Opiniões

Orávio de Campos — A Morte de Lydia Lambert

 

 

 

Não existem coincidências dentre as narrativas propostas pelos principais memorialistas quando escrevem sobre a história da cidade. Mas, de certa forma, pelo estilo de cada um, podemos, claramente, identificar suas razões ideológicas e o fato de pertencerem (ou não) à bolha social do seu tempo, pela tentativa de esconder, pelo simulacro, qualquer tipo de indícios sobre a culpabilidade de um ou de outro personagem ilustre envolvido com a natureza do crime.

Há muitos anos, causa-nos espanto o fato descrito por Gastão Machado (1899-1964: Os Crimes Célebres de Campos), Horácio de Souza (1878-1937: Cyclo Áureo), Júlio Feydit (1845-1922: Subsídios para a História de Campos dos Goytacazes) e Hervé Salgado Rodrigues (1914-1995: Campos – Na Taba dos Goytacazes), dando conta da “Morte de Lydia Lambert”, cujo corpo, vítima de estupro e asfixiamento, aparecera boiando no Porto Grande, defronte à Rua Santos Dumont, que à época tinha o nome de Rua Direita.

Manhã do dia 29 de junho de 1866. Estivadores encontraram o cadáver da bela mocinha, de cerca de 20 anos de idade, filha de Manuel da Barca e neta do vice-cônsul francês, Jules Lambert, uma pessoa importante porquanto inaugurara em 02 de julho de 1846 a barca-pêndulo, única forma de atravessar para o outro lado, segundo registro do Dr. Hervé (p.58).  Estava o corpo em meio à sujeira comum nos portos onde a sociedade despejava seus excrementos no Paraíba.

Feydit (p. 473-474), que fora vereador, prefeito e delegado, narrou o seguinte: “A 29 de junho de 1866 foi encontrada morta, no Porto Grande, uma moça de cor parda, de nome Lydia, filha de Manoel da Barca, mestre da Barca da Passagem, de onde lhe veio aquele apelido. Os médicos opinaram que ela não morrera por submersão, mas sim por lhe taparem a boca para que não gritasse, enquanto era violentada. Era então Delegado de Polícia o Dr. José Joaquim Herédia de Sá, que procurou descobrir o criminoso sem nada conseguir; e, por essa razão, sendo muitos os indiciados, ainda hoje o mesmo mistério envolve o autor do crime”.

Souza (p.354), diz que “(…) o crime ficou até hoje envolto em denso mistério (...)”. E, também, noticiou: “E causa pasmo que um crime tão monstruoso não pudesse ser desvendado pela polícia, não deixando de si um só indicio para a descoberta do espírito diabólico que o concebeu e praticou”. Gastão, um dos maiores teatrólogos desta urbe, preferiu, com o pseudônimo de Gil de Mantua, romancear o caso e sua narrativa acaba misturando as possibilidades do real com rasgos ficcionais, fechando o crime com conjecturas misteriosas.

Quem nos dá alguns indicativos positivos é Hervé (p.58), muito mais corajoso ao descrever: (…) “O crime figura no livro de Gastão Machado, ‘Os Crimes Célebres de Campos’ e ficou impune, sendo provável o motivo porque um dos principais suspeitos era um velhote, rico capitalista”. E opina: “O negócio foi tão bem abafado que nem Gastão registrou, porque não pode, o nome do capitalista que perseguiu a moça nas ruas com galanteios e fora por ela repelido. Sempre o dinheiro garantindo impunidade”.

Através de um exercício sobre literatura comparada, envolvendo os escritores, por dedução, considerando-se a época em que a cidade estava concentrada no espaço do centro histórico, chega-se à figura do maior capitalista de então, José Martins Pinheiro (1801-1876), agraciado, pelo Imperador Pedro II, com o título de Barão da Lagoa Dourada, após ter doado, em 1865, 10 contos de réis para a campanha bélica dos “Voluntários da Pátria”. Era, também, comendador da Imperial Ordem de Cristo.

Tido como mulherengo pelos seus patrícios, o barão contava, à época do crime contra Lydia Lambert, 65 anos de idade, exatamente como narra Hervé, que o criminoso poderia ser um velhote rico, capitalista e de muita influência na cidade. O que se sabe, a posteriori, é que o Barão nunca mais teve paz na vida, a ponto de, no dia 29 de julho de 1876, 10 anos depois, deixando uma carta testamento dirigida do Alferes Antonio Lopes Rangel, atirou-se da Ponte sobre o Rio Paraíba, inaugurada três anos antes.

Vivia tomado pelo remorso como o que sentira Românovitch, o personagem principal de Dostoievski, no “Crime e Castigo”. Os memorialistas falam que ele estava falido, o que não corresponde à realidade. No documento ao alferes cita “ter sido vítima da irresponsabilidade de amigos e estar velho e doente, motivo porque suas propriedades estavam abandonadas, reinando enorme indisciplina entre seus escravos”.  O tema nos faz embarafustar nos arquivos públicos em busca de sua peça exordial. O Barão pode ter sido o autor da morte de Lydia Lambert e as pesquisas em documentos oficiais poderão esclarecer o crime, 152 anos depois.

Nos registros constam que defronte ao lugar onde encontraram o cadáver estuprado e asfixiado da filha do barqueiro francês, havia o “Banco das Cismas”, onde se reuniam poetas e escritores, como Manoel Moll, Múcio da Paixão e Theófilo Guimarães, para tertúlias literárias. O lugar poderia ter sido o ethos da inspiração de Azevedo Cruz para tecer o seu mais expressivo poema — “Amantia Verba” — traduzido como versos amantes à terra em que nasceu.

Bom, mas esta é uma outra história…

 

Este post tem um comentário

  1. Perfeito! Muito importante resgatar sempre a nossa História

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