Opiniões

Acusação de racismo para tentar inverter o jogo entre futebol e política

 

No último dia 13 de abril, antes da Copa da Rússia, Özil presenteou o controverso Erdogan com sua camisa 11 do Arsenal (Foto: Reuters)

 

O meia Mezut Özil, do Arsenal, anunciou ontem nas redes sociais que não defenderá mais a seleção da Alemanha. Filho de pais turcos, o campeão da Copa de 2014 saiu atirando e acusou os dirigentes da Federação Alemã de racismo. O pomo da discórdia foi uma foto que o jogador fez em maio deste ano com o presidente da Turquia, o controverso Recep Erdogan, que estava em plena campanha de reeleição.

Na ocasião, a foto e sua ampla divulgação foram alvo de críticas de dirigentes do futebol alemão. Mas como Özil era o camisa 10 da seleção então campeã do mundo, uma das favoritas ao título na Rússia, a coisa ficou por isso mesmo. Daí veio a Copa. E o jogador e sua seleção não jogaram nada.

Titular no primeiro jogo, na derrota de 1 a 0 contra o México, Özil foi sacado do time na vitória de 2 a 1 sobre a Suécia. E, inexplicavelmente, voltou a ser titular na vergonhosa derrota de 2 a 0 para a Coreia do Sul. Por questão de futebol, não racial, sua presença em campo foi unanimemente encarada pela crítica internacional como um dos motivos do retumbante fracasso alemão.

Herdeira dos Impérios Bizantino e Otomano, além do controle sobre boa parte do mundo islâmico, a Turquia era uma das maiores potências do mundo até I Guerra Mundial (1914/18), quando foi derrotada junto com a Alemanha. O que restou do país foi salvo na Guerra de Independência Turca (1919/23) liderada pelo militar Mustafá Kemal Atatürk (1881/1938), que fundou a República da Turquia como estado laico e foi seu primeiro presidente.

O culto à figura do fundador da Turquia moderna, que sobrevive até hoje, é criticado pelos islâmicos, que dizem não adorarem santos. Ironicamente, o líder mais marcante que o país teve de lá para cá foi Erdogan. No poder desde 2003, ele é considerado um anti-Atatürk, por ter resgatado a promiscuidade entre religião e política banida do país desde a década de 1920, quando já era encarada como sinônimo de atraso.

Por contestações como essa, Erdogan sofreu uma tentativa de golpe fracassada em 2016. Que respondeu fortalecendo seu poder, baseado no populismo religioso, em condições de exceção que perduram. Cerca de 107 mil servidores públicos e soldados foram demitidos e mais de 50 mil pessoas estão até hoje presas. Mais de 5 mil acadêmicos e 33 mil professores também perderam os empregos. Sem contar cerca de 150 jornalistas detidos desde 2016.

Foi a esse tipo de líder político que Özil apoiou publicamente antes da Copa. Meia técnico, ele sempre foi, no entanto, o tipo de jogador conhecido como “vaga-lume”: que acende e apaga durante uma partida. Por essa inconstância, não conseguiu se firmar no Real Madrid, do qual foi liberado para tentar a sorte no Arsenal.

Aos 29 anos, pelas atuações de pouca qualidade e nenhum comprometimento na Copa da Rússia, Özil tinha seu desligamento da seleção alemã tido como certo. Mas, quase um mês após a eliminação germânica do Mundial, o jogador agora alega ter sido vítima de racismo, porque apoiou o governante do país de seus pais, de clara inclinação autocrata, e foi repreendido no país democrático em que nasceu.

Ao simular vontade própria em sua despedida da seleção da Alemanha, após a crônica esportiva do mundo já ter decretado seu adeus, Özil tenta usar o politicamente correto para inverter o jogo. Só pode colar com quem não entende nada de história, geopolítica, ou  futebol. Infelizmente, é a maioria da “torcida”.

 

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