Opiniões

Guiomar Valdez — Não me Khalo, Chê, sou uma antiprincesa

 

 

No mês de março/2018, recebi mensagens e informações nas redes sociais do lançamento naquele mês (‘da Mulher’) da boneca ‘Barbie Frida Kahlo’, dentro do programa da marca, ‘Barbies — Mulheres inspiradoras’!

Meu incômodo não é com a produção e com a comercialização dessa mercadoria ‘inspiradora’; e, nem me espanta. Minha frustração foi constatar em muitos comentários, de fortes e inteligentes pessoas de lutas político-sociais, que elas acharam ‘menos mal’, que ‘gostou da ideia’, ‘que para o bem ou para o mal, representa avanço’, que ‘pode ser um resgate do melhor dessa boneca’, que ‘quero uma agoooora’, etc, etc, etc.

Ou seja, quem produziu, por que produziu, como está sendo ‘vendida’, nada, nada disso e muito mais, não importam. O que importa é compartilhar rápido, é opinar rápido, é adquirir rápido o símbolo ‘Frida Kahlo’ e ficar tranquilos, pois acredita estar contribuindo para o progresso da justiça, da liberdade e das lutas das Mulheres, por exemplo.

Realmente vivemos no apogeu de uma sociedade-sistema do ‘fetichismo da mercadoria’. Vejamos:

O que é MERCADORIA? É o que se produz para o Mercado; para a venda, e, não, para o uso imediato de quem produziu.

Mercadoria existia antes da sociedade-sistema que vivemos há mais ou menos 200 anos? SIM. Qual a ‘novidade’? É que o nosso sistema, revolucionou, potencializou infinitamente, a maneira de produzir para o Mercado, transformando tudo, com o tempo, em Mercadoria. Inverteu-se revolucionariamente a lógica da produção, não é a necessidade (valor de uso) que dita a produção; é a demanda da produção que dita o consumo (valor de troca).

A própria vida humana foi mercantilizada. Sabem por quê? Porque tudo foi reduzido a um VALOR que pode ser medido em DINHEIRO; e, uma das primeiras dimensões humanas a se transformarem em Mercadoria foi o Trabalho, a força de Trabalho.

Como é vista por nós a MERCADORIA, uma boneca, por exemplo? Como algo de vontade independente de seus produtores; o movimento das mercadorias, das coisas no mercado acontece como se fosse um movimento automático, independente da vontade das pessoas; e, paradoxalmente, o Mercado e as mercadorias, são, digamos assim, ‘humanizados’ – o mercado está ‘nervoso’, a boneca ‘subiu’, o petróleo ‘caiu’, etc.

O ‘fetichismo da mercadoria’ constitui-se, sem percebermos, num fenômeno social e psicológico, numa relação social entre pessoas, mediada por coisas/mercadorias…é como se as pessoas agissem como coisas, e, as coisas, como pessoas. Aspectos subjetivos, imateriais, são transformados em objetivos, em coisas reais, na aparência da mercadoria.

Dominados pelo ‘fetiche’ e pela ‘reificação’, é possível compreender a capacidade do nosso sistema produtivo, transformar até aquilo que o critica e o combate, em Mercadoria. Observem como o ‘símbolo Chê’ aparece como mercadoria em camisetas, bonés, etc., completamente desarticulado do conteúdo histórico-crítico ou vestido como mera e frágil contestação – vende e vende muito, até em grifes.

Vejam que essa capacidade ‘criativa-destrutiva’ no modo de produzir, tem uma capacidade de transformação impressionante no campo cultural. Da mesma forma que acontece com o ‘Chê’, realiza-se, dentre outros, nos movimentos musicais de caráter popular e de periferia e nas artes cênicas, em especial, na dança. É desapropriada a expressão crítica, libertadora, no momento em que se transforma em Mercadoria. Pois o ‘valor’ pode ser medido em dinheiro, ok?

E, se tiver o potencial consumidor público-alvo, melhor ainda …

Até aspectos dos movimentos político-sociais, têm uma ‘medição mercantilizada’, e, na proporção em que se fragmentam, contribuem na reprodução da forma e conteúdo da sociedade-sistema em que vivemos. A opressão, a violência, o preconceito, a falta ou a perda de direitos, a desigualdade, é sentida e vivida isoladamente. O ‘fetichismo’ impede a unidade, e, alimenta-os (movimentos) com novas Mercadorias afinadas aos interesses de cada fragmento atomizado.

Se tudo na/da Vida é transformado em Mercadoria, a Morte também o é. Armas, Guerras, Drogas, Órgãos humanos, etc., já foram transformados em Mercadorias há muito! Elas têm o seu valor transformado em dinheiro, em riqueza, e, também em poder, mas não apenas. O ‘fetiche’ desarticula nossa compreensão mais aprofundada, e, ficamos neste tema e no seu combate, reduzidos ao tráfico e a corrupção — fenômenos da aparência dessas Mercadorias!

É isso! Ao refletir naquele momento, sobre o Dia Internacional da Mulher, reconheço avanços histórico-culturais, SIM! Mas, insuficientes! Insuficientes em qualidade e em quantidade! Ainda somos, a maioria de nós, ‘fetichizadas pela ideia de princesas’ e dos seus encantos de vida, que já morreram e não foram enterrados! Enquanto isso, vivemos como fantasmas…

Por isso, não me ‘KAHLO’!

Assinado: uma ANTIPRINCESA!

 

PS: A QUEM INTERESSAR POSSA … as bonecas estão sendo vendidas (em março) a partir de R$249,99 e fazem parte do Barbie Shero Program, “iniciativa que já transformou em bonecas outros ícones femininos da atualidade.”

 

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