Campos dos Goytacazes,  19/06/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Paula Vigneron — Tantos

 

Pôr do sol em Atafona, 29 de agosto de agosto de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A janela fechada tornava ainda mais escuro o quarto. Era o segundo da casa, usado por sua mãe na adolescência. Entre fumaça de sucessivos cigarros, ela buscava decifrar o som ao redor. Crianças na rua. Passos pela casa. Gatos e cachorros em confusões, divididos entre o seu e outros quintais. Conversas gritadas por vizinhos. Uma batida oca sinaliza a continuidade de obras.

Fechou os olhos. Por ali, passaram tantos outros. Avós, tios, primos, amigos. Amores de diversas naturezas e períodos. Uns mais. Outros menos. Assumia: era incapaz de se recordar quantos dividiram, por breves ou longos momentos, cantos de seu recanto. Ligou o som. A música a levara, rapidamente, a uma época não tão remota de sua vida, quando passava horas trancada em uma sala, em um monótono trabalho. Ainda com os olhos fechados, mais um trago no cigarro e nas lembranças, que a atingiam sem que esperasse.

“Ah, se eu pudesse viver das minhas memórias.”

Era criança. Gordinha, com a franja quase sempre desalinhada. Corria de um lado para outro. Ou usava um velotrol quando era chamada. Mais um trago no cigarro. Era inevitável sorrir nestas horas. Também era brava. Não gostava quando apertavam sua bochecha. Doía. Era fácil deixá-la zangada. Uma vez, em um bar, segurara, com irritação, a mão de um homem desconhecido que havia se apoiado em sua cadeira, puxando e afastando-a em seguida. Por fim, encarou o estranho. Era menina. Não passava de seis anos. E não temia.

“Ah, se eu pudesse viver das memórias.”

Levantou. Esticou as pernas. Caminhou pelo cômodo pouco mais escuro. As horas pareciam passar em minutos. A cabeça vagava enquanto segurava, entre os dedos, o cigarro para mais um trago. Sentia a fumaça percorrer o seu corpo. Estava novamente correndo por espaços antes seus. A piscina cheia de crianças e adolescentes em uma tarde de férias. Perguntara a um amigo, mais velho, quanto tempo faltava para o horário em que sua mãe a autorizara a mergulhar e brincar com os outros.

O rapaz respondera, pacientemente, atento às brincadeiras à beira d’água. Cinco minutos depois, como se cronometrasse o tempo, perguntou novamente. Ainda não. Mais cinco minutos até interromper o menino, que ralhou:

— Não adianta ficar perguntando porque o tempo não vai passar mais rápido!

Ela esperou enquanto olhava, ansiosa, os outros gargalhando em brincadeiras. O tempo passou. Não só os desejados mais cinco minutos para a hora de brincar, mas anos. Anos e anos e anos que silenciaram as gargalhadas à beira da piscina e a voz e o sorriso daquele rapaz. Agora, ela temia.

Respirou fundo. “Ah, se eu pudesse”, disse, com a voz rouca pelo silêncio. Tocou a testa, buscando a franja desalinhada. Riu. Por vezes, via-se menina outra vez. Quase sempre, olhava-se no espelho e enxergava, junto ao reflexo de sua imagem, outros tantos rostos. Era parte de cada traço com que cruzara ao longo de sua vida. Deu o último trago e colocou a ponta do cigarro no cinzeiro, apagando-o. A linha de fumaça desfazia-se diante de seus olhos.

Abriu a janela. Parou em frente ao espelho. Observou atentamente. Era um misto: vozes, rostos, sorrisos. Novos, velhos. Homens, mulheres. Sentimentos. Histórias, idas e vindas. Era tantas e tantos. Tocou novamente a testa. Sorriu. Com mãos mais preparadas, agora, era capaz de ajeitar a quase sempre desalinhada franja.

 

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