e Militar de Campos como aliado na luta contra a violência, que explodiu com a guerra do crime organizado pelo controle do tráfico de drogas em Guarus. Ontem, um jovem de 20 anos foi preso e apresentado como o “matador de Nolita”. Como esta coluna contou em detalhes (aqui) na edição do último dia 17, Francio da Conceição Batista, o Nolita, seria o chefe do tráfico no Parque Santa Rosa. Mesmo ligado à facção Amigos dos Amigos (ADA), que controla o tráfico Baleeira, ele seria contrário à união com o Terceiro Comando Puro (TCP), que comanda o tráfico na Tira Gosto.

 

Pelinca aguarda?

Nolita foi preso em 8 de março, após comandar uma série de invasões armadas em residências. Só que depois disso, no lugar de atenuar, a violência se intensificou. Em maio, Campos já teve 15 homicídios. Em 2018, foram 105, 65 deles (ou 61,9%) em Guarus. Na noite de quarta (23), a nova vítima não foi fatal, mas prova como os criminosos não respeitam mais ninguém, nas duas margens do Paraíba. Um soldado da P2, serviço reservado da PM, foi baleado de raspão em frente a Tira Gosto. E a sociedade parece esperar que alguém tenha menos sorte na Pelinca, para se revoltar contra o que banaliza enquanto Guarus é o foco.

 

Fada-madrinha

Após sair da nossa última ditadura militar (1964/85) desgastado, o fato é que o Exército vem reassumindo papel de protagonismo no país. Egresso das suas fileiras, o ex-capitão e deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas para presidente nos cenários sem o ex-presidente Lula, preso e que dificilmente poderá concorrer. Tirar as Forças Armadas da cartola, seja na intervenção federal no Estado do Rio, desobstruir a BR 101 ou combater a explosão do crime em Campos, parece estar virando hábito. Mas, ainda que seja hoje cioso do seu devido papel constitucional, o Exército não é fada-madrinha. Ninguém é.

 

Crítica

O deputado federal Wadhi Damous (PT), ex-presidente da OAB/RJ, foi citado criticamente (aqui) na edição desta coluna da última quarta, por seu apoio público ao governo Nicolás Maduro na Venezuela. Responsável pela ruína financeira daquele país, que exportou mais de 3 milhões de refugiados (10% da sua população) pelos países vizinhos, numa grave crise humanitária da América do Sul, Maduro foi reeleito no último domingo. O pleito teve forte suspeita de fraude e foi condenado por vários países, incluindo Brasil, EUA, Canadá, México, Argentina e Chile. Damous respondeu ao “Ponto Final”. Em nome do contraditório, publicamos abaixo:

 

Resposta

“Os direitos humanos são os mesmos no mundo todo. Grande parte da responsabilidade pelo desabastecimento de produtos básicos ao povo venezuelano é da própria elite daquele país, aliada ao maior responsável de todos: o governo dos EUA. Ambos investem no quanto pior melhor, cada qual a seu modo: uns com sabotagem, outros com aplicação de sanções econômicas contra a economia venezuelana. Mesmo assim, Maduro venceu as eleições por ampla margem de votos, cerca de 70%. Com toda a crise, cerca de 30% dos eleitores foram às urnas, percentual similar a várias eleições norte-americanas”.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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